Unidade dos cristãos

Autor: Andreas Ding

“Onde estiverem reunidos dois ou três em meu nome, aí estou eu no meio deles!” (Mateus 18,20) 
 
Meditação sobre Êxodo 13, 17-22

“Quando o farão deixou sair o povo israelita, Deus não os levou pelo caminho que atravessa a terra dos filisteus, apesar de ser o mais curto, porque Deus pensou que os israelitas não iriam lutar, quando tivessem de o fazer, e que preferiam voltar para o Egipto. Por isso, fez com que eles se dirigissem para o deserto, em direcção ao Mar Vermelho. Os israelitas saíram do Egipto, como se fosse um exército. Moisés levou consigo os restos mortais de José, porque José tinha pedido aos israelitas que assim fizessem. José tinha dito: “Quando Deus vos vier tirar daqui, levem convosco os meus ossos.” Os israelitas saíram de Sucot e acamparam em Etam, onde começa o deserto. De dia, o Senhor ia à frente deles, como uma coluna formada de nuvens, para lhe mostrar o caminho; e, de noite, como uma coluna de fogo, para os alumiar. Assim, podiam caminhar de dia e de noite. A coluna de nuvens nunca saiu da frente do povo, durante o dia, nem a coluna de fogo, durante a noite.”

Finalmente o povo de Israel conseguiu pôr-se a caminho, saindo da escravidão no Egipto, para a libertação, para a terra prometida. Libertação da opressão, da exploração, da repressão – hoje seria a libertação da exclusão social, da exploração económica, da repressão de raças, religiões, da poluição do meio ambiente…

Não foi fácil para o povo de Israel, os hebreus, tiveram, que juntar toda a coragem. Foi um processo longo em que tiveram que ultrapassar vários obstáculos até chegarem ao ponto: é agora, agora vamos sair da escravidão, custe o que custar!

Parece que sair da escravidão não é nada fácil, pois significa deixar o habitual para trás, tudo ao que estamos acostumados; significa estar pronto para ir entrar no desconhecido; significa ir para a aventura, uma situação que pode ser perigosa, pois já não nos podemos agarrar às seguranças habituais da vida antiga.

Mas os hebreus acreditaram na promessa de Deus, venceram este inimigo interior, esta força interior que se agarra ao habitual, aos costumes, que encontra a sua segurança nas tradições, mesmo quando opressoras, que se prende ao antigo, mesmo quando o antigo nos prende.

Os hebreus na escravidão acreditaram na promessa, ou seja confiaram na força de Deus, superior à força da autoridade humana mais potente – na altura o Faraó –, confiaram na direcção de Deus e… puseram-se a caminho, em direcção à libertação.

Foi uma longa caminhada para eles, uma peregrinação de muitos anos, mas parece que todo este tempo, todos estes obstáculos foram necessários para as pessoas se desfazerem das garras da escravidão, tanto exteriores como interiores.

Houve, nesta caminhada, momentos altos e baixos, momentos de obediência e desobediência, momentos de esperança e momentos de desespero, momentos de fé em Deus e momentos de descrença absoluta, de oscilações e de firmeza – um pouco como nós hoje também.

Mas nesta caminhada de libertação e para a libertação, Deus estava presente, mostrando através dos sinais da sua presença, são descritos no Antigo Testamento como uma coluna de nuvens, de dia, e uma coluna de fogo, de noite.

Dia e noite, assim foi a experiência do povo peregrino, dia e noite Deus estava presente no meio do seu povo, no caminho da escravidão para a libertação, no processo de se desprender de todas as forças da escravidão, exteriores e interiores.

Não é também a nossa experiência que aqui é descrita neste texto bíblico? Hoje, neste encontro ecuménico, podemos falar de nós, igrejas aqui reunidas. Podemos dizer que a nossa experiência também é que muitas vezes nos encontramos numa situação de escravidão: quando lançamos guerras contra outras igrejas; quando a reconhecemos como Igreja de Cristo, ou não; quando reconhecemos o seu baptismo, ou não; quando reconhecemos o seu governo, seja episcopal ou sinodal, a supremacia do papa, ou não; quando reconhecemos a validade do seu ministério, ou não; ou quando celebramos em conjunto a eucaristia, ou não, como é o caso das igrejas aqui representadas, Católica Romana, Ortodoxa Grega e Presbiteriana.

Esta nossa escravidão é, na realidade, só uma pequena escravidão, mas uma, da qual beneficiam os grandes senhores do mundo. A verdade é que a nossa tarefa de Igreja de Jesus Cristo, manifesta em forma de várias igrejas, sejam elas católica, ortodoxa, protestante, a nossa tarefa é testemunhar ao mundo que há libertação da escravidão que envolve todos os seres humanos, sejam crentes ou não, adeptos de outras religiões ou não, a todos: são as garras do pecado e da morte, ainda bem actuantes neste mundo.

Somos, toda a Igreja de Cristo, chamados a testemunhar que Jesus Cristo veio para libertar o mundo destas garras.

E enquanto não o fizermos como Igreja, enquanto ficarmos em pequenas guerras inter-eclesiásticas, os senhores do mundo, que se põem no lugar de Deus, impondo a sua própria vontade, beneficiam da nossa pequena escravidão para manter a grande escravidão, a do mundo, a de toda a criação, que geme, como diz o Apóstolo Paulo, como que em dores de parto.

O mundo precisa que sejamos libertos da nossa pequena escravidão, precisa da nossa libertação, de nós, igrejas, para que a libertação do mundo possa ser proclamada, testemunhada, realizada e vivida.

Libertação dos dogmas e condenações de séculos passados, libertação de tradições humanas que escravizam, libertação de mentalidades antigas, libertação de lutas pelo poder – para que possamos dar testemunho da libertação do mundo, para que possamos trabalhar empenhadamente, cada igreja com a sua característica, como manifestação específica da encarnação do Espírito Santo, mas todas em conjunto – cumprir a nossa missão, para a libertação do mundo.

Pois foi com esta finalidade que o nosso Senhor Jesus Cristo instituiu a sua Igreja. E facto é que existem várias igrejas. Já não podemos tentar viver como se houvesse só uma verdadeira, com só uma verdade. A Igreja Católica Romana existe há 2 milénios. A Igreja Ortodoxa existe há 2 milénios, separada da Católica Romana desde o século XI. E a Igreja Presbiteriana (ou Reformada) existe há 2 milénios, separada da Católica Romana desde o século XVI.

Não adiante tentar fechar os olhos perante esta realidade de uma grande variedade de igrejas, como manifestações da Igreja una, santa, católica, apostólica, da Igreja de Jesus Cristo.

Para mim chegou o tempo, de juntarmos, como o povo de Israel o fez, toda a nossa coragem, para sairmos da nossa escravidão de igrejas, sairmos de uma situação que muitas vezes nos auto-limitamos, pelas nossas guerras pequenas e grandes, na nossa possibilidade de dar testemunho ao mundo, testemunho da libertação de todas as forças do pecado e da morte.

Chegou o tempo de confiarmos profundamente na promessa de Deus para o seu povo, para nós igrejas e para toda a humanidade, de uma terra onde não haverá mais limitações, mas abundância, uma terra onde manam mel e leite. De confiarmos na direcção de Deus nesta caminhada de libertação nossa, para a libertação do mundo, de confiarmos que Deus estará connosco dia e noite, no meio do seu povo peregrino, povo no caminho da libertação.

Será difícil, pois são várias as frentes de batalha, como o povo de Israel o experimentou também: são as frentes de batalha dentro de cada igreja particular, pois as forças da escravidão existem também dentro das nossas igrejas. São as frentes de batalha entre as várias igrejas. E finalmente as frentes de batalha para fora das igrejas, pois os senhores do mundo não querem que as igrejas deixem de se combater. Ao contrário, para os senhores do mundo é de grande vantagem quando as igrejas vivem mais para dentro do que para fora, quando se fecham dentro do seu pequeno mundo de igrejas, quando não cumprem a sua missão de testemunhar, de mil e uma maneiras diferentes, mas com força, que Jesus Cristo veio para libertar o mundo.

Este caminho de libertação das igrejas será um combate duro, uma luta constante. Vamos ficar às vezes fracos, vacilantes, sem esperança, sem confiança em Deus, vamos ter medo de perder a segurança do habitual, de não aguentarmos a aventura para o desconhecido, vamos querer deixar de lutar e querer voltar para a escravidão.

Mas temos um grande consolo: Deus conhece-nos, conhece a nossa fraqueza. Sabe que esta caminhada leva tempo, é uma caminhada pelo deserto. Estamos na mesma situação em que o povo de Israel se encontrou: “Quando o faraó deixou sair o povo israelita, Deus não os levou pelo caminho que atravessa a terra dos filisteus, apesar de ser o mais curto, porque Deus pensou que os israelitas não iriam lutar, quando tivessem de o fazer, e que preferiam voltar para o Egipto”, diz o versículo 17 do nosso texto bíblico.

Provavelmente também a nossa peregrinação, a nossa caminhada de libertação das igrejas, para a libertação do mundo, não será pelo caminho mais curto. De certeza será um processo longo. Mas quando estamos no caminho da saída da escravidão, quando estamos no caminho da libertação, podemos sempre, de dia e de noite, confiar na presença de Deus. Pois Deus está com o seu povo no caminho da escravidão para a libertação, Deus está no meio do seu povo.
 

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