Antioquia: a igreja e sua missão (Estudo 1)

Autor: Josivaldo de França Pereira
Estudo bíblico de Atos 13.1-3

“Havia na igreja de Antioquia profetas e mestres: Barnabé, Simeão, por sobrenome Níger, Lúcio de Cirene, Manaém, colaço de Herodes, o tetrarca, e Saulo. E servindo eles ao Senhor e jejuando, disse o Espírito Santo: Separai-me, agora, Barnabé e Saulo para a obra a que os tenho chamado. Então, jejuando, e orando, e impondo sobre eles as mãos, os despediram” (At 13.1-3)

Uma das primeiras coisas que podemos observar como resultado da ação missionária do Espírito Santo em Atos é o chamado ou vocação de obreiros para a missão. Em Atos o cronograma de Cristo para a igreja é cumprido à risca pelo Espírito. Sua missão é glorificar a pessoa de Jesus Cristo na continuação do que Ele começou a fazer e ensinar através de homens e mulheres que O amam.

O texto bíblico relata que “havia na igreja de Antioquia profetas e mestres” (At 13.1).

Breve histórico

Antioquia (da Síria), também conhecida como Antioquia do Orontes por causa do rio de mesmo nome, era a mais famosa das dezesseis Antioquias fundadas por Seleuco Nicátor em memória de seu pai Antíoco, por volta do ano 300 a. C. Nos tempos do Novo Testamento Antioquia era a capital da província da Síria, a terceira cidade do império romano, célebre por sua riqueza, cultura e imoralidade.

Com exceção de Jerusalém, nenhuma outra cidade esteve tão ligada aos primórdios do cristianismo como Antioquia. Lucas registra em At 6.5 que certo Nicolau abandonara o paganismo grego e se tornara membro de uma sinagoga judaica em Antioquia.

Durante a perseguição que se seguiu à morte de Estêvão, alguns cristãos subiram para o norte até Antioquia (At 11.19), cerca de 480Km de Jerusalém, e ali pregaram aos judeus. Logo chegaram outros que levaram o evangelho aos gregos também (At 11.20), e como ocorresse ali muitas conversões, a igreja de Jerusalém enviou Barnabé a Antioquia. Vendo a graça de Deus naquela cidade, Barnabé foi até Tarso e trouxe Saulo consigo para o auxiliar (At 11.25,26). Durante um ano eles permaneceram em Antioquia ensinando muita gente.

Principais características da igreja de Antioquia

O caráter extraordinário dos cristãos de Antioquia foi demonstrado primeiramente naquele envio de esmolas para a igreja mãe de Jerusalém, quando a fome assolou esta cidade (At 11.27-30). Além disso, a igreja de Antioquia era o que nós podemos chamar de uma igreja semi-autônoma, isto é, apesar dela reconhecer o primado espiritual de Jerusalém, não seguia em todos os detalhes o ponto de vista evangelístico corrente ali. Desde o início de sua formação a igreja de Antioquia ministrava igualmente a judeus e gentios. E quando alguns judeus cristãos da Judéia visitaram Antioquia proclamando que os gentios deveriam ser circuncidados como pré-requisito para se tornarem cristãos, foi a igreja de Antioquia que, resistindo a essa imposição, enviou a Jerusalém uma delegação encabeçada por Paulo e Barnabé para resolver este impasse. O chamado Concílio de Jerusalém (c. 50 A.D.), o primeiro da história da Igreja Cristã, só aconteceu por causa das reivindicações da igreja de Antioquia. Contudo, o zelo missionário e evangelístico, notabilizado pelas viagens missionárias de Paulo foi, com certeza, a característica principal da igreja de Antioquia. “Era apropriado que a cidade onde foi fundada a primeira igreja cristã gentia, e onde os cristãos receberam seu nome característico, talvez sarcasticamente, fosse o berço das missões cristãs ao estrangeiro (At 13.1)” (1). A primeira viagem missionária aconteceu entre 45 e 50 A.D., quando Paulo e Barnabé partiram do porto Selêucia Pieria em Antioquia e velejaram para Chipre. Esta viagem, Ásia Menor a dentro, terminou quando Paulo e Barnabé voltaram para Antioquia e apresentaram um relatório de seus feitos para a igreja reunida. Paulo também começou e terminou sua segunda viagem missionária em Antioquia (c. 50 A.D.). Aquela igreja notável também viu o início da terceira viagem missionária (c. 54 A.D.).

Profetas e mestres

Os profetas e mestres do Novo Testamento em geral, e da igreja de Antioquia em particular, eram (principalmente os primeiros) o que os teólogos chamam de “órgãos ocasionais da inspiração”, isto é, profetas no sentido estrito da palavra, visto que no sentido amplo cada crente é um profeta. Através deles o Espírito Santo se comunicava com a igreja. Tendo isso em mente podemos entender sem maiores dificuldades como o Espírito falou em Atos 13.2 e, deste modo, evitar uma série de especulações desnecessárias. Uma vez que o versículo 1 diz que “havia na igreja de Antioquia profetas e mestres”, nada mais natural entender que “enquanto a igreja orava, o Espírito falou pelos profetas e tornou sua vontade conhecida” (2).

A urgência e soberania do Espírito

“Disse o Espírito Santo: Separai-me agora” (At 13.2). A expressão ‘afori/sate d//h/ moi (Separai-me agora) é totalmente enfática. A partícula grega d//h/ (agora) pode ser traduzida também como “agora mesmo”, “já”, “neste momento”, “imediatamente”. O verbo ‘afori/sate (separai) que é um aoristo do imperativo ativo de ‘afora/w, somado ao pronome pessoal moi favorece uma tradução assim: “Separai para mim mesmo de uma vez por todas”. A urgência do Espírito Santo para aquela missão é inquestionável. Além disso, a expressão ‘afori/sate d//h/ moi é uma das identificações da soberania do Espírito Santo no livro de Atos. A iniciativa de escolher e enviar missionários para onde quiser é uma prerrogativa do Espírito (cf. At 16.6-7). O Senhor Jesus já havia dito aos Seus discípulos: “Não fostes vós que me escolhestes a mim; pelo contrário, eu vos escolhi a vós outros, e vos designei para que vades e deis frutos, e o vosso fruto permaneça; a fim de que tudo quanto pedirdes ao Pai em meu nome, ele vo-lo conceda” (Jo 15.16). Em Atos a soberania do Espírito Santo é levada a sério. Ao contrário do que se vê hoje em dia, especialmente no meio pentecostal, em que pessoas por atrevimento ou ignorância talvez, dizendo-se cheias do Espírito Santo, querem fazer dEle o capacho de seus caprichos. Na Bíblia o Espírito Santo manda e Seus servos obedecem (At 13.2). Entretanto, Ele não age despoticamente. Em Atos o Espírito e a igreja trabalhavam, por assim dizer, em parceria (cf. At 15.28).

Os chamados

A ordem do Espírito Santo para a igreja de Antioquia era, então, a seguinte: “Separai-me agora mesmo a Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho chamado” (At 13.2). Duas coisas são evidentes nesta declaração. A primeira diz respeito aos chamados ou vocacionados pelo Espírito Santo. O Espírito manda separar Barnabé e Saulo. Quem eram Barnabé e Saulo senão a nata da Igreja Primitiva? O Espírito Santo é exigente. E Ele sempre vai pedir o melhor para missões. Isso tudo pede uma reflexão séria por parte da igreja brasileira, pois não são poucos os erros cometidos nesse particular. Quantas vezes nossos presbitérios enviam para o campo ou juntas de missões aquele candidato que não se saiu muito bem no seminário, ou até mesmo aquele pastor que sobrou na distribuição de campo porque nenhuma igreja local o quer por ser fraco de púlpito ou algo parecido? O Espírito Santo não precisa de e nem quer sobras. O Espírito exige sempre o melhor para a Sua obra. Não que a pessoa chamada pelo Espírito seja a melhor por sua capacidade e habilidade naturais, pelo contrário, será sempre alguém que o próprio Deus deverá capacitar com a Sua graça (cf. I Co 15.9,10; 2 Co 3.5; Ef 3.7,8). Uma coisa é certa: Se não é o melhor que a igreja manda para o campo, então não é o enviado do Espírito. Missões não é uma alternativa de trabalho para quem fracassou no ministério!

É interessante notarmos que João Marcos não estava entre os vocacionados pelo Espírito Santo. Pelo menos não naquela ocasião. Lembremos que Marcos já havia viajado com Paulo e Barnabé anteriormente (At 12.25). Depois, acompanhou Paulo e Barnabé na primeira viagem missionária (At 13.5), mas logo desistiu (At 13.13-15), tornando-se o pivô da separação entre Paulo e Barnabé na segunda viagem missionária (At 15.36-41). Tudo indica que Marcos não era o missionário certo (pelo menos até aquele momento) para a obra missionária. O Espírito Santo não somente conhece o campo missionário mas também o perfil do missionário certo.

A segunda coisa que observamos na declaração do Espírito é que Ele sempre vocaciona para uma missão específica. “Para a obra a que os tenho chamado”, diz o texto bíblico. Há tempos Paulo e Barnabé estavam sendo trabalhados pelo Espírito. Os dois missionários trabalharam juntos algumas vezes (cf. At 12.25). Como conseqüência disso o chamado para a missão passa a ser na verdade uma confirmação, isto é, o chamado de Paulo e Barnabé não aconteceu ali (At 13.2), mas apenas confirmou o que todo mundo, inclusive eles, sabia. Isto está claro no uso que Lucas faz do verbo proske/klhmai, imperfeito médio de kale/w, que indica uma ação ocorrida no passado mas confirmada no presente. Quer dizer, o Espírito confirmou perante a igreja de Antioquia o chamado de Paulo e Barnabé. “Quando o crente é chamado pelo Espírito, o mesmo Espírito o revela à igreja” (3).

NOTAS

1. R.K.Harrison, Antioquia (da Síria) em O Novo Dicionário da Bíblia, Vol. I, p. 85.

2. Simon J. Kistemaker, Exposition of the Acts of the Apostles, p. 455. Para outras interpretes veja Orlando Boyer, Atos: O Evangelho do Esprito Santo, p. 169.

3. O. Boyer, Op. Cit., p. 169.

Veja a sequencia em Antioquia 2

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