Tatuagens, piercings e afins

Autor: Márcia Cristina Rezende
Pode o cristão fazer tatuagens ou colocar piercings em seu corpo?

Conhecida como “Body Modification“, a prática de fazer modificações no corpo tem atraído a muitos, principalmente jovens e adolescentes. Aplicações com ferro quente, desenhos feitos com bisturi, implantes, bifurcação da língua, a variedade é grande… Um pouco menos radical e bem mais comum entre a galera, está o uso de piercings e tattoos. Enquanto isso, alguns se perguntam: o que a Bíblia diz sobre este assunto? Qual deve ser o posicionamento do cristão diante destes modismos? É possível um jovem, cujo desejo sincero é obedecer a Deus, colocar um piercing – por exemplo – e manter-se firme em sua fé?

Este é um assunto polêmico e sempre motivo de grande discussão no meio evangélico. Pode ou não pode? Convém ou não convém? É pecado ou não é? Vamos tentar analisar o assunto sem preconceitos e de maneira mais objetiva possível.

ORIGEM

Usar a pele para tatuar imagens e introduzir adornos é um costume que vem de civilizações muito antigas. Achados arqueológicos (alguns com mais de 4 mil anos) comprovam seu uso em várias culturas primitivas, como Egito, Índia, Nepal, Malásia, Tailândia, Maia, Asteca, Nova Zelândia, etc…

A popularização de tais práticas nos grandes centros urbanos advém dos anos 70, com os punks na Inglaterra e o movimento gay nos EUA. A moda chegou ao Brasil com força total na década de 80, primeiramente entre as “tribos” do underground e culturas alternativas, se disseminando entre artistas e roqueiros, espalhando-se depois entre as mais diversas camadas sociais tornando-se um símbolo pop.

SIGNIFICADOS DIVERSOS

A origem dos piercings e tatuagens está ligada a costumes de muitas civilizações antigas, e possuem vários significados de acordo com cada época e cultura.

No Egito, piercings no umbigo eram identificadores de realeza e beleza. Os Maias usavam tatuagens e piercings por motivos religiosos, estéticos e também para inibir os inimigos. No oriente (China, Japão), a tatuagem era uma espécie de homenagem a uma determinada divindade. No Império Romano, os escravos eram tatuados como sinal de senhorio. Entre os hebreus perfurar a orelha simbolizava um pacto de escravidão (Ex 21.6). Em várias culturas antigas, a tatuagem era feita por feiticeiros, como parte de rituais de passagem ou de cultos pagãos, crendo que sangue que saía das feridas levava consigo os espíritos malignos.

Mais recentemente, na Europa do séc. XVII, a tatuagem passou a ser usada pelos marujos como um talismã, distinguindo-os dos demais. No Holocausto, nazistas tatuavam os prisioneiros judeus para ofenderem sua fé e dignidade. Em algumas regiões da Europa e também nas Américas, era comum as prostitutas levarem uma marca de seus cafetões, como um atestado de propriedade. Já os membros da máfia japonesa Yakuza tatuavam grande parte do corpo como prova de coragem e de fidelidade à gangue.

Nas últimas décadas popularizou-se o uso de tatuagens por presidiários, que tatuam o corpo com marcas que revelam sua personalidade, exibem o delito que cometeu, diferenciam a facção à qual pertencem ou ainda servem como uma espécie de código, com alguma mensagem oculta.

Nos dias de hoje, em nossa sociedade, a grande maioria dos adeptos de tais adornos, o faz por motivos estéticos ou culturais. Alguns o querem como adorno por ser simplesmente bonito e atraente, outros por simbolizar sua adesão a determinada “tribo” ou ideologia, outros encaram como uma expressão de princípios e valores pessoais e há também quem os veja como uma espécie de fetiche.

OPINIÕES CONTRÁRIAS

Não dá para negar que piercings e tatuagens trouxeram para as cidades a consagração de uma nova tribo urbana. Entretanto, não são poucos os que se levantam contra esta prática, sob vários argumentos.

Tatuagens e Piercings são frequentemente relacionados à atitude de agressividade e rebeldia, com uma conotação de rompimento com os pais, o núcleo familiar e a sociedade vigente. Uma maneira de externar descontentamento e o desejo de uma vida alternativa, marginal, contrária à ordem estabelecida. Inclusive alguns setores profissionais simplesmente não contratam funcionários que tenham qualquer tipo de modificação em seu corpo, alegando que alguns adereços transgridem a visão de seriedade que a empresa ou instituição deseja transmitir.

A classe médica também tem suas restrições. Inúmeros estudos e pesquisas têm apontado os riscos de tais práticas que, mesmo seguindo todas as prescrições de higiene e realizadas por profissionais devidamente habilitados, podem acarretar infecções das mais severas, abscessos, alergias, quelóides e até hemorragias.

Entretanto, dentre os principais opositores de tais práticas, estão boa parte dos cristãos – católicos e evangélicos. Eles defendem que o exterior precisa refletir a pureza do coração e que tais adereços “corrompem” o corpo e trazem sérias implicações espirituais. Acreditam também que o uso do piercing esteja ligado a crenças hinduístas. Isto porque um dos locais mais comuns de colocação dos piercings (umbigo) corresponde a um dos sete pontos chamados chakras, que são, segundo a cultura oriental, os centros de energia onde se daria a interação entre o corpo e a mente. Os outros demais pontos conhecidos como chakras localizam-se no topo do crânio, no meio da testa, garganta, coração, ventre e baixo ventre.

BUSCANDO A RESPOSTA NO LUGAR CERTO

Mediante tanta controvérsia, voltamos à questão inicial: é lícito ao cristão fazer uma tatuagem ou colocar um piercing?

Sendo a Bíblia nosso livro de fé e prática, vamos buscar nas Escrituras esta resposta.

1. O que a Bíblia diz sobre Tatuagem

O único texto que fala a respeito de tatuagem na Bíblia encontra-se em Levítico 19:28: “Pelos mortos não dareis golpes na vossa carne; nem fareis marca alguma sobre vós. Eu sou o SENHOR.” (Edição Almeida Revista e Corrigida).

Este texto faz parte de um conjunto de leis dadas por Deus ao povo de Israel que precisam ser interpretadas à luz do Novo Testamento e do restante das Escrituras. Neste mesmo capítulo, encontramos vários outros mandamentos, tais como: “durante a colheita, não colham as uvas que tiverem caído no chão” (v.10); “não furtem” (v.11); “não procurem vingança” (v.18); “não usem roupas feitas com dois tipos de tecido (v.19); “não aparem as pontas da barba” (v.27); e “honrem os anciãos” (v. 32); dentre outras. Como saber quais destas Leis devem ser obedecidas pelos cristãos e quais se restringem a uma determinada época e à cultura? Quais leis expressam o caráter e a santidade de Cristo? Quais podem ser identificadas como fruto produzido pelo Espírito Santo na vida de um indivíduo?

Podemos encontrar a resposta verificando quais delas se repetem em outros textos das Escrituras e do Novo Testamento. Com esta regra simples e básica de hermenêutica aplicada às seis leis citadas acima, não é difícil concluir que:

a) mesmo desfrutando da Graça de Deus e tendo sido libertos da escravidão da Lei, espera-se que aquele que foi justificado por Cristo não furte, não busque vingança e honre os anciãos;

b) por outro lado, não há em nenhum outro lugar da Bíblia, além da Lei Mosaica, algo que indique ser pecado misturar dois tipos de tecido na mesma roupa, aparar os cantos da barba ou recolher todas as uvas na colheita. Da mesma forma que não encontramos respaldo nas Escrituras para classificar como pecado o ato de “fazer marcas no corpo”.

É verdade porém, que existem várias citações bíblicas que condenam quaisquer rituais em favor dos mortos. Portanto, a Bíblia não condena o ato puro e simples de fazer marcas no corpo, mas é explicitamente contra fazer tais marcas se as mesmas tiverem qualquer tipo de relação com os mortos.

2. O que a Bíblia diz sobre Piercing?

Encontramos na Palavra de Deus alguns textos que fazem referência a brincos. Gênesis 35:4 e Êxodo 32:2-3 descrevem homens e mulheres que usavam brincos nas orelhas como um tipo de adorno. Em Ezequiel 16:12 o brinco feminino aparece como uma jóia presenteada pelo próprio Deus. Tal adereço aparece também em outros textos, e em nenhum deles é tido como algo que o Senhor não aprova.

O texto usado como base para condenar o uso de brincos (para os homens) e piercings em geral, encontra-se em Êxodo 21:1-6: “Então seu SENHOR o levará aos juízes, e o fará chegar à porta, ou ao umbral da porta, e seu senhor lhe furará a orelha com uma sovela; e ele o servirá para sempre” (Ex 21:6).

Aqui lemos que a prática de perfurar a orelha entre os judeus era símbolo de uma aliança de escravidão voluntária. Todas as pessoas que vissem um homem com orelha furada saberiam que ele escolheu, de livre e espontânea vontade, ser escravo de alguém. Note que não é uma referência ao uso de brincos, mas sim ao ato de furar a orelha.

Tal costume também fazia parte do conjunto de Leis dado ao povo de Israel, e não encontramos nenhuma recomendação ou proibição a esta prática nos Livros Proféticos ou no Novo Testamento, denotando ser, portanto, algo específico para aquele povo e para aquela época.

Sendo assim, se alguém está convencido de que brincos, piercings e tatuagens eram uma questão moral para o povo de Israel, então tal pessoa deve se abster delas. Contudo, a Bíblia não declara que existem falhas morais envolvidas no uso de um piercing ou uma tatuagem, não importa qual seja o contexto.

O caso seria muito similar a outros mandamentos tais como a proibição de tocar em nenhum animal morto (Lv 5:2), de comer carne de porco (Dt 14:8) ou de se sentar na mesma cadeira onde antes se assentara uma mulher que estava “naqueles dias” (Lv 15:20). Tais práticas são inocentes em si mesmas. Elas foram consideradas erradas no antigo Israel por causa de sua associação com práticas pagãs. Se essas ações não possuem associações perversas em nosso tempo, então não existe nenhuma razão para proibi-las.

NÃO É PECADO… ENTÃO PODE?

Calma lá, vamos devagar… O texto de 1 Coríntios 6:12 alerta: “Tudo me é lícito, mas nem tudo me convém”. Nem tudo é conveniente para o cristão, mesmo não sendo pecado. Há que se usar o bom senso em cada situação.

Longe de pretender colocar um ponto final a essa discussão, e tentando fugir de radicalismos (geralmente tão perigosos), creio que o jovem cristão que pensa em se utilizar de algum tipo de adorno que transforme permanentemente – ou não – o seu corpo, precisa antes ponderar séria e demoradamente sobre algumas questões:

1. Por que quero fazer isso no meu corpo? “…quer vocês comam, bebam, ou façam qualquer outra coisa, façam tudo para glória de Deus.” (I Co 10:31)

2. Isto prejudicará outras pessoas? “…façamos o bom propósito de não colocar pedra de tropeço ou obstáculo no caminho do irmão.” Rm 14:13

3. Esta decisão viola de alguma maneira a autoridade dos seus pais, líderes espirituais ou governo? “Aquele que se rebela contra a autoridade está se colocando contra o que Deus instituiu” (Rm 13.2)

4. Vai causar algum tipo de mal ao meu corpo? “O homem bom cuida bem de si mesmo, mas o cruel prejudica o seu corpo.” (Pv 11:27)

5. Vai deformar de alguma forma a minha dignidade humana? “Vivam de maneira digna da vocação que receberam.” Ef 4:1

6. Apresenta alguma aparência do mal? “Fujam da aparência do mal.” (I Ts 5:22)

7. A natureza da prática dá lugar à carne, envolve magia, ocultismo, idolatria, exploração ou malignidade? “Tudo o que fizerem, seja em palavra ou em ação, façam-no em nome do Senhor Jesus” (Cl 3.17)

8. Trará edificação ou a glória de Deus? “Vocês foram comprados por alto preço. Portanto, glorifiquem a Deus com o seu próprio corpo.” (1 Co 6.20)

9. Posso testemunhar da minha fé enquanto faço isso? “Estejam sempre preparados para responder a qualquer pessoa que lhes pedir a razão da esperança que há em vocês.” (1 Pe 3.15)

10. Minha consciência terá paz se eu fizer assim? “Combata o bom combate, mantendo a fé e a boa consciência…” (I Tm 1:18-19)

* Uma resposta honesta a cada uma dessas perguntas é o que deverá definir sua escolha. São questões pessoais e diretamente ligadas à consciência, personalidade, ambiente, cultura e visão de mundo de cada indivíduo.

CONCLUINDO

O uso de adornos em geral está vinculado mais ao contexto cultural que espiritual. Por isso, não existe uma resposta única e categórica nestes casos. Para alguns, o uso de piercing, tatuagens, maquilagem, tintura no cabelo, tornozeleiras e afins é encarado com naturalidade e em nada contraria a sua fé ou seu relacionamento com Deus. Já para outras pessoas podem significar uma afronta gigantesca à santidade de Deus. Assim sendo, trata-se de algo pessoal, segundo a consciência e a cultura de cada indivíduo.

Obviamente, mesmo para os adeptos de um visual mais extravagante, existem piercings e “piercings”, tatuagens e “tatuagens”. Piercings agressivos e tattos com figuras antibíblicas sempre expressarão uma mensagem contrária à fé cristã e devem sempre ser rejeitados, como por exemplo: símbolos da Nova Era, desenhos de escorpiões, serpentes, dragões, formas sensuais, figuras esotéricas, estampas de astros e signos, caveiras, etc…

Vale lembrar ainda que, embora a tatuagem possa ser retirada por um cirurgião plástico, o procedimento não é tão simples quanto se pensa. Uma vez feita, a remoção é difícil, e quase sempre se for eliminada, deixará uma cicatriz na pele. Então evite tatuar nomes de namorados ou de qualquer outra coisa que depois, possa vir a se arrepender. Além disso, não se esqueça que esta mesma tatuagem continuará em seu corpo quando você tiver 50, 60 ou 80 anos de idade.

Lembre-se também que, por mais cuidado que se tome, sempre haverá o risco de infecções e outras complicações. Por isso é importante escolher um local devidamente regularizado para fazer sua tatuagem, com bons profissionais, e dentro das mais rígidas normas de higiene e segurança. Caso você ainda não saiba a tatuagem será gravada em sua pele com agulhas e tintas; as agulhas perfuram superficialmente a sua pele, mas entram em contacto com sangue. Portanto, todo o material utilizado para fazer a tatuagem deve ser descartável. As mesmas dicas valem para piercing que, dependendo do lugar que se coloca, costuma infeccionar com maior frequência.

Jesus Cristo, em todo o seu ministério nunca julgou ou condenou alguém por sua aparência. Ele sempre olhava para o coração. Como Ele, precisamos aprender também a olhar o outro com amor, sem preconceitos, lembrando que somos livres em Cristo para usufruirmos da multiforme Graça de Deus afinal, unidade não é conformidade.

Aquele que gosta ou acha certo, que haja em coerência com sua consciência. E aquele que não concorda ou acha errado, que faça o mesmo. Simples assim!

E pra terminar: “Quem é você para julgar o servo alheio? É para o seu senhor que ele está em pé ou cai. E ficará em pé, pois o Senhor é capaz de sustentá-lo. Portanto, você, por que julga seu irmão? E por que despreza seu irmão? Pois todos compareceremos diante do tribunal de Deus. Assim, cada um de nós prestará contas de si mesmo a Deus.” (Rm 14:4,10,12). Vivamos pois, a nossa fé em liberdade e amor.

Porque SER IGREJA é vivenciar a simplicidade do Evangelho e a essência do Cristianismo: amar a Deus e ao próximo.

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There is one comment

  1. adriano

    Até hoje, por mais que eu tenha pouco tempo na caminhada com Cristo, só uns 12anos, esse estudo foi uma das melhores informações que já obtive para acrescentar em meus conhecimentos, tanto espiritual como material. Apesar que sou de um ministério que não aceita as atitudes do uso de adornos e tatuagens, eu não sou a favor mas tbm não sou contra, pois o que vale apena é ser feliz e fazer com que Deus se agrade de nossas atitudes, lembrando que Ele é o Senhor e de que todos deverão de prestar contas a Ele no Juízo Final!!!!!!! Além disso,para quem leu este estudo, temos que lembrar que quem julga,dependendo do que faça, é o Senhor nosso Deus, mas muitos cristãos que se dizem cristãos, às vezes esquece desse fator. Mas gostaria de dizer a quem relizou este estudo maravilhoso, que Deus possa continuar lhe capacitando para que a boa obra Dele seja concluída através da Palavra que é a mais Pura Verdade.Um abço…. Miss.Adriano

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