Um projeto de revitalização para a igreja local

Autor: Josivaldo de França Pereira

O presente trabalho é uma tentativa de se apresentar, de modo prático (assim esperamos), alguns princípios fundamentais de revitalização da igreja local, visando seu crescimento numérico. Como ficará evidente, a nossa intenção não é lidar com modelos de igrejas propriamente dito, porque acreditamos que cada caso é um caso, mas nos basearemos em princípios gerais e em nossa experiência pastoral.

1. A REVITALIZAÇÃO DA LIDERANÇA
Não são poucas as igrejas que conhecemos que nos obrigam a fazer uma inevitável pergunta: “Onde está a liderança?”. Um líder não é capaz somente pela sua boa reputação dentro e fora da igreja, o que é deveras significativo. Mas também é preciso que ele capacite e equipe novos líderes, que por sua vez capacitem e formem outros líderes.
A pessoa do pastor é fundamental para a formação de uma liderança capaz e capacitadora. Existe boa literatura sobre administração eclesiástica que ajudarão o pastor neste empreendimento. Uma das funções do pastor é equipar os santos. Investir na formação de uma boa liderança é garantir o sucesso da igreja local. Para isso, a liderança deve ser constantemente revitalizada, receber novas orientações, a fim de contribuir na formação de novos líderes.

O pastor precisa delegar e distribuir tarefas. Um pastor centralizador compromete seu ministério e o futuro de sua própria igreja. Um pastor que pretende levar a carga sozinho não conseguirá ir muito longe. O que não falta nas igrejas são pessoas que querem trabalhar, mas não sabem como fazer. Pastor, ensine sua igreja a fazer. Confie no potencial de seu rebanho. Os resultados serão simplesmente surpreendentes!

Os líderes de igrejas que crescem concentram seus esforços em capacitar outras pessoas para ministérios específicos. Líderes capacitadores formam colaboradores, e não meros “ajudantes” ou “marionetes” com o intuito de alcançar seus próprios interesses. Pelo contrário, a pirâmide de autoridade é invertida: os líderes ajudam cada cristão de sua igreja a chegar à medida de plenitude intencionada por Deus para cada um. Eles capacitam, apóiam, motivam e acompanham a todos individualmente para se tornarem aquilo que Deus tem em mente; a saber, a varonilidade do Corpo de Cristo. “Líderes que se vêem como instrumentos para capacitar outros cristãos e levá-los à maturidade espiritual, descobrem como esse aspecto leva ‘por si mesmo’ ao crescimento” (C. A. Schwarz, O crescimento natural da igreja, p. 23). Em vez de fazer a maior parte do trabalho, esses líderes investem a maior parte do tempo na formação de novos líderes através do discipulado e do compartilhamento de tarefas. Assim, a energia investida por eles pode multiplicar-se quase infinitamente.
Sendo assim, como revitalizar uma igreja cuja liderança está cansada e os liderados insatisfeitos? Em nossa pouca experiência temos aprendido que o segredo do sucesso está no investimento. Invista-se na liderança e na formação de novos líderes e a igreja como um todo reagirá positivamente.
Quando fui pastor em uma das igrejas da Grande São Paulo, pude perceber um pouco da força do que acabamos de dizer. Pegamos uma junta diaconal debilitada e sem muito compromisso. Aos poucos (ir devagar é fundamental quando se chega em uma nova igreja) fomos renovando a junta diaconal, trocando os “irrecuperáveis” por novos. Investimos na nova liderança, viajamos com eles para um encontro de diáconos no Rio de Janeiro, recebemos orientações específicas de líderes de juntas diaconais que estavam dando certo e em pouco tempo a junta diaconal de nossa igreja se tornou uma das mais atuantes da Grande São Paulo. Os diáconos reconquistaram a credibilidade da igreja, e a mesma se colocou à disposição para ajudá-los no que fosse preciso. O que seria daquela igreja se todos os setores fossem revitalizados? Infelizmente não foi possível continuar ali para ver os
resultados.
Minha proposta é: 1) Quando uma liderança está “viciada” é preciso ser trocada. Geralmente não vale a pena tentar recuperá-la. É perda de tempo.

Tem que ser trocada. Aos poucos, mas precisa ser trocada. Revitalização nem sempre significa tentar recuperar o que não tem jeito. Mudança também é revitalização. Existe muita gente boa no ministério errado. 2) Tem muita gente nova na igreja que daria um bom líder. Meu ex-professor, Dr. Elias Dantas, disse acertadamente que “o maior fenômeno de revitalização na igreja é o crente novo”. E ele sabia o que estava dizendo porque levava isso a sério nas igrejas que pastoreava.

Mas como preparar uma liderança capaz e capacitadora, verdadeiramente revitalizada, sem que haja frustrações no futuro?

1º) Os ministérios devem ser orientados pelos dons
Acredito que muitos dos problemas de uma igreja, quer sejam de ordem espiritual, quer sejam de ordem administrativa, seriam resolvidos com mais facilidade, ou até mesmo não existiriam, se todos os membros da igreja descobrissem e usassem seus dons ministeriais. Orlando Costas (Compromiso y misión, p. 62) acertou quando disse que “o crescimento da igreja depende de uma eficaz mobilização de seus membros”. E esta “mobilização”, a meu ver, só é possível quando os membros de uma igreja estão no lugar certo.
Schwarz faz uma declaração alarmante: “De uma pesquisa que fizemos com 1600 cristãos ativos em suas igrejas, no ambiente de fala alemã, na Europa, descobrimos que 80% deles não sabem os seus dons espirituais”. Será que o resultado da pesquisa seria diferente se fosse feita com 1600 cristãos ativos nas igrejas do Brasil? Acredito que não e digo por quê. Ministrei sobre o tema na região sul do País durante quase um ano, e pude constatar que o resultado da pesquisa não foi diferente. 

Além de outros fatores indispensáveis para o crescimento da igreja, como veremos adiante, é fundamental que os ministérios sejam orientados pelos dons. Novos líderes devem ser formados a partir de seus dons.
Existem bons livros que poderão ajudar na formação de ministérios orientados pelos dons. Em português há pelo menos dois que recomendo: Quem é você no Corpo de Cristo?/ Lida E. Knight. Campinas: Luz Para o Caminho, 1994 e O teste dos dons/Christian A. Schwarz. Curitiba: Editora Evangélica Esperança, 1997.

2º) Formar discípulos para serem discipuladores
O discipulado que gira em torno de si mesmo está fadado ao fracasso. A preparação de um discípulo que não tem como objetivo a formação de outros não é bíblica. Um discípulo deve ser preparado para discipular e formar novos discípulos, que por sua vez discipularão e formarão outros e assim sucessivamente. Isto sim é bíblico, pois foi a tônica do ministério terreno de Jesus. Para isso preparou seus discípulos. 
A ênfase da Grande Comissão foi: “fazei discípulos”.
Infelizmente, o que temos visto na prática, em termos de discipulado, é a preparação que visa o crescimento espiritual do discípulo e nada mais que isso. Toda ovelha deve ser preparada para produzir outras ovelhas. Os discipuladores não devem perder isso de vista se realmente desejam formar líderes capazes.
E quem, por assim dizer, daria o ponta pé inicial do discipulado?  Como pastor, entendo que os próprios pastores deveriam iniciar o processo de discipulado, por uma simples razão: Uma das principais atribuições do pastor é instruir, orientar e superintender as atividades da igreja, a fim de tornar eficiente a vida espiritual do povo de Deus.

2. A REVITALIZAÇÃO DAS ESTRUTURAS ECLESIAIS
O que muito tem contribuído para o não crescimento, e até decréscimo na membresia de algumas igrejas, são aquelas estruturas enrijecidas pelo tradicionalismo e, portanto, não funcionais. Duas coisas, pelo menos, são necessárias para que as estruturas de uma igreja se tornem funcionais.

1º) A quebra de paradigmas

Paradigma é uma palavra de origem grega que significa “modelo” ou “padrão”.

Os paradigmas podem ser definidos como “verdades” que se fixaram na mente, indicando um jeito de ser, viver ou fazer as coisas. Para um estudo interessante deste tema sugiro a leitura do livro Quebrando Paradigmas/Ed René Kivitz. São Paulo: Abba Press, 1995.
Às vezes é preciso coragem para quebrar paradigmas que não funcionam mais e que, portanto, já não têm nenhum valor prático.
À primeira vista parece fácil mudar aquilo que se tornou obsoleto. Mas nem sempre é tão simples assim. Primeiro é preciso mudar a mentalidade dos acomodados e principalmente dos saudosistas, daqueles que confundem inovação com inovacionismo; a boa tradição com tradicionalismo.
O segredo do sucesso está num trabalho de conscientização sério e paciente.
Por uma questão de prudência e respeito com aqueles que não pensam como nós, é preciso que os paradigmas sejam quebrados aos poucos. As idéias e conceitos devem ser amadurecidos no meio da comunidade, sem atropelos, mas progressivamente. Uma coisa aprendi em meu ministério pastoral: Se a igreja não “comprar” a nossa idéia, não será por meio de decreto conciliar queconseguiremos qualquer êxito. Um diálogo franco, aberto e amigável é a chave do sucesso.

2º) Testes de qualidade
As estruturas da igreja devem ser constantemente testadas por sua liderança, a fim de serem revitalizadas e, desse modo, servirem melhor o organismo.
Tudo que não contribui para esse objetivo deve ser mudado ou eliminado.
Algumas coisas podem ser citadas como exemplos do que não devem passar pelo teste de qualidade de uma igreja local: liderança inibidora, horário e duração do culto inadequados, conceitos desmotivadores de administração das finanças, etc.
Por meio de um processo constante de avaliação e renovação, o surgimento de estruturas enrijecidas é evitado em grande parte.
 
3. A REVITALIZAÇÃO DO COMPROMISSO MISSIONÁRIO
Com o passar do tempo os membros de uma igreja local tendem a esquecer-se de seus compromissos missionários. Para se evitar isso é preciso lembrá-los constantemente da importância da igreja local para com a obra missionária no mundo. Neste caso específico, o livro Igreja local e missões, de Edison Queiroz, pode ser muito bem aproveitado.

1º) Um exemplo que deu certo
Aprendi com um colega de ministério a separar um domingo por mês para falar de forma mais específica sobre a importância da igreja local em missões. O Domingo Missionário, como era chamado, era dedicado às missões. Pregávamos sobre missões, a igreja orava por missões e contribuía financeiramente com a obra missionária. Mas isso não aconteceu de um dia para o outro. Foi preciso um trabalho de base, de muita conscientização e investimento que valeram a pena.
Entendíamos que separar um domingo por mês para missões era o mínimo que estávamos fazendo. O ideal seria todos os domingos. Mesmo assim foi gratificante. Segundo testemunho de irmãos antigos (que a principio foram relutantes), aquele foi um dos períodos mais abençoados na vida daquela igreja. E não poderia ser diferente. Quando uma igreja se envolve com missões, todas as demais áreas são abençoadas por Deus, inclusive a financeira. Prove!

2º) Uma questão de obediência e prioridade
A experiência nos ensinou que evangelizar não é uma opção de vida de uma igreja local, mas a própria vida de uma igreja local. O que está “matando” muito crente novo (que desperdício!) é a igreja não-funcional, que se limita a suas atividades internas, fechada em quatro paredes. A igreja local precisa resgatar sua visão missionária, excelência maior de seu chamado, como bem declarou o apóstolo Pedro: “Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” (I Pe 2.9).
Vejamos alguns exemplos de como a igreja poderá revitalizar sua visão missionária.

3º) Revitalizando a missão integral da igreja local
Como revitalizar uma igreja que começou com tanta empolgação para fazer missões e de repente esfriou? Em primeiro lugar, é preciso reconscientizar a igreja de sua missão no mundo. Em segundo lugar, é preciso conscientizá-la de que ela está no mundo para servir o mundo integralmente.
Se a igreja chegou a se empolgar com missão algum dia, é sinal que ela tem potencial para fazer, com a graça de Deus, o que fez antes. Sermões e estudos bíblicos missionários, filmes específicos como por exemplo As Primícias, Etal e Atrás do Sol, além do auxílio de associações evangélicas e agências missionárias, certamente produzirão novo alento.
A igreja deve ser redirecionada. Geralmente a frieza por missões acontece por causa da rotina. Uma vez que o mal foi detectado é necessário que seja combatido com atividades variadas.
Além disso, é importante que a igreja saiba que sua missão no mundo é integral. Isto é, evangelizar não é simplesmente distribuir folhetos como alguns pensam, mas sim, atender o indivíduo na totalidade de suas necessidades. Por outro lado, a igreja nunca deve deixar se levar pela prática do paternalismo e assistencialismo paliativos, mas sempre partir para uma ação social transformadora, do indivíduo e da sociedade, para a honra e glória de Deus Pai. O ponto de partida será o parâmetro bíblico e o contexto da igreja local.

Conclusão:
Mais coisas poderiam ser ditas como parte integrante de um projeto de revitalização para a igreja local, como por exemplo, a espiritualidade contagiante da igreja local com relacionamentos marcados pelo amor fraternal, um culto inspirador, a formação de grupos familiares ou células, etc. Entretanto, entendemos que a formação de uma liderança capacitadora, as estruturas da igreja sendo funcionais e o compromisso missionário revitalizado, naturalmente resultarão em novas realizações.

Rev. Josivaldo de França Pereira – Pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil (I.P.B.) em Santo André – SP. Bacharel em teologia pelo Seminário Presbiteriano Rev. José Manoel da Conceição (J.M.C. – SP), Licenciado em filosofia pela F.A.I. (Faculdades Associadas Ipiranga – SP) e mestrando em missiologia pelo Seminário Teológico Sul Americano (S.T.S.A. www.ftsa.edu.br ) em Londrina – PR.
 

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será divulgado.


*