Reforma Luterana e Missão

Autor: Joachim H. Fischer

Reforma luterana e Missão[1]

 

 Resumo: O artigo busca, em textos do reformador Martim Lutero, subsídios para uma teologia da missão. Investiga as razões históricas que cooperaram para o pouco engajamento do luteranismo em atividades missionárias e apresenta alguns exemplos da prática missionária luterana no período que antecede o surgimento do pietismo.

 

A Reforma do século 16, iniciada por Martim Lutero (1483 – 1546), quis renovar, a partir do Evangelho,  a vida dos cristãos e das cristãs, das comunidades e da Igreja daquele tempo. Proclama Jesus Cristo como nosso único Senhor e Salvador. Anuncia que somos salvos unicamente pela graça de Deus mediante a fé, o único meio de comunhão com Cristo e Deus. O  Evangelho é testemunhado na e pela Bíblia. Por isso a Bíblia é a autoridade exclusiva em questões de fé e vida cristãs[2].

Entendo por “missão” a proclamação do Evangelho de Jesus Cristo onde quer que seja e a quem quer que seja. Essa definição abrange tanto a “Missão Externa”, a divulgação do Evangelho entre povos mais distantes, não-cristãos, como a “Missão Interna”, a promoção do Evangelho no ambiente em que a própria comunidade cristã vive[3]. Na América Latina, prefere-se falar hoje de “evangelização” num sentido abrangente, também para se distanciar do modelo de missão ligada ao projeto colonial de países europeus na época colonial[4].

1 – A dimensão missionária da teologia de Lutero

Lutero não elaborou uma teologia específica da missão. Toda sua teologia é missionária. Pois o próprio Evangelho é missionário. Já no povo de Israel, Jeremias foi escolhido por Deus para ser “um profeta para as nações” (Jr 1.5b). O salmista conclama seus contemporâneos: “Falem da glória do Deus Eterno às nações; contem a todos os povos as coisas maravilhosas que ele fez” (Sl 96.3). Jesus predisse: “O Evangelho do Reino [de Deus] será anunciado no mundo inteiro como testemunho para toda a humanidade” (Mt 24.14). O ressurreto mandou seus discípulos “a todos os povos” para fazê-los seguidores dele (Mt 28.19a). Aos mesmos discípulos ele disse: “(…) vocês (…) serão minhas testemunhas (…) até nos lugares mais distantes da terra” (At 1.8b). E na primeira carta a Timóteo lemos: Deus “quer que todos sejam salvos e venham a conhecer a verdade” (cp. 2.4). O apóstolo Paulo defendeu a abertura missionária do cristianismo. Levou-o do povo judeu para outros povos (cf. Atos dos Apóstolos). O cristianismo não está atrelado a determinada etnia. No Brasil, o luteranismo não está atrelado à etnia teuto-brasileira. Para quem a Bíblia é a autoridade máxima em questões de fé e vida, de maneira alguma pode ignorar essa dinâmica missionária da Boa Nova. 

E Lutero disse-o expressamente. O Evangelho tem “a finalidade de chegar ao mundo inteiro“; isto é sua “natureza”[5]. Deus quer que o Evangelho percorra o mundo. A missão é “obra de Deus”[6]. Ele estabelece o plano e a meta da missão. Prometeu o avanço do Evangelho. Sua promessa fortalece e consola os missionários e as missionárias em meio a inimizade, resistência e perseguição. A perseguição não impede a pregação do Evangelho. Ao contrário, ajuda a divulgá-lo. “O Evangelho não pode existir nem crescer sem perseguição”, escreveu Lutero[7].

Lutero não acreditou na antiga lenda segundo a qual os apóstolos já teriam levado o Evangelho para todas as partes do mundo. Os apóstolos iniciaram a pregação do Evangelho em diversas partes do mundo. Mas existem regiões às quais o Evangelho ainda não chegou[8]. Em outras palavras, existem campos missionários, regiões que precisam ouvir a Palavra de Deus, a palavra da vida, de paz e justiça. Como exemplo mais importante em seu tempo, Lutero apontou para a América, recém-descoberta pelos europeus: “(…) recentemente foram achadas muitas ilhas e terras nas quais até agora, em mil e quinhentos anos, não apareceu nada dessa graça”, isto é, do Evangelho[9]. Por isso a evangelização ou missão “continua sempre e é levada pelos pregadores a este e aquele lugar no mundo, (…) sempre anunciada adiante às pessoas que ainda não a têm ouvido”[10]. A missão é de longe “a melhor obra” dos cristãos[11]. Continua até o último dia da existência do mundo. O fim do mundo só virá “quando essa pregação é pregada e anunciada e ouvida no mundo inteiro[12]. Sua meta, porém, não é “a cristianização do mundo (…), mas a oferta do Evangelho a todos os povos da terra pelo testemunho da cristandade”[13].

Fonte e centro da vida cristã é a justificação da pessoa pecadora pela graça de Deus mediante a fé. “Desse artigo a gente não se pode afastar ou fazer alguma concessão, ainda que se desmoronem céu e terra ou qualquer outra coisa”, escreveu Lutero nos Artigos de Esmalcalde[14]. Também nesse coração da teologia luterana a dimensão missionária está presente. Diante de Deus todos e todas são pecadores, ou seja, infiéis, pagãos, não-cristãos, ateus. “Todos pecaram [não apenas os não-cristãos] e estão afastados da presença gloriosa de Deus”, sabia já o apóstolo Paulo (Rm 3.23). Todos – não apenas os não-cristãos – precisam ser missionados por Deus, justificados por sua graça mediante a fé. Portanto, “toda pregação do Evangelho é pregação a pagãos”[15], é missão.

Para Lutero, a missão não depende de determinadas estruturas eclesiásticas, de determinado sistema jurídico eclesiástico, da instituição Igreja. Lutero não aceitou a antiga tradição segundo a qual só pode haver salvação dentro da Igreja como instituição. “Não há salvação fora da Igreja”, dizia-se no cristianismo ocidental desde o século 3. E: “Quem não tem a Igreja por mãe não pode ter Deus por Pai”[16]. Lutero não compartilhou desse conceito institucional, católico-romano de Igreja. O que constitui a Igreja são a pregação da Palavra de Deus e a prática dos sacramentos do Batismo e da Santa Ceia (Eucaristia), como forma visível da Palavra de Deus. A missão, portanto, depende unicamente dessa Palavra. Onde ela é pregada, há cristãos e cristãs, há comunidade cristã, Igreja, povo de Deus, corpo de Cristo. “(…) onde está a Palavra de Deus aí haverá que estar a Igreja”, lemos em Lutero[17]. Por quê? “(…) a Palavra de Deus não pode existir sem o povo de Deus [a comunidade cristã]; por outro lado, o povo de Deus [a comunidade cristã] não pode existir sem a Palavra de Deus”[18].

Portanto, a Palavra de Deus é o grande tesouro de todos os cristãos e todas as cristãs. Conseqüentemente, todos os membros da comunidade participam de sua missão de ser “sal para a humanidade” e “luz para o mundo todo” (Mt 5.13,14). Todos e todas são enviados ao mundo como mensageiros, alguns para lugares mais pertos, outros para lugares mais distantes. Lutero não conhece um ministério missionário específico. Para ele, a missão é incumbência tanto dos ministros ordenados como do sacerdócio geral de todos os batizados. Onde a situação o exige, cabe a todos os cristãos e todas as cristãs serem missionários e missionárias. “Todos os cristãos são sacerdotes por igual”, nas palavras de Lutero. Seus “ofícios” são: “ensinar, pregar e anunciar a Palavra de Deus, batizar e consagrar ou ministrar a Eucaristia [Santa Ceia], ligar e absolver [dos pecados], orar por outros, sacrificar e julgar todas as doutrinas e espíritos”. O supremo entre esses “ofícios” é “o ministério da Palavra”, “comum a todos os cristãos”, onde e quando a situação o exigir[19]. Lutero deu essa orientação a comunidades num contexto cristão para situações em que os ministros ordenados distorcem o Evangelho:

(…) um cristão tem tanta autoridade que até no meio de cristãos pode e deve (…) ensinar [o Evangelho], mesmo que não convocado por pessoas, quando vê que o professor [pregador] ali está ensinando [pregando] errado; entretanto, que se proceda de forma educada e decente.[20]

 Mas a orientação de Lutero vale igualmente e em especial para cristãos e cristãs que vivem entre não-cristãos:

Se ele [o cristão] estiver num lugar em que não há cristãos, não é necessária qualquer convocação senão o simples fato de ele ser cristão, convocado e ungido interiormente por Deus. Nesse caso, tem a obrigação de pregar aos pagãos ou não-cristãos (…) e ensinar-lhes [pregar-lhes] o Evangelho por dever de amor fraternal, mesmo que nenhuma pessoa o convoque para esse fim.[21]

E numa prédica de 1524 disse:

Onde não há cristãos, não devo esperar até ser convocado, [mas devo agir] como os apóstolos o fizeram.[22]

Na compreensão de Lutero, a “Santa Igreja Cristã (…) é a comunhão e a soma ou reunião de todos os cristãos em todo o mundo”. Ela

existe (…) no mundo todo, como anunciaram os profetas: que o Evangelho de Cristo deveria espalhar-se pelo mundo inteiro (Salmo 2.7ss.; 19.4). Assim a cristandade está fisicamente dispersa sob o papa, os turcos, persas, tártaros e em toda parte, mas está espiritualmente unificada num só Evangelho e fé, sob uma só cabeça, que é Jesus Cristo.[23]

Mas como a cristandade existe entre turcos, persas, tártaros e outros povos não-cristãos? Como chegou ou está chegando lá? Para alguns povos chegou há muito tempo através da missão de gerações passadas. Em tempos mais recentes, os turcos conquistaram e ocuparam regiões em que viviam cristãos e cristãs. Ou soldados cristãos foram capturados pelos turcos como prisioneiros de guerra. Em todos esses casos, cabe aos cristãos e às cristãs praticarem o sacerdócio geral de todos os crentes. Cabe-lhes, principalmente, divulgar o Evangelho lá onde estão. O que é isso senão missão?  

Mas a missão não cabe apenas aos cristãos e às cristãs que por força das circunstâncias históricas vivem entre não-cristãos. As comunidades e Igrejas cristãs precisam também propositadamente enviar pregadores para tais povos. Os não-cristãos precisam ouvir a Palavra de Deus. “Se devem ouvir sua Palavra, então lhes devem ser enviados pregadores que lhes anunciam a Palavra de Deus.”[24] 

A missão, ou seja, a pregação do Evangelho e o crescimento da comunidade cristã, não termina nas fronteiras políticas entre os povos nem nos limites entre as culturas. A história do cristianismo nos mostra como a pregação do Evangelho chegou da Palestina para a Ásia Menor, a Grécia, a Itália, outros países europeus e outros continentes, desde 1492 também para a América Latina.

Para Lutero, o senhor da missão é Cristo, mais precisamente o Cristo que subiu ao céu e está sentado à direita de Deus Pai, Todo-Poderoso, como confessamos no Credo Apostólico. Cristo subiu ao céu porque a partir de lá pode agir e governar todas as pessoas; pode dirigir sua voz a todas as pessoas, de modo que todos e todas possam ouvi-la[25]. O próprio Cristo divulga o Evangelho no mundo inteiro através de seus missionários e suas missionárias, os cristãos e as cristãs. Assim eles e elas não fazem outra coisa senão praticar o sacerdócio geral de todos os batizados[26].

2 – A questão dos métodos missionários

Lutero estabeleceu alguns princípios para qualquer atividade missionária.

2.1 – Os missionários e as missionárias precisam realmente conhecer o povo ou as pessoas às quais se dirigem, a começar por sua língua. Lutero aponta para Pentecostes (At 2.1-13). O Espírito Santo, disse ele,

não esperava que todo mundo viesse para Jerusalém e aprendesse hebraico [ou: aramaico], mas deu [aos apóstolos o dom de] diversas línguas para o ministério da pregação, para que pudessem falar [e ser entendidos] onde chegassem.[27]

Além da língua, os missionários e as missionárias precisam conhecer muito bem a cultura do povo onde evangelizam, inclusive sua religião. Lutero queixou-se dos governantes e intelectuais do seu tempo porque não tentaram realmente conhecer a cultura dos turcos, que eram um campo de missão em potencial, na perspectiva de Lutero. Questionou as mentiras que foram divulgadas na Europa sobre os turcos. É verdade que criticou fortemente sua religião, sua poligamia e seu Estado. Mas exigiu reconhecer e valorizar também as coisas boas entre os muçulmanos. Destacou a seriedade de seu culto religioso, a vida disciplinada de seus sacerdotes, seu amor à verdade, a vida correta dos leigos e a disciplina dos seus soldados. Às vezes, até apresentou os turcos aos alemães em alguns pontos como exemplo. Os turcos, escreveu,

se reúnem freqüentemente em suas mesquitas para a oração, rezando com tanta disciplina, silêncio e belos gestos como não podem ser encontrados entre nós, em nossas igrejas, em nenhum lugar.[28]

Encontrarás nos turcos uma vida bastante severa e decente: não bebem vinho, não se embriagam  nem se excedem na comida, como nós o fazemos, não se vestem com tanta frivolidade e liberdade, não constroem prédios tão vistosos, não têm tanta ostentação, não juram nem amaldiçoam, demonstram excelente obediência, disciplina e respeito por seu sultão e senhor, e sua administração pública funciona tão bem como nós gostaríamos de tê-la na Alemanha.[29]

2.2 – Também quanto à missão, Lutero insiste na liberdade cristã. A missão não pode prejudicar ou tirar a liberdade das pessoas às quais se dirige. Não pode impor ao outro povo a cultura que os missionários e as missionárias trazem consigo. Deve respeitar a outra cultura e adaptar-se a ela na medida em que a adaptação é compatível com a fé cristã[30].

2.3 – O Evangelho e, conseqüentemente, a missão não podem e não devem ser promovidos através de poder político ou militar, como aconteceu, muitas vezes, na conquista da América pelos espanhóis e portugueses. Aqui cada soldado foi considerado, ao mesmo tempo, um missionário, como disse o jesuíta Antônio Vieira (1608 – 1697): “Não são só apóstolos os missionários, senão também os soldados e capitães: porque todos vão buscar gentios e trazê-los ao lume da fé e ao grêmio da Igreja”[31]. Para Lutero, jamais alguém pode ser obrigado a se converter ao cristianismo. O Evangelho é incompatível com qualquer tipo de obrigação, pressão ou violência. A única “arma” da missão é a pregação da palavra de Deus. O Evangelho quer sempre e em todos os lugares ouvintes que o ouvem e aceitam voluntariamente, convencidos por sua verdade, e que querem aceitá-lo.

3 – Campos missionários

Quais são os campos de missão que Lutero vislumbrou? Já foi mencionada a América, recém-descoberta pelos europeus. Mas Lutero foi suficientemente realista para perceber que o Novo Mundo era inatingível para os luteranos. Ele viu dois outros campos missionários que estavam ao alcance dos luteranos da Alemanha.

3.1 – Primeiro, os turcos. Eles eram muçulmanos. Vieram do interior da Ásia e se expandiram para o oeste. Ao conquistarem a cidade de Constantinopla, em 1453, acabaram com o Império Romano Oriental. Avançaram para os Bálcãs, no sudeste da Europa. Ameaçaram o resto da Europa. Em 1529, quando Lutero tinha 46 anos de idade, chegaram a sitiar Viena, a atual capital da Áustria. Foram rechaçados, mas representavam uma ameaça constante.

Para os europeus, os turcos não eram apenas inimigos militares e políticos. Eram considerados também inimigos da fé cristã. Antes da época da Reforma, os europeus entenderam que os turcos deveriam ser atacados em campanhas militares, chamadas de cruzadas, uma espécie de guerras santas. Também neste ponto Lutero foi um reformador. Rompeu com a idéia de guerra santa contra os turcos. Admitiu que os europeus se defendessem militarmente contra a agressão dos turcos[32]. Mas esses, em vez de serem combatidos e vencidos militarmente, deveriam ser convencidos espiritualmente; deveriam ser evangelizados. Para Lutero, “uma maneira cristã de combater os turcos e aumentar e proteger a cristandade” era “pregar[-lhes] o Evangelho”[33].

3.2 – O outro campo missionário ao alcance da Reforma luterana na Alemanha eram os judeus que viviam entre os cristãos. No início da Reforma, Lutero viu os judeus com certa simpatia. Em 1523, publicou um escrito cujo título poderia ser traduzido com “Jesus Cristo, um judeu nato” (ou: “Jesus Cristo nasceu judeu”)[34]. Entendeu que judaísmo e cristianismo têm uma raiz comum. Escreveu: “(…) os judeus são consangüíneos de Cristo, nós [cristãos] somos [apenas] cunhados e estranhos, eles são amigos consangüíneos, primos e irmãos do nosso Senhor”[35]. Lutero esperava pela conversão dos judeus ao cristianismo através da missão. Mas sua esperança não se cumpriu. Lutero temia a contramissão dos judeus. Então publicou escritos muito violentos contra os judeus, escritos cheios de críticas, agressões, difamações e propostas de medidas duras, inclusive a expulsão. Para ele, os judeus deixaram de ser campo missionário[36].

4 – A prática missionária

Na época da Reforma, houve pouca ação missionária concreta dos luteranos.  Encontramos apenas um empreendimento missionário luterano. Alguns pastores da Igreja Luterana da Suécia, apoiados pelos reis, começaram a evangelizar os lapões, nômades do norte da Escandinávia, com a colaboração de alguns lapões já cristianizados. Um dos reis[37] mandou construir igrejas naquela região. Mas faltou continuidade e houve dificuldades de comunicação. Os resultados dessa missão eram muito modestos[38].

Uma tentativa missionária luterana foi feita no sudeste da Europa. Um grupo de luteranos de Württemberg, no sudoeste da Alemanha, apoiou a Reforma no norte dos Bálcãs através de Bíblias e literatura evangélica traduzidas para línguas eslavas, faladas pelas populações nativas. Neste contexto pensou-se também na missão entre os turcos, vizinhos daquelas regiões. Chamou-se a atenção das autoridades da Alemanha para aquela chance missionária. No entanto, não se chegou a traduzir a Bíblia e literatura evangélica para a língua turca. A missão não aconteceu.[39]

Por que essa falta de ação missionária na Reforma luterana e no luteranismo do século 16? As causas são várias.

1 – A Reforma visou a renovação da Igreja da época. Foi um movimento dentro da Igreja. Estava confrontada com a resistência decidida das duas autoridades mais altas de seu tempo: o papa e o imperador da Alemanha. Ambos tentaram suprimir a Reforma. O papa a condenou como heresia, doutrina falsa. O imperador prometeu empenhar todo o seu poder para preservar ou restabelecer a unidade da fé e da Igreja. Primeiramente proibiu a Reforma. Depois tentou levar os dois lados a um acordo. Depois estimulou discussões e negociações entre as partes. Finalmente atacou e venceu os protestantes militarmente. A situação estabilizou-se apenas a partir de 1555 com a paz religiosa de Augsburgo.

A Reforma, portanto, não conseguiu alcançar toda a Igreja. Viu-se obrigada a lutar por sua sobrevivência e a se organizar como Igreja Luterana ou Reformada (Calvinista) nos territórios da Alemanha. Não lhe sobraram forças para enviar missionários para países distantes.

2 – A Alemanha não tinha unidade política. Estava dividida em muitos territórios. A esmagadora maioria deles não tinha acesso ao mar, assim como Portugal, Espanha, França, Inglaterra e Holanda o tinham ao Oceano Atlântico. Não participou da grande expansão ultramarina da Europa dos séculos 15 e 16. Não conquistou colônias no além-mar. Como os luteranos de Wittenberg, a cidade de Lutero, ou de outras regiões da Alemanha poderiam ter construído navios tecnicamente capazes de cruzar os mares? Como poderiam ter preparado e pago expedições semelhantes às de Cristóvão Colombo, Vasco da Gama ou Pedro Álvares Cabral? A Reforma luterana não entrou em contato direto com povos em outros continentes. Não se lhe ofereceu a oportunidade concreta de missão entre povos não-cristãos[40]. Naquela época, a missão cristã, sobretudo a católico-romana, aconteceu dentro do contexto da expansão ultramarina colonial e comercial da Europa. Dela a Reforma luterana não participou.

3 – O próprio Lutero transferiu a responsabilidade pela organização e direção das igrejas luteranas às autoridades civis, aos governantes. Essas igrejas estavam atreladas ao Estado. Isso significava, na Alemanha daquela época, ao respectivo território e seus governantes. Esses não estavam interessados na missão fora de seus domínios. A ligação com o Estado foi mais um dos  fatores externos que contribuíram para impedir iniciativas missionárias próprias das igrejas luteranas[41].

A situação não mudou muito no século 17. Antes ao contrário, devido a fatores externos e internos. As forças católico-romanas atacaram os protestantes e tentaram acabar de vez com o protestantismo através de uma enorme ação militar. De 1618 a 1648, a horrível Guerra dos Trinta Anos devastou grandes regiões da Alemanha. Foram anos de desgraça, angústia, miséria e morte para a população. Estima-se que a população foi dizimada em 40% nas áreas rurais e em 33% nas cidades. Quem poderia ter pensado em missão entre não-cristãos sob tais circunstâncias? Não morrer pelas mãos dos mercenários ou pela fome era a principal preocupação das pessoas.

Na teologia, durante grande parte do século 17, teólogos-professores e pastores luteranos concentraram suas forças na doutrina. Seu interesse principal era preservar a pureza da doutrina do Evangelho e combater ferozmente doutrinas divergentes, sobretudo a católico-romana e a reformada (calvinista). Era a época confessional ou época da ortodoxia, o contrário de uma atitude missionária e ecumênica. Poucos teólogos mantinham viva a consciência missionária da Igreja. O luteranismo acomodou-se em sua respectiva Igreja territorial. Para justificar a ausência de ação missionária voltou a antigos argumentos. Dizia que o mandamento missionário de Cristo, de Mt 28.18-20, já teria sido cumprido; por isso a missão não seria mais necessária. A Faculdade de Teologia de Wittenberg, onde Lutero havia lecionado, considerada a primeira das Faculdades de Teologia luteranas, negou, num parecer de 1652, que a Igreja tivesse uma tarefa missionária. Ainda em 1708 qualificou missionários evangélicos como “falsos profetas”[42].

Não é de estranhar que houve resistências fortíssimas contra atividades missionárias práticas[43]. Encontramos tais iniciativas – modestíssimas –  apenas por parte de luteranos suecos. Continuou a missão entre os lapões no norte da Escandinávia, agora utilizando-se da língua deles. – Por pouco tempo, a Suécia tinha uma colônia na América do Norte, a Nova Suécia. Lá, pastores luteranos evangelizaram entre os indígenas. Um deles até traduziu o Catecismo Menor de Lutero para uma das línguas indígenas[44].

A Dinamarca tinha, desde 1620, uma colônia em Tranquebar, no sul da Índia. Explorou-a através da Companhia das Índias Orientais. Mandou pastores para lá. Mas estes não chegaram a evangelizar nativos. Batizaram apenas alguns escravos[45].

Uma mudança nesse quadro aconteceu apenas a partir do final do século 17 e do início do século 18 através do movimento do pietismo.

 

 

 

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LUTHER, Martin. Bulla coenae domini, das ist, die Bulla vom Abendfressen des allerheiligsten Herrn, des Papstes, verdeutscht durch Martin Luther [A bula da ceia do Senhor, ou seja, a bula da glutonaria noturna do santíssimo senhor, o papa, traduzida para o alemão por Martim Lutero] [1522]. Em: Werke; kritische Gesamtausgabe [Obras; edição crítica completa]. Weimar: Hermann Böhlau, 1889. v. 8, p. 691-720.

LUTHER, Martin. Sermon am Himmelfahrtstage [Sermão no dia de Ascensão] [14/05/1523]. Em: Werke; kritische Gesamtausgabe [Obras; edição crítica completa]. Weimar: Hermann Böhlau, 1891. v. 12, p. 555-65.

LUTHER, Martin. Dass Jesus Christus ein geborner Jude sei [Jesus Cristo, um judeu nato] [1523]. Em: Werke; kritische Gesamtausgabe [Obras; edição crítica completa]. Weimar: Hermann Böhlaus Nachfolger, 1900. v. 11, p. 314-36.

LUTHER, Martin. Predigten über das 2. Buch Mose [Sermões sobre Êxodo] [1524 – 1527]. Em:  Werke; kritische Gesamtausgabe [Obras; edição crítica completa]. Weimar: Hermann Böhlaus Nachfolger, 1899. v. 16.

LUTHER, Martin. Eine Heerpredigt wider den Türken [Um sermão de campanha contra o turco] [1529]. Em: Share on Facebook

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