Os dois reinos

Autor: Jorge Himitia
Segundo afirma o apóstolo Paulo, há dois reinos neste mundo: o das trevas e o da luz. Vejamos o que ele escreve aos Colossenses 1.12,13: “…dando graças ao Pai que nos tornou dignos de participar da herança dos santos no reino da luz. Pois ele nos resgatou do domínio das trevas e nos transportou para o reino do seu Filho amado”.

Bem, o que é um reino? É uma comunidade composta por duas classes de pessoas: o rei, que governa, e os súditos, que obedecem e se sujeitam à autoridade do rei. Não pode haver reino sem rei; tampouco pode haver reino sem súditos.

O reino das trevas tem seu rei: Satanás. O reino da luz também tem o seu: Jesus Cristo. Todos nós nascemos no reino das trevas. Adão, em sua desobediência, ao não reconhecer a autoridade de Deus como Senhor e Rei de sua vida, deixa de pertencer ao reino da luz e passa ao das trevas. Desde então, todo homem que nasce da descendência de Adão, nasce no reino das trevas. Falando dos que vivem nas trevas Paulo disse: “…nas quais todos nós costumávamos outrora viver” (Efésios 2.2).

A verdadeira conversão tem dois aspectos, segundo Colossenses 1.13. O primeiro é nos resgatar do domínio das trevas. Ali estávamos, mas Deus nos tirou, nos libertou. Agora somos livres, sim, porém não para tirarmos proveito da carne e dizer: “Bem, antes éramos escravos, súditos de Satanás, agora, porém, podemos fazer o que nos der na cabeça”. Se agíssemos assim estaríamos interpretando mal o evangelho de Cristo.

E isto se vê claramente no segundo aspecto da conversão: somos libertos de um reino para sermos trasladados a outro. Deus nos livra do reino das trevas e nos traslada ao reino de seu amado Filho. A verdadeira conversão, em seu aspecto pleno, consiste neste traslado. Por muito tempo pensei que seria transportado ao reino de Deus no dia em que morresse. Que logo em seguida entraria nele. Ou então, que quando Cristo viesse traria o seu reino. Porém Paulo não estava morto, nem Cristo tinha voltado quando disse, usando o verbo no tempo passado para indicar algo já consumado: “Pois ele nos resgatou do domínio das trevas e nos transportou ao reino do seu Filho amado…”.

A idéia de que algum dia vamos entrar no reino ou que algum dia virá o reino criou em nós uma concepção errada de Cristo. Enquanto ficamos esperando esse dia chegar vemos o Senhor como nosso Salvador, nosso mediador e ajudador. E cremos que somente após sua vinda Ele será nosso rei. Por essa razão encaramos com tão pouca seriedade sua autoridade, o que tem causado debilidade e desorientação em nossas vidas. Cristo deve reinar já. Devemos, necessariamente, ser transportados a seu reino porque a verdadeira conversão consiste nisto: ser liberado de um reino para ser incorporado a outro.

Mas, como se chega a pertencer a um reino? Simplesmente tornando-se súdito do rei. Como entrar no reino de Jesus Cristo? Unicamente permitindo que Cristo venha a ser Senhor e Rei de sua vida.

Se alguém nos perguntasse a que reino pertencemos, certamente nos apressaríamos em responder: “Obviamente, ao reino da luz”. Contudo, e isto seja dito sem intenção de lançar sombra sobre esta afirmação, é conveniente esclarecer quais são algumas das características destes dois reinos a fim de nos certificarmos em qual dos dois estamos. Se, em função desta análise você perceber que tem que fazer alguma correção em sua vida será o caso de que persevere em fazê-la; de modo que toda dúvida seja eliminada e que possa, então, seguir a Jesus Cristo com toda fidelidade.

UM REI DECORATIVO

Costumo descrever a igreja contemporânea como “a Inglaterra espiritual”. Posso explicar. Restam, hoje em dia, poucos países governados por um regime monárquico. A Grã-Bretanha é um deles. Por perpetuar sua tradição histórica, os britânicos seguem conservando essa estrutura. É o Reino Unido da Grã-Bretanha. Existe um rei – atualmente uma rainha – com seu trono, sua pompa, seu palácio, sua corte, seu séquito. Ela recebe o aplauso, a glória e as homenagens do povo. Sem dúvida, dizem os mesmos súditos: “O rei reina, porém não governa”.

O rei é um personagem tradicional, uma figura decorativa. Todos aclamam: Viva o rei! Todos honram sua figura. Porém, este não governa. Não é a autoridade suprema. Há um primeiro ministro, a Câmara dos Lordes e a dos Comuns, e são eles que governam o país como julgam melhor. Não quero dizer com isso que seja bom ou mal o que fazem na Inglaterra: simplesmente desejo explicar porque chamo a igreja de “Inglaterra espiritual”.

Na igreja, quem não reconhece que Jesus Cristo é o rei? Qualquer igreja protestante, ortodoxa ou católica, declara: “Cristo é o rei!”. Todos dizemos “amém” e lhe entoamos louvores. Mas a triste realidade que vivemos até hoje em nossas igrejas é que Cristo reina, porém não governa. Ele é o Rei, entretanto o primeiro ministro é o que maneja tudo. Deus quer trazer seu reino primeiramente à igreja para logo estendê-lo a todos os demais.

Convém refletirmos um momento. Deus tem prometido salvar as multidões em distintas cidades, povos e nações. Ele disse que derramará seu Espírito sobre toda carne e haverá salvação e todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo. Os milhares que se converterem serão somados à igreja, à comunidade que já existe. Se entre nós, que já fazemos parte dessa igreja, Cristo não governa, não governará também sobre eles. Daí a ênfase, a insistência do Senhor em que Cristo seja o Rei dessa comunidade, da igreja atual, quem a governa na prática, como também que seja o Senhor sobre todos os aspectos de nossa vida.

A LEI DO REINO DAS TREVAS

Cada nação tem uma lei, uma constituição que rege a vida de seus cidadãos. Isto também ocorre na esfera espiritual. Sei a que reino ou a que nação uma pessoa pertence, pela lei que rege sua vida. O reino das trevas tem uma lei e o reino da luz tem outra. Qual é a lei do reino das trevas? Em Efésios 2.3, o apóstolo Paulo ressalta o sistema que domina aqueles que vivem longe de Deus: “Outrora todos nós também vivíamos entre eles, satisfazendo as vontades da nossa carne, seguindo os seus desejos e pensamentos. Como os outros, éramos por natureza merecedores da ira.”

Aqui há uma referência direta aos desejos, à vontade, aos pensamentos de nossa carne, contudo, como podemos identificá-los? Quais são os desejos e os pensamentos da carne? Quais são as vontades da carne? Muitas vezes tomamos a palavra carne como referência ao sensual, ao perverso. Porém, segundo a linguagem da Bíblia, a carne é nossa natureza humana não regenerada, a que herdamos de Adão, nossos impulsos, desejos, pensamentos e vontade própria, que, depois da queda, estão contra a vontade de Deus. O desejo de minha carne é meu próprio desejo, por mais saudável e ingênuo que me pareça. Satisfazer os desejos da carne é fazer o que eu quero; a vontade de minha carne é “fazer o que me dá na cabeça” e os pensamentos da carne consistem em levar à ação tudo o que me ocorrer. Concluo, então, que a lei que rege o reino das trevas é esta: viva como quiser, faça o que lhe der vontade, o que você gosta, o que lhe convém, o que lhe ocorrer.

A LEI DO REINO DA LUZ

O reino de Deus tem uma lei muito diferente: viva como Ele quer.

Viva, sim, como o Senhor manda, como Ele ordena e não como você quer. Que simples, mas enorme diferença isto representa!

Que lei se cumpre em sua vida? A que reino você pertence? Como é a sua vida? Como você quer, ou como Ele quer? Não basta cumprir sua vontade em alguns aspectos da vida; há que cumpri-la em todos os aspectos. Não se trata de obedecê-lo apenas quando nós queremos, mas em qualquer circunstância.

Já não posso mais reger minha conduta; minha vontade deve estar definitivamente rendida a Ele. Já não posso traçar minhas próprias normas dentro da sociedade em que vivo, nem, tampouco, em meu próprio mundo interior. Existe uma única lei que deve me reger: viver como Ele quer. Se em algum momento me encontrasse agindo contra sua lei, imediatamente deveria corrigir-me, dizendo-lhe: “Senhor, perdoa-me; é tua lei que deve cumprir-se sempre em minha vida”. Mas se sou atrevido ou indiferente, e faço o que me convém, posso enganar a Deus? As Escrituras declaram (Gálatas 6.7): “Não se deixem enganar: de Deus não se zomba”.

E de outra parte Davi exclama (Salmo 139.7): “Para onde me ausentarei do teu Espírito? Para onde fugirei da tua face?” A vida cristã é para ser vivida de frente para o Senhor e à luz de sua presença, com toda transparência. Honestamente, qual é a lei que se cumpre em nossas vidas? Em relação a muitas coisas, fazemos o que Ele quer; mas não é verdade que com respeito a muitas outras, fazemos o que queremos? Então, a que reino pertencemos? Não podemos ficar com um pé de cada lado. Deus quer uma definição para esta situação. Devemos estar inteiramente à sua disposição para viver, sempre, conforme sua vontade.

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