O Reino de Deus no Evangelho de Marcos

Autor: Isaias Lobão P. Jr.
O evangelho de Marcos é o segundo dos Evangelhos Sinópticos, assim chamados os três primeiros evangelhos, Mateus, Marcos e Lucas, por apresentarem a vida de Jesus de maneira semelhante, em contrapartida ao evangelho de João.

Marcos foi o primeiro evangelho a ser escrito. Vemos vários de seus versículos citados nos outros evangelhos sinópticos.

A autoria deste evangelho é tradicionalmente atribuida a João Marcos, que não foi um dos doze apóstolos, mas acompanhou Paulo em sua primeira viagem missionária. (At 13:13). Podemos datar com segurança que ele foi escrito entre o ano 50 e 70 d.C.

Pedro geralmente é tido como o mentor de Marcos na escrita do evangelho, notadamente sua pessoa aparece em destaque em todo o evangelho.

Os primeiros leitores de Marcos foram os cristãos romanos. Não sabemos muito sobre esta comunidade, como foi iniciada, ou quais os problemas que eles passavam; mas podemos detectar algo pela forma como Marcos escreveu o evangelho. Diversas vezes ele faz alusão ao sofrimento, perseguição e intolerância por parte dos opositores de Jesus. Parece que Marcos quer demonstrar que se Jesus sofreu, seus seguidores não devem esperar outra recepção por parte dos incredúlos.

A teologia clássica geralmente define como o grande tema do evangelho de Marcos “a qualidade de servo no filho manifesto em carne”, nas palavras de S.E. McNair. O versículo-chave é 10:45, “Porque até o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar sua vida para salvar muita gente”.BLH. “Não há genealogia, pois quem cuidaria de apresentar a genealogia de um servo? O caráter distintivo de Cristo no evangelho de Marcos, é aquele que Paulo apresenta em Filipenses 2:5-8. E haje entre vós o mesmo sentimento que houve também em Jesus Cristo.

O qual tendo a natureza de Deus, não julgou que fosse nele uma usurpação o ser igual a Deus; mas ele se aniquilou a si mesmo, tomando a natureza de servo, fazendo-os semelhante aos homens, sendo reconhecido na condição como homem. Humilhou-se a si mesmo, feito obediente atéa morte, e morte de cruz. Mas este humilde servo, que abandonou a forma de Deus (Fp 2:6) e foi achado na forma de homem, era, contudo, o “Deus poderoso” (Is 9:6), como o próprio Marcos declara (1:1), e por esta razão obras poderosas acompanham seu ministério comprovando-o. Como convém a um evangelho de serviço. Marcos destaca mais as ações do que as palavras.

O tema que trataremos neste trabalho será o Reino de Deus, visto na perspectiva de Marcos, na proclamação de Jesus. Para basearmos nosso argumento nos deteremos ao texto de Mc 1:14-15, o começo do trabalho de Jesus na Galiléia.

Jesus começa seu trabalho na Galiléia

“Depois de João ter sido preso, foi Jesus para a Galiléia, pregando o evangelho de Deus, e dizendo: O tempo está cumprido e o reino de Deus está próximo: arrependei-vos e crede no evangelho.”

Marcos registra o início do ministério com um fato histórico-temporal, depois de João ter sido preso, o versículo 13 terminou dizendo que Jesus foi tentado por Satanás, e foi servido pelos anjos, e não diz mais nada. A Bíblia Vida Nova, em seu comentário, registra que antes da primeira época no ministério na Galiléia, Jesus ministrou em Jerusalém e na Judéia (Jo 1:19-3:36). O Dr. Halley diz que, entre os vs. 13 e 14, isto é, entre a tentação e o começo do ministério da Galiléia, devem-se colocar o fatos de Jo1:19 a 4:54, que cobrem o período de mais ou menos um ano.”

Jesus faz uma escolha em seu ministério, ele deixa Jerusalém e a região da Judéia, que era o centro político-religioso de Israel e passa a ministrar na Galiléia, região pobre e esquecida. Como diz o Dr. Orlando Costas, Jesus fez a “opção Galiléia”, deixa os grandes centros de poder e influência, e realiza sua obra entre os marginalizados e esquecidos da região mais pobre da Palestina.

A prisão de João Batista relatada aqui é esclarecida somente no capítulo 6. Marcos registra o motivo da prisão, como sendo fruto da declaração de João contra o casamento de Herodes com Herodias, mulher de seu irmão Felipe. João levantou sua voz profética, advertindo-o de que a Lei proibia este relacionamento, por causa disto, nos diz o texto, Herodias odiava João Batista. Ódio grande o bastante para convencer a Herodes a matá-lo.(vs.17-20).

A Mensagem de Jesus

Já vimos quando Jesus começou seu ministério na Galiléia, agora passamos a destacar o conteúdo de sua mensagem. O texto nos diz que ele estava “pregando o evangelho de Deus”, mas o que significava a palavra evangelho para os primeiros leitores? É certo que não é o mesmo para nós hoje. O que significava dizer que este evangelho é de Deus?

No grego, língua que foi escrito o Novo Testamento, a palavra evangelho era bastante comum. Inicialmete significava o prêmio oferecido por levar as boas notícias, depois o termo foi usado para as próprias boas notícias. Boas notícias que tinham a ver com o povo em geral, podeia ser uma campanha vencida por um general, o nascimento de um herdeiro do imperador. Os gregos costumavam levantar as mãos bem alto e clamavam “alegrem-se, nós vencemos!”, a palavra para eles trazia a idéia de felicidade e regozijo. Existia também uma conotação religiosa, fora da fé cristã, quando um novo imperador nascia, declarava-se a Boa Notíca (evangelho) do novo “Deus”(Theos) que governaria o Império.

No contexto do Novo Testamento, o evangelho é o cumprimento das promessas do Antigo Testamento. Para Marcos, o evangelho era o cumprimento das profecias antigas a respeito do Reino de Deus. Nos dias de Cristo, Israel vivia a esperança messiânica. Os livros desta época, chamados apocalípticos, destacavam a esperança da vinda do Messias, ele viria para destruir os opressores e estabeleceria o Reino de Jeová. Conforme diz Issac Rottenberg, “a história é interpretada nos termos de uma batalha cósmica entre as forças do bem e do mal. No fim Deus mesmo intervirá e estabelecera seu reino através de cataclismas envolvendo os céus e a terra.”

Também é importante nos lembrar do destaque dado por Jesus ao evangelho pregado por ele, era de Deus, este destaque, ao meu ver, era para referendar sua proclamação e para diferenciar sua mensagem. Conforme vimos, a palavra evangelho era comum ao povo, e por isso era preciso destacar sua origem divina, em contrapartida aos diversos evangelhos anunciados na época, que prometiam trazer salvação a uma humanidade que ansiava por libertação e paz.

O termo Deus, destaca também a origem da mensagem de Jesus. Ela não veio da vontade humana, por isso o destaque é importante. Sua origem não se deu nos dias do Novo Testamento, mas desde a fundação do mundo. Fazendo parte de um plano previamente estabelecido. E que se cumpre naquele momento da história.

O Cumprimento da Esperança

Passamos agora para outro tema que foi proclamado por Jesus como parte de sua mensagem, o texto diz que Jesus andava pela Galiléia anunciando que “o tempo está cumprido e o reino de Deus está próximo.”

A expressão “o tempo está cumprido” se relaciona ao que já mencionamos acima, a respeito do cumprimento das antigas profecias. Todos os três evangelhos sinópticos indicam que Jesus começou seu ministério com esta mensagem, a passagem de Lucas 4, ilustra bem isto. Jesus visita a sinagoga de Nazaré, onde ele lê a famosa escritura de Isaias 61 a respeito do Messias, ele choca seus conterrâneos nazarenos, ao dizer que a tão esperada profecia se cumpriu, e que ele era o Ungido, sob o qual o Espírito do Senhor repousava.

Esta esperança messiânica incluia elementos escatológicos, sem os quais não entendemos bem a mensagem de Jesus nos evangelhos. João Batista anunciou a iminência da chegada do reino, a intervenção de Deus na história, Jesus agora proclama que “o tempo está cumprido”, declara o cumprimento escatológico das antigas profecias. Isto significa que chegou finalmente o tempo determinado por Deus para dar cumprimento a seu propósito. A palavra grega usada aqui para tempo é Kairós. Kairós transmite o conceito de tempo determinado, algo previamente esperado diferentemente de Kronos, outra palavra grega para tempo, que é o tempo contado no relógio, daí vem nossas palavras cronômetro, cronológico, cronometrar. Kairós é o tempo de Deus, que diz “presente”, no qual a sua vontade é manifestada entre os homens de maneira correta.

Conforme disse René Padilla, “o evangelho é essencialmente as boas novas de que (…) vindo, porém, a plenitude do tempo(…) Gl 4:4, Deus enviou o seu Filho, em quem e por meio de quem se cumpriu a esperança do Antigo Testamento. Seremos inféis a mensagem do evangelho se esquecermos desta característica escatológica da mensagem de Jesus. Já estamos vivendo um novo tempo, antecipando toda nossa esperança quanto ao reino eterno. Alguns autores, como C.H. Dodd, enfatizaram esta irrupção da ação de Deus no tempo presente, ele chamou de Escatologia Realizada.

O Reino de Deus na História

Agora nos deteremos mais sobre o tema do Reino. O texto nos diz “o reino está próximo”. Mas que reino é este? E por que se diz que está próximo? Parece uma contradição a outra expressão que o tempo está cumprido, mas será isto mesmo?

O reino de Deus teve um papel central na vida, obra e mensagem de Jesus. De fato alguns autores, como René Padilla, George E. Ladd, Valdir Stueurnagel, dentre outros dizem que o Reino de Deus constituiu-se a mensagem central de Jesus.

Mas durante muito tempo, o tema do Reino não foi discutido com profundidade dentro da Igreja, isto se deve, ao meu ver, a diversas interpretações. Mortimer Arias chamou de reduções, que ele alistou da seguinte maneira.

a)Patrística – Os pais da Igreja, foram muito influenciados pela filosofia grega, eles tentavam fazer uma ponte entra a fé cristã e o pensamento grego. Eles conceituaram o Reino somente em categorias espirituais. O governo de Deus era espiritual.

b)Romana – O Reino é identificado com a Igreja. Este era o pensamento da igreja medieval, muito influenciada por Agostinho.

c)Evangélica – Para muitos evangélicos o Reino é identificado ao novo nascimento, quando Deus assume o governo sobre a vida do crente. Um reinado individualista, talvez influenciado pelo movimento Pietista da Alemanha e o Puritanismo Inglês.

d)Liberal – Os liberais identificam o Reino, com uma nova ordem social. Talvez influenciados pela perspectiva escatológica do pós-milenismo.

e)Apocaliptíca – O reino de Deus é concebido em categorias futuristas. O erudito Albert Schweitzer defende esta corrente, para ele Jesus foi um mestre apocalíptico, esperava o estabelecimento do Reino em um futuro imediato, o Reino não chegou e Jesus morreu desiludido.

f)Carismática – os carismáticos, identificam o Reino com o poder de salvar, libertar o pecador aqui e agora. Para eles o Reino é presente e atua com poder nos nossos dias.

Como vimos o Reino de Deus é uma realidade difícil de definirmos. Para uns é uma realidade futura, para outros ela já se estabeleceu, tentaremos conceituar o Reino de Deus seguindo o pensamento, que hoje é concenso entre os eruditos, que o Reino de Deus é tanto uma realidade presente, como uma esperança futura. A tensão do “já” e do “ainda não”. Segundo as Escrituras o Reino de Deus já chegou com poder através de Jesus Cristo, ele se manisfestou durante seu ministério, e se estabeleceu derrubando o reino do mal que controlava a existência humana. Mas ele ainda não chegou com toda plenitude. O governo de Deus ainda não alcaçou toda a extensão da terra. Os homens ainda são rebeldes ao projeto eterno de Deus.

Quarenta anos atrás, Carl Henry, em seu livro The Uneasy Consciense of Modern Fundamentalism, tenteva persuardir os evangélicos a darem mais atenção ao tema do Reino de Deus. Ele cria que se a mensagem do Reino era central na pregação de Jesus, deveria sê-lo na nossa. Este é uma alerta que deve soar aos nossos ouvidos ainda hoje.

Como podemos entender esta tensão do Reino, do “já e ainda não”? Oscar Culmann, usando uma terminologia da Segunda Guerra Mundial, introduz a noção do Dia D e o Dia V. Os aliados venceram os nazistas em uma batalha na Normandia, que ficou conhecida como o Dia D. Ali foi vencida uma batalha, não a guerra. Os nazistas só foram vencidos tempos depois, no confronto conhecido como Dia V. A grande invasão de Deus se deu no ministério de Jesus. A vitória foi na cruz do Calvário, onde segundo Paulo, Jesus despojou os principados e potestades, expondo-os ao desprezo público, (Cl 2:15). Mas, ainda falta vencer toda obra do mal, que será vencida na Segunda Vinda de Jesus. Nós vivemos a expectativa do intervalo, entre o Dia D e o Dia V.

O Reino como realidade presente

O termo Reino, no grego Basileia, têm um significado dinâmico, a chave para a compreensão do evangelho de Jesus. O Reino é poder de Deus em ação entre os homens por meio da pessoa de Jesus e seu ministério.

Marcos registra esta realidade presente em 9:1, “Lembre-se disto: há alguns aqui que não morrerão antes de verem o Reino de Deus chegar com poder”. (Bíblia na Linguagem de Hoje). Aqui Jesus pode estar se referindo a sua ressurreição, afirmando que alguns dos seus discípulos o veriam como o vencedor da morte. Prenunciando a vitória final. Mas fica claro aqui, que o poder de Deus se manifesta em Jesus, ele é o autobasileia, segundo as palavras de Orígenes.

Para entender a expressão, autobasileia, nos lembramos da verdade expressada por João, O Verbo se fez carne, a encarnação é fundamental para a Teologia do Reino. Ela enfatiza a presença real de Deus na história, pois o ideal de Deus se fez carne e habitou entre nós, e vimos a sua glória, glória como a do Pai.(Jo 1:14-15).

Na Escatologia Realizada de Dodd, ele dizia que o Reino de Deus está presente em Cristo, nada mais virá pois o reino já veio e tudo se cumpriu. Este pensamento destitui todo apelo futurístico da esperança do Reino de Deus.

A chegada do Reino, não vem para cumprir as promessas de Deus em termos políticos, como era o pensamento geral na época de Jesus. Segundo René Padilla, “sua vitória é de dimensões universais. Seu exorcismo de demônios é um sinal de que, em antecipação à destruição final de Satanás e suas hostes no fogo eterno, Deus invadiu a esfera de ação de Satanás, como quem entra na casa do homem forte e o amarra antes de saquear os bens,(Mc 3:27). Seus milages de cura são sinais que apontam para a vinda do fim, quando a morte vai ser absorvida pela imortalidade.

A presença do Reino, é bem expressada na Igreja quando ela confessa o senhorio de Cristo. Dizer que Cristo é Senhor hoje, não soa como soava no primeiro século, onde os mártires cristãos, forjavam o crescimento da Igreja. A palavra Senhor, no grego kyrius, era usada para se referir ao Imperador. Dizer que Cristo é o Senhor, é dizer que ele reina no lugar do Imperador. Esta é uma frase subversiva, e tinha duras implicações para os primeiros crentes. A perseguição era inevitável para aqueles que obedeciam ao senhorio de Cristo.

Mc. 10:35-45, nos traz uma experiência bastante interessante. Marcos registra aqui o pedido de Tiago e João. Eles pedem a Jesus que os coloque a sua direita e a sua esquerda, respctivamente, quando ele estiver na sua glória, ou como traduz a Bíblia na Linguagem de Hoje, no seu Reino glorioso. Jesus diz que para participar do seu Reino, eles tem que beber do cálice que ele beber, e ser batizado com o mesmo batismo.

Aqui Jesus confronta seus discípulos, dizendo que não participação no Reino, sem a participação na sua morte. Eles devem encarnar os sofrimentos e a morte de Jesus. Os discípulos demonstravam ter ambições políticas definidas, até aqui eles não entenderam a realidade do Reino. Eles imaginavam que Jesus iria para Jerusalém para tomar o poder e se tornar rei de Israel.

Por isto que Jesus usa o exemplo dos governadores e líderes do povo, ele demonstra que não veio para ser um deles. Sua missão vai além de um domínio político. Então Jesus atribui para si, dois títulos do Antigo Testamento que identificavam o Messias, Filho do Homem e o Servo Sofredor. Deve ser interessante imaginar a reação dos discípulos, ao verem Jesus usar títulos tão diferentes entre si para o identifica-lo. Filho do Homem, tinha a ver com o Messias conquistador, que reinaria em Israel, talvez Jesus estivesse se relacionando a Dn 7:13, mas também ele usa o termo servo, que faz alusão ao Servo Sofredor de Is 53.

O Reino como realidade futura

Maranata. Ora vem Senhor Jesus. Esta é a proclamação da Igreja a 20 séculos, a chegada iminente do Reino de Deus absorve a maioria das discusões no meio evangélico. Para muitos vivemos os últimos dias, o tempo que Jesus voltará e destruirá todo mal. Estabelecerá seu Reino e governará juntamente com seu povo.

A expectativa da Segunda Vinda, anima os crentes deste século, ao ponto de muitos marcarem datas para a volta de Jesus, causando confusão e engano. Mas isto não deveria nos espantar pois Jeus se referiu a estes falsos sinais, bem como a falsos cristos que apareceriam, querendo enganar , se possível, até os eleitos.

Em Marcos notamos o registro de um sermão de Jesus a respeito do fim em Mc 13, todo o capítulo se relaciona a expectativa do fim. Também é digno de nota as parábolas acerca do Reino no capítulo 4, onde Marcos registra um grupo de parábolas, que falam do crescimento do Reino. Em Marcos não vemos a descrição de como será o Reino de Deus, numa perspetiva futurista, ele descreve somente como o Reino virá, diferentemente da visão profética do Antigo Testamento. Que descrevia com detalhes, a visão do Reino de Deua no futuro. Dedicando, capítulos inteiros, como Is 65, Is 11, Is 25-27.

Tomaremos como exemplo o sermão profético de Jesus, a respeito da Vinda do Reino. Mc 13:24-27. Jesus fala primeiramente de uma catastrofe cósmica. O escurecimento do sol e da lua, a queda das estrelas e o abalo dos poderes do céu. Concordo com George Ladd, que diz que esta é uma linguagem poética, que não pretende ser tomada literalmente. Sabemos que um argumento perigoso, visto que pode-se retirar todo elemento apocalípto do texto, ao interpretar numa perspectiva da Escatologia Realizada.

Segundo Ladd, em sua Teologia do Novo Testamento, destacam-se três tipos de afirmação em relação ao futuro escatológico. Ele definiu como:

Iminência: Mc 13:30. O Reino se estabelecerá a qualquer momento, Schweitzer dizia que Jesus esperava a vinda do Reino, para logo depois dos discípulos terminarem sua missão na Galiléia, ou seja, dali a poucos dias. Se olharmos sem o devido cuidado, podemos afirmar que ele tinha razão, porque o texto deixa claro a iminência da chegada do Reino. O Reino escatológico iria ser estabelecido naquela geração dos discípulos.

Demora. Mc 13:7, 10. Essa afirmação esta no mesmo contexto de outra, que o Reino demoraria a chegar. Jesus se refere ao sofrimento que guerras e rumores de guerra trarão aos seus seguidores, no versículo 9, Jesus afirma quer os discípulos seriam levados aos tribunais, por causa do seu nome. Mas é necessário que o evangelho seja pregado a todas as nações, e aí virá o fim.

Incerteza. Mc 13:32-37. Jesus afirma que nem mesmo ele sabia quando viria o Reino.(v.32). Esta, segundo Ladd, é a nota mais forte quanto ao tempo do vinda do Reino. Jeus ensina a necessidade de vigiar, contando a parábola da figueira. “A incerteza quanto ao tempo da parousia significa que os homens devem estar espiritualmente despertos e prontos para encontrar o Senhor em qualquer ocasião que ele venha.

A Porta de entrada no Reino

Não podemos esquecer, que a proclamação de Jesus é arrependei-vos e crede no evangelho. A proclamação do evangelho é inseparável do chamado ao arrependimento a à fé.

Arrepender-se, no grego metanoia, significa mudança de pensamento, metalidade. Aponta para uma mudança radical de vida. Não quer dizer contrição em consequência do pecado, mas algo muito mais profundo.

A mensagem de arrependimento foi proclamada por João Batista, Marcos indica que Jesus chamava os homens para que se arrependessem, já que lhes estava sendo oferecido o Reino de Deus como um dom presente, colocado a dsiposição de todos em antecipação ao fim do tempo.

O arrependimento é um dom de Deus, mas antes de tudo um mandamento. Só a graça de Deus, seu dom, nos capacita a receber o Reino, mas Jesus deixa clara a ordem, arrependam-se. Recebemos a graça de Deus, quando o obedecemos.

O arrependimento é inseparável da fé, “arrependei-vos e crede no evangelho”. Não existe base para a tese, segundo alguns, que o chamado ao arrependimento é para os judeus, e a chamada a fé, para os gentios., com base de uma dispensação antiga, que se dizia que o requisito era a salvação pelas obras, e que nós vivemos a era da graça, salvação pela fé. Já no Antigo Testamento, Abraão foi justificado pela sua fé, como diz Gênesis 15:6. A Graça de Deus, descrita por Paulo, razão da nossa fé. E depois descoberta por Lutero, por ocasião da Reforma, pode ser encontrada em todo o Antigo Testamento. Não é um tema novo, de uma nova dispensação.

A mensagem de Jesus a respeito de Reino de Desu é a proclamação por palavras e atos de que Deus está agindo e manifestando dinamicamente sua vontade redentora na história. Deus está buscando os pecadores: ele os está convidando a entrar no Reino e participar da benção messiânica; ele está solicitando deles uma resposta favorável à sua oferta graciosa.

Conclusão

Comentamos em nosso trabalho que o tema do Reino de Deus deveria ser a mensagem central na proclamação da Igreja hoje. Temos visto muitos grupos que estão redescobrindo o tema e trabalhando nas suas implicações teológicas, demostrando sua relevância para nossa Missão.

A presença do Reino estre nós, deveria nos motivar em nossa missão. Pois temos a certeza que os sinais da presença do Reino estão acompanhando a Igreja. A missão torna-se mais atuante e dinâmica. Pois passamos a entender nossa missão como a extensão da missão de Jesus.

Como povo missionário, assumimos a tensão da chegada do Reino, a tensão do já e do ainda não, o Reino de Deus nos faz um povo peregrino. Nosso único alvo passa a ser participar do plano de Deus, vivendo a presença do Reino e a promessa de sua plenitude.

Missão é um conceito altamente dinâmico, imbuído de um forte ímpeto peregrino, na disposição para deslocar e desinstalar. Missionar é peregrinar: é ouvir, é obedecer, é responder. Não há missão se não há peregrinação – o que não tem, necessariamente, uma missão geográfica.(15).

A promessa do Reino traz implicações práticas para nossa missão. Somos chamados a vigiar, pois não sabemos quando virá. Somos chamados ao arrependimento, mudar nosso comportamento mundano, para nos adequar a chegada do Reino de Deus. Isto traz implicações ao nosso discipulado, pois temos que formar pessoas com os ideais do Reino. Juan Carlos Ortiz, no seu famoso livro, O Discípulo, exemplifica isso mostrando que nossa consagração deve ser total. Pois somos participantes do Reino de Deus, e aguardamos sua consumação plena.

A realidade dinâmica do Reino afeta a vida humana não somente moral e espiritualmente, mas também física e psicologicamente, material e socialmente. Ele está ativo no meio do povo peregrino. A consumação do propósito de Deus se realizará no futuro, mas aqui e agora é possivel participar da promessa de sua chegada, através da presença de Jesus entre o povo de Deus.

A nossa oração deve ser sempre. Maranata. Ora vem Senhor Jesus.

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