Orlando Costas e a Igreja Brasileira

Autor: Pr. Josivaldo de França Pereira
Introdução:

Orlando E. Costas (1942-1987) nasceu em Porto Rico e faleceu nos Estados Unidos, vitimado por um câncer, aos 45 anos de idade. Era pastor e teólogo batista. Graduou-se doutor em teologia e missiologia nos Estados Unidos. Foi reitor e professor do Seminário Bíblico Latino-Americano de Costa Rica; fundou o Centro Evangélico Latino-Americano de Estudos Pastorais (CELEP), em 1973, em San José, Costa Rica. Atuou como administrador da faculdade do Eastern Baptist Theological Seminary, na Filadélfia, onde também foi professor de missiologia e diretor de estudos hispânicos.

Além disso, ocupou o cargo de segundo vice-presidente do Conselho Latino-Americano de Igrejas (CLAI) e, na ocasião de seu falecimento, atuava como professor no Andover Newton Theological School, em Massachussetts, e como vice-presidente da Fraternidade Teológica Latino-Americana. Orlando Costas esteve no Brasil em junho de 1984, participando da V Semana de Atualização Teológica. Admirou a liderança jovem da igreja brasileira e criticou seu fraco desempenho teológico. O renomado teólogo considerava-se um “teólogo na encruzilhada”. Entendendo que a fé não é “uma herança familiar”, sentiu-se atraído pela evangelização do povo latino-americano.

Costas rompeu com a cultura anglo-saxônica e a mentalidade colonialista que subjuga os povos latino-americanos. Questionou a hegemonia política na América Latina, rejeitando o que chamou de “império norte-americano”. Assim, enveredou-se pela “libertação social e cultural”, entendendo que a missão da igreja não é simples comunicação da fé, mas o mundo em sua complexidade, o que requer a mobilização da igreja em busca de uma prática libertadora integral. Entre seus escritos são dignos de destaque o artigo Dimensões do Crescimento Integral da Igreja e o livro Compromiso y Misión. (1).

Esta pesquisa é uma simples tentativa de se aplicar os conceitos de crescimento da igreja de Orlando Costas a nossa realidade brasileira. Não é um trabalho original no que se refere ao estudo dos tipos de crescimento propriamente dito. René Padilla, por exemplo, faz um comentário interessante sobre as dimensões do crescimento integral de Orlando Costas em seu artigo Avaliação Teológica do Ministério Integral em Servindo com os pobres na América Latina: Modelos de Ministério Integral. Contudo, Padilla é amplo demais. Seu enfoque é a América Latina como um todo. Nosso trabalho visa a igreja brasileira em solo brasileiro.

1. O CRESCIMENTO NUMÉRICO DA IGREJA BRASILEIRA

O crescimento numérico da igreja evangélica brasileira deve fazer parte do desejo de todo cristão sincero, porque uma igreja que não cresce está fora dos propósitos de Deus. Entretanto, tal crescimento não deve ser almejado e nem considerado sadio quando a ética cristã está em jogo. Crescimento de igreja sem saúde é mera inchação; saúde sem crescimento é contradição de termos, pois o crescimento deve ser o resultado natural de uma igreja saudável.

Orlando Costas, por exemplo, era cuidadoso em sua análise de crescimento numérico de uma igreja. Embora reconhecesse o valor, a importância e a necessidade de uma igreja crescer, não se deixava impressionar simplesmente com números. Haja vista o clássico episódio em que Orlando Costas visitou uma igreja pentecostal no Chile. Chegando lá, constatou que uma igreja como aquela não podia crescer saudavelmente estando, ao mesmo tempo, atrelada à ditadura militar do general Augusto Pinochet.

Além disso, o rol de membros de uma igreja, segundo Costas, também não pode servir como critério de avaliação de crescimento. Ele entendia que antes de tudo algumas questões importantes deveriam ser levadas em consideração, como por exemplo: O crescimento é motivado pelo Espírito Santo? O crescimento está relacionado com os frutos do Espírito? A fé do crente é vibrante, calorosa e esperançosa? Ele é amoroso? Sua fé é vista através da ação? A fidelidade, espiritualidade e encarnação (2) estão presentes na vida da igreja?

Estas questões são fundamentais para se avaliar o crescimento da igreja brasileira hoje. É preciso discernimento e critério de avaliação. Todo crescimento de igreja, ou mesmo a falta dele, deve ser criteriosamente analisado. Na questão de crescimento da igreja não podemos ser totalmente crédulos de um lado e nem céticos do outro. Os extremos são sempre perigosos. As indagações levantadas por Costas precisam ser ponderadas por todos nós, e por uma razão óbvia: no Brasil existe uma forte tendência em se achar que todo e qualquer crescimento de igreja é obra do Espírito Santo.

É importante deixarmos claro que Orlando Costas não era (e jamais foi) contra o crescimento da igreja. Pelo contrário. O que Costas questionava, e com razão, eram os meios muitas vezes utilizados para se chegar em tal crescimento.

Orlando Costas dizia que o crescimento numérico da igreja, propriamente dito, “é parte fundamental do ser da igreja” (3), pois nenhuma igreja foi formada para ficar estagnada e parada no tempo. Embora nem todas as igrejas tenham vocação para ser mega-igreja, todas devem crescer. Isto é um princípio bíblico que Costas fazia questão em destacar.

Temos no Brasil igrejas abençoadas: algumas grandes, outras nem tanto, mas que estão crescendo saudavelmente. Contudo, esta não é a realidade geral em nosso país. Independente de ser pentecostal ou histórica, sabemos de tantas igrejas que estão marcando passo, engessadas em suas tradições ou em seus usos e costumes, com pouca ou nenhuma perspectiva de sua missão e de seu crescimento. Por outro lado, existem aquelas que experimentam um crescimento fenomenal e intrigante até. As igrejas pentecostais do Brasil sempre serão um desafio saudável às igrejas históricas. Contudo, fica a pergunta: aquelas estão crescendo realmente com saúde, do mesmo modo como estas deveriam crescer?

2. O CRESCIMENTO ORGÂNICO DA IGREJA BRASILEIRA

Vimos no tópico anterior que o crescimento numérico não tem sido tão favorável para a igreja evangélica brasileira de modo geral. O que não significa dizer que não haja igrejas crescendo com autenticidade, de acordo com os preceitos bíblicos. Porém, esta não é a regra geral. E por que não? Porque nem sempre a ética cristã de uma vida santificada tem andado de mãos dadas com o crescimento de nossas igrejas. O que, por si só, segundo Orlando Costas, não pode ser aceito como crescimento verdadeiro.

E o que dizer do crescimento orgânico da igreja? Primeiramente é preciso saber o que é crescimento orgânico na concepção de Costas. De acordo com ele, esta dimensão inclui aspectos da vida interna da igreja como “sua forma de governo, sua estrutura financeira, seus líderes, o tipo de atividade na qual investe seu tempo e recursos e sua celebração cultural” (4). Costas entendia que estas devem ser preocupações salutares e necessárias. Entretanto, o crescimento orgânico da igreja não deve ser introspectivo, voltado para dentro de si mesmo. Costas fazia questão de deixar isso bem claro (5) e René Padilla interpretou muito bem o pensamento do missiólogo quando disse: “Ele (o crescimento orgânico) abrange, entre outras coisas, o desafio da contextualização da igreja em uma situação histórica definida, na intenção de constituir-se em uma verdadeira comunidade com raízes autóctones” (6).

O crescimento orgânico é um dos tipos mais naturais de crescimento experimentado pela igreja brasileira, pena que às avessas. Segundo pesquisas, cerca de 80% a 90% dos recursos financeiros, formação de líderes, uso do tempo e do templo estão voltados para o deleite de nossas próprias igrejas. A igreja evangélica brasileira de modo geral ainda não se conscientizou de sua missão fora dos portões como sal da terra e luz do mundo (cf. Mt 5.13,14). Um bom (ou seria mau?) exemplo disso é o que a igreja geralmente faz com seus novos membros ou recém-convertidos. Bruce Shelley expressou a mesma preocupação de Costas quando advertiu:

“Infelizmente, as igrejas tendem a ‘eclesiastizar’ seus membros. Sua obediência a Cristo se faz apenas mediante canais institucionais ou pietistas: reuniões e programas, ou reuniões de oração e grupos de discipulado.

A nossa evangelização, no geral, tira o convertido do mundo e jamais o envia de volta a ele. Nosso alvo deve ser a missão da mesma pessoa no mundo, todavia uma nova pessoa com novas convicções e padrões. Se o primeiro mandamento de Jesus foi ‘Vinde’ o segundo foi ‘Ide’. Devemos reentrar no mundo de que saímos, só que agora como embaixadores de Cristo” (7).

As palavras de Shelley deve nos levar a uma reflexão séria, até porque o maior potencial de uma igreja é o crente novo. A igreja não pode servir de tropeço para ela mesma. Há alguns anos escrevi uma lição para a escola dominical na qual dizia: “Reconhecemos que há muita coisa boa que uma igreja local pode fazer além de missões, mas, por outro lado, se a ‘muita coisa boa’ estiver desassociada de missões, então não é tão boa quanto se pensa’.

À luz do que vimos até aqui, a conclusão que chegamos é que a igreja brasileira não é, essencialmente, uma igreja missionária. Boa parte de nossas igrejas que pensam serem missionárias na verdade apenas fazem missões, quando fazem! Um exemplo a ser considerado é a Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB), denominação da qual sou pastor. Infelizmente a IPB é hoje o que jamais deveria ser. A igreja que se orgulha de sua teologia calvinista esquece que Calvino possuía uma consciência missionária profunda (8) sendo, inclusive, o responsável pelo envio dos primeiros missionários ao Brasil em 1555 (9).

Fruto direto da obra missionária de Ashbel Green Simonton em 1859, a IPB deveria ser, atualmente, uma das denominações mais missionárias do país. É verdade que sua visão e missão, de uns tempos para cá, vem progredindo , porém, ainda tem muita estrada para se rodar, pois é preciso resgatar por completo a boa herança reformada, não apenas em seu aspecto teológico, mas sobretudo na totalidade daquela missão integral que ficou perdida em algum lugar do passado.

Saindo do particular para o geral, além de uma conscientização missionária, propriamente dita, a igreja brasileira precisa passar por uma revitalização de suas estruturas, tornando-as mais funcionais e principalmente por uma estruturação doutrinária que se expresse na vida prática. Infelizmente falta sã doutrina e santidade de vida no povo de Deus, o que vem comprometendo seriamente o evangelho e a aceitação do mesmo por parte da sociedade.

3. O CRESCIMENTO CONCEITUAL DA IGREJA BRASILEIRA

A igreja brasileira não é um caso perdido. Pelo contrário, é uma igreja que está caminhando, embora a passos não tão largos como gostaríamos, mas caminha na esperança de um futuro promissor. Com a graça de Deus chegaremos lá! Aos poucos o velho conceito de fazer missões vai dando lugar ao ser missões. Isto está acontecendo porque a igreja, consciente ou inconscientemente, começa a crescer conceitualmente também; o que significa, segundo Costas,

“expansão na inteligência da fé: o grau de consciência que a comunidade eclesial tem a respeito da sua existência e razão de ser, sua compreensão da fé cristã, seu conhecimento da fonte dessa fé (as Escrituras), sua interação com a história dessa fé e sua compreensão do mundo que rodeia. Esta dimensão dá à igreja firmeza intelectual para enfrentar a todo tipo de doutrina e capacidade crítica para evitar a fossilização e garantir a criatividade evangelizadora, orgânica e ética” (10).

Talvez um dos teólogos que mais chamou a atenção da igreja para sua dimensão conceitual (embora não com esta terminologia, mas com a mesma ênfase), tenha sido o Dr. Martin Lloyd-Jones, um pastor britânico já falecido. Li vários livros do Dr. Jones e notei que muito da preocupação conceitual de Orlando Costas era a daquele também. O doutor costumava dizer, por exemplo, que “se você estiver errado em sua doutrina, estará errado em todos os aspectos da sua vida” (11).

O crescimento conceitual da igreja é o que poderíamos chamar de “dimensão central da igreja”. A qualidade da qual se derivam todas as outras dimensões.

É importante lembrar que Orlando Costas entendia corretamente as dimensões do crescimento integral da igreja como um sistema interligado. A ausência de qualquer uma daquelas dimensões (numérica, orgânica, conceitual ou diaconal) acarretaria numa deficiência danosa. Na verdade, cada dimensão da igreja só tem razão de ser se for vivenciada nas outras. Citemos um pequeno exemplo: Crescimento numérico sem qualidade pode ser comparado ao câncer que cresce mas não é bom. Qualidade sem crescimento é inconcebível. A igreja evangélica brasileira ainda não entendeu como deveria essas dimensões e suas implicações. E de quem é a culpa? Certamente são daquelas lideranças que muitas vezes refletem em suas igrejas uma mentalidade tacanha e retrógrada. São aquelas pessoas que confundem a boa tradição bíblica e evangélica pelo tradicionalismo mórbido; inovação saudável e revitalizadora pelo inovacionismo e oba-oba.

À luz do que vimos até aqui fica difícil dizer: “A igreja brasileira tem esta cara”. De certo modo, ainda somos uma grande colcha de retalhos; porém, esta dimensão que nos faz olhar para dentro de nós mesmos, sem deixar de olhar para fora, precisa ser devidamente analisada e exercitada pela igreja brasileira como um todo. Estamos adentrando em um novo milênio e a igreja continua sonolenta em muitos dos aspectos de sua missão integral.

4. O CRESCIMENTO DIACONAL DA IGREJA BRASILEIRA

Esta é a dimensão encarnacional da igreja. Orlando Costas entendia que sem este crescimento a igreja perderia sua autenticidade e credibilidade no mundo, já que “somente na medida em que conseguir dar visibilidade e concreticidade à sua vocação de amor e serviço ela pode esperar ser ouvida e respeitada” (12). Para Costas, os cristãos foram colocados no mundo “para ser a consciência da sociedade” (13). Uma consciência que estende a mão em ajuda aos fracos e oprimidos. Felizmente, a consciência social da igreja brasileira hoje parece ser maior do que algumas décadas atrás. Contudo, se por um lado a igreja vem melhorando em sua visão social, por outro, ainda não amadureceu tanto em sua concepção de missão integral, justamente porque ao se discutir prioridades (como por exemplo as que envolvem evangelização e ação social) a igreja deixa de fazer bem uma e outra coisa. Evangelização e responsabilidade social são partes integrantes da missio Dei, portanto, inseparáveis e indispensáveis na missão integral da igreja de Jesus Cristo no mundo e para o mundo.

O crescimento diaconal da igreja brasileira, assim como as demais dimensões do crescimento integral, caminha lentamente pelo que a gente tem visto. Mas ele não está estagnado. De uns tempos para cá a igreja melhorou consideravelmente. Vale lembrar, e não faz muito tempo, a igreja que assumia sua responsabilidade social no mundo era taxada de comunista, liberalista, etc. Hoje, graças ao bom Deus, boa parte das igrejas brasileiras está envolvida em trabalhos sociais, e sem qualquer preocupação de ser rotulada e perseguida por isso, como ocorria em tempos atrás.

É pena que a igreja foi, e muitas vezes tem sido ainda hoje, influenciada pelos sistemas políticos e deixado de ser a voz profética de Deus na sociedade. A igreja brasileira não pode se calar diante dos males sociais.

A igreja brasileira não está parada, mas poderia andar um pouco mais depressa, porque, quanto à participação nos problemas da sociedade, ainda temos um longo caminho pela frente. Que Deus nos ajude!

Conclusão:

Vivemos na esperança de dias melhores para a igreja brasileira. De uma igreja que se consolide pela visão integral de sua missão no mundo.

Comparando os quatro conceitos de crescimento de Orlando Costas à igreja brasileira, podemos notar um avanço em todos eles.

Nossa igreja brasileira ainda não é a igreja dos sonhos, a igreja que gostaríamos de ser, mas com certeza esse dia vai chegar.

Deus visitará seu povo e o avivará para honra e glória do Seu nome!

Notas

1. Cf. L. A. T. Sayão, verbete ORLANDO E. COSTAS em Enciclopédia histórico-teológica da igreja cristã, Vol. I (São Paulo: Vida Nova, 1988), p. 362.
2. “Para Costas, estas três qualidades ou critérios teológicos – fidelidade, espiritualidade e encarnação – são as variáveis de controle em seu modelo de crescimento integral. Trata-se dos fatores ou princípios críticos em função dos quais avalia-se qualitativamente as várias classes e dimensões do crescimento eclesial e se prova a validez teológica de dito crescimento” (Daniel S. Schipani, CREZCAMOS EN TODO…EN CRISTO em Misión en el camino (Buenos Aires: FTL, 1992) p. 117, nota 6.
3. Orlando E. Costas, DIMENSÕES DO CRESCIMENTO INTEGRAL DA IGREJA em A missão da igreja (Belo Horizonte: Missão Editora, 1994) p. 113.
4. Idem.
5. Idem.
6. René Padilla, AVALIAÇÃO TEOLÓGICA DO MINISTÉRIO INTEGRAL em Servindo com os pobres na América Latina (Curitiba-Londrina: Editora Descoberta, 1998) p. 29.
7. Bruce Shelley, A IGREJA: O POVO DE DEUS (São Paulo: Vida Nova, 1984) pp. 126,7.
8. Cf. Antonio Carlos Barro, A CONSCIÊNCIA MISSIONÁRIA DE JOÃO CALVINO em Fides reformata, Vol. III, nº 1 (São Paulo: 1998) pp. 38-49.
9. Cf. Fred H. klooster, MISSIONS – THE HEIDELBERG CATECISM AND CALVIN em Calvin theological journal (1972) pp. 183,4.
10. Costas, op. cit., p. 113.
11. D. M. Lloyd-Jones, O COMBATE CRISTÃO (São Paulo: PES, 1991) p. 101.
12. Costas, op. cit., p. 114.
Costas, COMPROMISO Y MISION (San José: Editorial Caribe, 1979) p. 102.

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