O passaporte para o reino de Deus

Autor: Josivaldo de França Pereira

Suponhamos que você estivesse correndo em direção ao aeroporto a fim de viajar para um país distante. Na hora de mostrar o passaporte no guichê você não o encontra de jeito nenhum. De repente você se lembra que o deixou em casa, em cima do televisor; porém, buscá-lo agora não seria possível porque você mora longe e, de qualquer forma, perderá o vôo. Sem passaporte não há como embarcar. Assim é em relação ao reino de Deus. Sem passaporte não há como entrar nele, e nem ao menos vê-lo.

Que passaporte é esse? Quem o expede? Como podemos consegui-lo? Quanto custa? É o que pretendemos conferir neste estudo.

 

  1. O passaporte para o reino de Deus é o novo nascimento.

 

Nicodemos não compreendeu o significado bíblico do ensino de Jesus sobre o reino de Deus, o novo nascimento e suas implicações. E você, compreende?

 

  1. Um homem chamado Nicodemos

 

Seu nome é de origem grega e significa “conquistador do povo”. É mencionado somente no Evangelho de João e sua primeira aparição ocorre no capítulo 3, onde é descrito como fariseu (partido religioso da época), um dos principais dos judeus (significando que era membro do Sinédrio, o mais alto tribunal civil e eclesiástico de Israel) e mestre (isto é, um escriba, cuja profissão era estudar, interpretar e ensinar a lei). Parece que apesar de saber[1] – juntamente com outros que pensavam como ele (cf. Jo 2.23)[2] – que Jesus era “Mestre vindo da parte de Deus; porque ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes, se Deus não estiver com ele” (Jo 3.2), Nicodemos temia ser descoberto pelos judeus e denunciado a seus colegas fariseus, resultando em sua expulsão do Sinédrio e da sinagoga. Seria esta a razão principal pela qual ele foi ter com Jesus de noite? É provável que sim. Em João o medo religioso não é um tema ignorado.[3]

Mesmo sendo mestre em Israel Nicodemos não conseguiu entender, a priori, as metáforas espirituais empregadas por Cristo (vv4,9).

Nicodemos é mencionado novamente em João 7.50,51, onde mostrou mais coragem ao protestar contra as acusações feitas à pessoa de Jesus, sem que Ele fosse ouvido. A referência final a Nicodemos aparece em João 19.39, onde se registra que ele trouxe uma grande quantidade de especiarias valiosas para ungir o corpo de Jesus, o que indica que era homem de posição social.[4]

 

  1. O conceito bíblico de reino de Deus

 

A idéia  de reino de Deus está presente em toda a Bíblia. No entanto, a expressão como tal aparece somente no Novo Testamento. A expressão “reino de Deus” ocorre 4 vezes em Mateus, 14 vezes em Marcos, 32 vezes em Lucas, 2 vezes em João, 6 vezes em Atos, 8 vezes em Paulo e 1 vez no Apocalipse. “Reino dos céus” aparece somente em Mateus (33 vezes). “Reino de Deus” e “reino dos céus” são variações lingüísticas da mesma idéia (cf. Mt 19.23,24).[5] Mateus, que escreveu para os judeus, preferia usar a expressão idiomática semítica, enquanto que os demais escritores do NT a forma grega theós (Deus). Os judeus, por respeito e temor, normalmente usavam um termo apropriado no lugar do nome de Deus (cf. Mt 21.25).

O reino de Deus também é o reino de Cristo. Jesus fala do reino do Filho do homem (Mt 13.41; 16.28); de “meu reino” (Lc 22.30; Jo 18.36). Paulo fala do “reino do Filho” (Cl 1.13) e “seu reino celestial” (2 Tm 4.18). Pedro menciona a “entrada no reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo” (2 Pe 1.11). Deus confiou o reino a Cristo (Lc 22.29), e quando o Filho tiver completado o Seu governo, entregará o reino ao Pai (1 Co 15.24). Por isso, é o “reino de Cristo e de Deus” (Ef 5.5). “O reino do mundo se tornou de nosso Senhor e do seu Cristo” (Ap 11.15). Não existe nenhuma tensão entre “o reino do nosso Deus e a autoridade do seu Cristo” (Ap 12.10).

Quando se compara João com os sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas), percebe-se algo interessante. Nos sinóticos o tema dominante é o reino de Deus, cuja expressão aparece somente 2 vezes em João (3.3,5),[6] enquanto que vida, ou vida eterna, é um conceito menos usado. Num estudo cuidadoso de Reino nos sinóticos e de Vida em João, descobre-se que “ambos pertencem à mesma categoria teológica, e são sinônimos”.[7] De acordo com C. K. Barret, vida eterna em João “substitui o reino de Deus dos evangelhos sinóticos”.[8] Portanto, quando Jesus fala de ver ou entrar no reino de Deus, é o mesmo que ter vida eterna ou ser salvo (cf Jo 3.16,17). O reino de Deus é o âmbito em que seu domínio é reconhecido e obedecido, e no qual prevalece sua graça.[9]

A menos que alguém nasça de novo, não pode sequer chegar a ver o reino de Deus; isto é, não pode experimentá-lo e participar dele; não pode possuí-lo e desfrutá-lo (Cf. Lc 2.26; 9.27; Jo 8.51; At 2.27; Ap 18.7). Antes que alguém possa ver esse reino, antes que alguém possa entrar nesse reino, e antes que alguém possa ter vida eterna em qualquer sentido, é necessário nascer de novo.

 

  1. O contexto do novo nascimento

 

O contexto do diálogo de João 3 consiste na insuficiência de uma fé baseada em sinais externos (Jo 2.23). Jesus não podia confiar naqueles cuja fé era meramente superficial. Ele tinha conhecimento perfeito da natureza humana (Jo 2.24,25), como se vê na entrevista com Nicodemos. Num contexto mais amplo, por assim dizer, não podemos entender adequadamente a doutrina do novo nascimento fora do contexto do ser humano no pecado. O novo nascimento é necessário por causa da seriedade do pecado e da incapacidade do ser humano de resolver, por si só, o problema do pecado. Foi isso que Jesus disse a Nicodemos quando declarou no verso 6: “O que é nascido da carne, é carne[10]; e o que é nascido do Espírito, é espírito”. Segundo Hendriksen, “Este versículo pode ser parafraseado do seguinte modo: A natureza humana pecadora produz natureza humana pecadora (cf. Jó 14.4, ‘Quem da imundícia poderá tirar cousa pura? Ninguém’. Cf. Também Sl 51.5). O Espírito Santo é o autor da natureza humana santificada”.[11]

Em sua primeira epístola, o apóstolo João trabalha a verdade do diálogo de Jesus com Nicodemos na apresentação de seus resultados na vida moral do crente. Aquele que é nascido de Deus crê e ama a Jesus: “Todo aquele que crê que Jesus é o Cristo é nascido de Deus; e todo aquele que ama ao que o gerou, também ama ao que dele é nascido” (1 Jo 5.1). Ele pratica a justiça: “Se sabeis que ele é justo, reconhecei também que todo aquele que pratica a justiça é nascido dele” (1 Jo 2.29). Não leva uma vida de pecado: “Todo aquele que é nascido de Deus não vive na prática de pecado; pois o que permanece nele é a divina semente; ora, esse não pode viver pecando, porque é nascido de Deus” (1 Jo 3.9). “Sabemos que todo aquele que é nascido de Deus não vive em pecado…” (1 Jo 5.18a). Ama seus irmãos em Cristo e conhece a Deus: “Amados, amemo-nos uns aos outros, porque o amor procede de Deus; e todo aquele que ama é nascido de Deus, e conhece a Deus” (1 Jo 4.7). E experimenta a vitória da fé sobre o mundo: “Porque tudo o que é nascido de Deus vence o mundo; e esta é a vitória que vence o mundo, a nossa fé” (1 Jo 5.4).

O verbo “nascer”, empregado por João no Evangelho e em sua 1a Epístola, aparece no texto grego no tempo aoristo ou perfeito, indicando o caráter único, decisivo e completo do novo nascimento, com efeitos profundos e permanentes. Sendo assim, “De acordo com João, o que é o novo nascimento?” Packer faz a pergunta e ele mesmo responde com muita propriedade: “Não é uma alteração ou adição à substância ou às faculdades da alma, e, sim, uma drástica mudança operada sobre a natureza humana caída, que leva o homem a ficar sob o domínio eficaz do Espírito Santo e o torna sensível a Deus, o que ele previamente não era. Não é uma mudança produzida pelo próprio homem, da mesma forma que os infantes nada fazem a fim de induzir ou contribuir para sua própria procriação e nascimento. Trata-se de um livre ato de Deus, não provocado por qualquer mérito ou esforço humano (cf. Jo 1.12; Tt 3.3-7), por ser totalmente um dom da graça divina”.[12]

 

  1. O passaporte para o reino de Deus é o novo nascimento produzido pelo Espírito Santo.

 

O Espírito santo é o agente do novo nascimento. Nascer de novo é o mesmo que nascido do Espírito (v8) ou do alto, conforme sugere o advérbio grego ánothen nos versos 3 e 7. Você já nasceu de novo?

 

  1. O significado de nascer da água e do Espírito

 

O que significa nascer da água e do Espírito? A expressão nascer da água e do Espírito tem sido interpretada de várias maneiras. As diferentes  opiniões acontecem, basicamente, em torno da expressão “nascer da água”. As principais interpretações referem-se 1) à palavra de Deus (Pink, Mattew Henry, entre outros); 2) ao batismo com água (Hendriksen, Lenski, entre outros); 3) à operação purificadora do Espírito Santo (Calvino, Packer, entre outros). Estou convencido de que a terceira interpretação é a correta. O argumento de Calvino sobre esta passagem é digno de consideração. Diz ele que

“… depois de Jesus Cristo expor a Nicodemos a corrupção de nossa natureza, e dizer-lhe que é preciso que sejamos regenerados, como Nicodemos imaginava um segundo nascimento corporal, Cristo lhe mostra de que maneira Deus nos regenera; a saber, em água e em Espírito; como se dissesse: Pelo Espírito, o qual purificando e regando as almas faz o ofício da água. Desse modo é que eu tomo a água e o Espírito simplesmente pelo Espírito, que é água. Esta maneira de falar não é nova, visto que está de acordo com a que se encontra em Mateus, onde João Batista diz: ‘O que vem após mim vos batizará com Espírito Santo e com fogo’ (Mt 3.11). Portanto, como batizar com Espírito Santo e com fogo é dar o Espírito Santo, o qual tem a natureza e a propriedade do fogo para regenerar aos fiéis, da mesma forma nascer da água e do Espírito não quer dizer outra coisa senão receber a virtude do Espírito Santo, que faz na alma o mesmo que a água no corpo.

Sei que outros interpretam esta passagem de outra maneira; mas eu não tenho dúvida de que este é o sentido próprio e natural da mesma, uma vez que a intenção de Cristo não é outra que advertir-nos sobre a necessidade de nos despojarmos de nossa própria natureza se queremos entrar no reino de Deus. (…) ninguém pode entrar no reino de Deus até ser regenerado com a água viva; isto é, com o Espírito”.[13]

Packer, seguindo o pensamento de Calvino, diz que em João 3.5 a palavra água “não se refere a nada externo que seja complementar à obra interior do Espírito nem ao batismo de João nem ao batismo cristão nem às águas do nascimento natural, como algumas pessoas têm suposto, mas, sim, ao aspecto purificador da renovação interior como tal, da maneira como é retratada em Ezequiel 36.25-27”.[14] Diz ele ainda que o fato de não se mencionar a água no versículo 6 de João 3 é uma evidência de que no verso 5 a água é apenas “uma ilustração de um aspecto da ação renovadora do Espírito”. [15]

Concluímos, portanto, que assim como não há diferença entre ver o reino de Deus e entrar nele; nenhuma distinção entre ver a vida (Jo 3.36) e entrar nela (Mt 19.17; Mc 9.43,45), também não existe qualquer diferença entre nascer da água e do Espírito.

 

  1. Livre e soberanamente

 

Em João 3 a natureza do novo nascimento fica evidente naquela analogia empregada por Jesus quando diz: “O vento sopra onde quer, ouves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para onde vai; assim é todo o que é nascido do Espírito” (Jo 3.8).[16] Além disso, a palavra grega ánothen (de novo, vv3,7), que também poderia ser traduzida por “de cima”, “do alto”, “do céu” (o que é o mesmo que dizer, “de Deus” [Jo 1.13]), evidencia ainda mais o caráter livre e soberano do Espírito Santo na obra da regeneração.[17] Tendo-se em vista a estrutura vertical do pensamento joanino, e a ênfase que ele coloca na ação soberana do Espírito, a tradução “de cima” (e equivalentes), ajusta-se melhor ao contexto. Sendo assim, por que utilizamos também a expressão nascer “de novo”? Nós a utilizamos porque 1) é uma tradução possível no presente contexto, e 2) em João nascer do “alto” significa o mesmo que nascer de novo e vice-versa.

A comparação que Jesus faz entre o vento e o Espírito Santo em João 3.8 para ilustrar o novo nascimento é muito inteligente. A começar pelo uso dos termos, em português “vento” e “Espírito” são traduções distintas de uma mesma palavra grega, a saber, pneuma. Somente o contexto é que define a tradução correta. A comparação de Jesus também é indicada pela palavra “assim”. Além disso, nota-se dois pontos na analogia. O primeiro ponto é visto na expressão “onde quer”; e o segundo (que estudaremos mais adiante) na expressão “não sabes”. Teologicamente falando, assim como o vento sopra onde quer, ouvimos a sua voz, mas não sabemos donde vem, nem para onde vai; o Espírito Santo age livre e soberanamente, implantando no coração a vida que tem sua origem não nos homens, mas em Deus.

O vento é uma força que não podemos dominar nem barrar. O vento não consulta o beneplácito de ninguém, nem pode ser regulado pelos artifícios de quem quer que seja. Assim acontece com o Espírito. O vento sopra quando quer, onde quer, como quer. Assim se dá com o Espírito. Do modo como o ir e vir do vento não pode ser controlado pelo homem, também o novo nascimento do Espírito é independente da vontade humana (cf. Jo 1.13). O vento é regulado pela sabedoria divina. Todavia, no tocante ao ser humano, é absolutamente livre e soberano em suas operações. Do mesmo modo é o Espírito Santo. Às vezes o vento sopra tão suavemente que as folhas quase não farfalham; em outras ocasiões, sopra com tanta força que seu rugido pode ser ouvido a muitos quilômetros de distância. Assim também podemos observar na questão do novo nascimento. Com algumas pessoas o Espírito Santo trata de maneira tão suave que a sua atuação é quase imperceptível a observadores humanos; com outras, sua ação é tão poderosa, radical e revolucionária que suas operações tornam-se evidentes para muitos. Às vezes, o vento tem alcance meramente local; em outras ocasiões sua área de atuação é de grande alcance. Assim acontece com o Espírito Santo: hoje ele regenera uma ou duas pessoas, ao passo que amanhã poderá compungir o coração de multidões inteiras, conforme ocorreu no dia de Pentecostes. Seja como for, agindo em poucos ou em muitos, ele não consulta homem algum. Age como quer. O novo nascimento se deve à vontade livre e soberana do Espírito Santo de Deus.

 

c. Sobrenatural e Misteriosamente

O caráter sobrenatural e misterioso do Espírito Santo na obra da regeneração pode ser encontrado também na analogia do vento e o Espírito, principalmente na parte em que Jesus diz: “não sabes donde vem, nem para onde vai”. O Mestre ensina a Nicodemos que a obra regeneradora do Espírito Santo não pode ser entendida em seu aspecto místico e sobrenatural, como Nicodemos queria (Jo 3.9), ao mencionar o vento como exemplo de comparação. Do mesmo modo que ninguém sabe de onde vem o vento, nem para onde vai[18], assim é todo o que é nascido do Espírito. E assim como o vento, a ação oculta do Espírito Santo no coração humano não pode ser vista ou controlada, mas seus efeitos são inconfundivelmente evidentes.

Se olharmos atentamente para João 3.1-12, veremos que o sobrenatural e o misterioso estão presentes do começo ao fim da passagem. A própria expressão “nascer de novo” ou “do alto” soava incompreensível aos ouvidos de Nicodemos. O mestre de Israel sabia que Jesus falava de nascimento, mas não entendeu a natureza desse nascimento, que é espiritual (Jo 3.4). Não devemos interpretar a pergunta admirada de Nicodemos como se ele pensasse que realmente deveria retornar ao ventre materno e nascer segunda vez. Certamente ele aguardava uma resposta negativa por parte de Jesus. E assim, como é absolutamente impossível alguém entrar no ventre materno e nascer pela segunda vez, espiritualmente falando também não existe qualquer possibilidade de alguém entrar no reino de Deus se não nascer de novo. Pelo menos, a colocação de Nicodemos em João 3.4 serviu para Jesus desenvolver ainda mais o que Ele queria ensinar. A expressão nascer da água e do Espírito, que para nós ocidentais parece estranha e, por isso, tem dado margem para diversas interpretações, foi usada por Jesus para facilitar a compreensão de Nicodemos sobre o novo nascimento, sem perder de vista o caráter sobrenatural e misterioso do mesmo. Segundo Bruce, a expressão nascer da água e do Espírito “ecoa a linguagem do A. T. e pode ter sido escolhida para fazer soar uma campainha na mente de Nicodemos”.[19] E mais:

“Se ele considerasse impossível adquirir uma natureza nova mais tarde na vida, agora deveria lembrar que Deus tinha prometido fazer exatamente isto em seu povo Israel: ‘Aspergirei água pura sobre vós, e ficareis purificados; … e porei dentro de vós espírito novo (Ez 36.25s.). Este ‘espírito novo’ era o Espírito do próprio Deus: ‘Porei dentro em vós o meu Espírito’ (Ez 36.27). A promessa a Israel através de Ezequiel foi ampliada na visão do vale de ossos secos, quando o profeta obedeceu à ordem divina: ‘Profetiza ao espírito (= sopro), profetiza, ó filho do homem, e dize-lhe: Assim diz o Senhor Deus: Vem dos quatro ventos, ó espírito, e assopra sobre estes ossos, para que vivam’ (Ez 37.9). Nesta passagem de Ezequiel, como na presente passagem do quarto evangelho, deve ser lembrado que a mesma palavra hebraica (rûah) e grega (pneuma) pode ser traduzida por ‘sopro’, ‘vento’ ou ‘espírito’, dependendo do contexto”.[20]

 

Novamente Jesus é mal compreendido pelo fariseu. “Então, lhe perguntou Nicodemos: Como pode suceder isto? Acudiu-lhe Jesus: Tu és mestre em Israel e não compreendes estas cousas?” (Jo 3.9,10).  O ensino de Jesus foi sem dúvida uma grande lição para um homem que acreditava, como muitos de sua época, que podia salvar-se mediante a obediência da lei de Moisés, e por muitos outros preceitos produzidos pelos homens. Jesus esperava que um homem como Nicodemos, famoso por suas exposições das Escrituras, reconhecido como autoridade em todas as questões religiosas (cf. Jo 7.50,51), compreendesse com naturalidade o que Ele dizia, visto que Seu ensino não era completamente novo. Estava respaldado no Antigo Testamento.

Jesus continua: “Se, tratando de cousas terrenas, não me credes, como crereis, se vos falar das celestiais?” (Jo 3.11).[21] O que Jesus quis dizer com essas palavras? Se o novo nascimento é algo sobrenatural, por que Ele o chama de “cousas terrenas”? E o que seriam, porventura, as coisas “celestiais”? Uma das melhores interpretações que encontrei foi a de F. F. Bruce. Diz ele:

“A maneira mais natural de entender as coisas terrenas é atentar para o que Jesus estava falando. Pode parecer estranho classificar o novo nascimento como algo ‘terreno’, pois, por natureza, é um nascimento do alto; mas é ‘terreno’ no sentido de que acontece na terra e pode ser ilustrado por analogias terrenas. No ensino de Jesus, o novo nascimento faz parte do estágio elementar. Há muito mais a ser aprendido  depois de compreendida esta lição, mas como pode alguém que ainda não o experimentou avançar para compreender a plenitude da revelação de Deus em Cristo? Entre as coisas ‘celestiais’, que não têm analogias terrenas, podem ser mencionadas a relação eterna do Filho com o Pai e sua encarnação na terra. Estas coisas estão totalmente fora do alcance da experiência humana; para saber delas somos completamente dependentes de alguém que veio de Deus para revelá-las, o Filho do homem”.[22]

 

Concluímos que mesmo quando sabemos o momento exato do nosso novo nascimento, ainda assim não é possível compreender tão alto mistério. Teólogos e filósofos não são capazes de resolver este assunto. A teologia e a filosofia não conseguem desvendá-lo. Charles Hodge, o erudito de Princeton, expressou-se simplesmente da seguinte forma acerca do mistério da regeneração: “Não está ao alcance da filosofia ou da teologia resolver este mistério. É, contudo, o dever do teólogo examinar as várias teorias salvíficas, e rejeitar toda semelhança quando são inconsistentes com a Palavra de Deus”.[23]

 

  1. O passaporte para o reino de Deus é o novo nascimento produzido pelo Espírito Santo de graça.

 

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  1. Por que de graça?

 

Em um comercial de televisão, o vendedor oferecia um produto que garantia a aquisição de um outro “de graça”, segundo ele. “Por que de graça?”, perguntava, e a resposta logo em seguida era, “porque de graça é melhor!”. No que se refere à obtenção de nosso passaporte para a vida eterna não dá para agir assim. O passaporte para o reino de Deus não pode ser adquirido como se fosse um brinde por termos comprado (ou merecido) alguma coisa. O passaporte para o reino de Deus só pode ser obtido de graça, pela graça, por intermédio da fé. “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie” (Ef 2.8,9). O passaporte para o reino de Deus é um presente do Senhor para nós; por isso, não existe nenhuma outra maneira de consegui-lo a não ser de graça, pois somos pecadores por natureza, impossibilitados de adquiri-lo por nossos próprios méritos (cf. Rm 3.23; 6.23).

Cristo garantiu o nosso passaporte através de sua morte na cruz. O Espírito Santo é, por assim dizer, o expedidor ou agente desse passaporte. Em linguagem teológica isso significa que o Espírito Santo é o aplicador da obra redentora de Cristo. “O único agente eficaz na aplicação da redenção”, segundo nos ensina a Confissão de Fé de Westmisnter.[24] De acordo com o Breve Catecismo, “Tornamo-nos participantes da redenção adquirida por Cristo pela eficaz aplicação dela a nós pelo Seu Santo Espírito”.[25] Vemos, então, que o Espírito Santo está estreitamente ligado à pessoa e obra de Cristo. Por conta disso, a Bíblia o denomina de “Espírito de Jesus” (At 16.7); “Espírito de Cristo” (Rm 8.9); “Espírito do Filho” (Gl 4.6)  e “Espírito de Jesus Cristo” (Fp 1.19). Em outro lugar Paulo diz: “Ora o Senhor é o Espírito” (2 Co 3.17). Isto não significa que Cristo e o Espírito sejam a mesma pessoa, e sim, que há uma unidade divina entre ambos para a nossa redenção. Cooperam mutuamente com esta finalidade. Podemos perceber a clareza deste fato quando lemos Mateus 28.20; João 15.26; 16.14,15, onde Cristo promete retornar a Seus discípulos e a nós no Espírito. É por isso que Paulo diz em algumas vezes que é Cristo e em outras o Espírito Santo quem habita em nós (Rm 8.9,10; 1 Co 3.16; Gl 2.20).

Concluímos, então, que o passaporte para o reino de Deus é de graça porque não existe a mínima possibilidade de alguém nascer de novo, ser salvo e obter a vida eterna por seu próprio esforço ou mérito pessoal. A salvação não pode ser comprada ou ganha por obras ou merecimento (At 15.11; Ef 2.8,9). É de graça! Porém, custou um alto preço ao nosso Senhor e Salvador. Paulo diz que fomos “comprados por preço” (1 Co 6.20), e Pedro complementa dizendo que não fomos salvos “mediante cousas corruptíveis, como prata ou ouro…, mas pelo precioso sangue, como de cordeiro sem defeito e sem mancha, o sangue de Cristo” (1 Pe 1.18,19). O mérito é todo de Cristo. Ele pagou um alto preço para que míseros pecadores como nós pudessem ser salvos de graça.

 

  1. A graça de Deus no novo nascimento.

 

“Graça” é o favor imerecido de Deus para conosco. Nenhum de nós é merecedor de ver ou entrar no reino de Deus através do novo nascimento, a não ser pela graça. Graça é o favor imerecido de Deus para quem estava em débito com Ele.

Imaginemos a seguinte situação: ao se deparar na rua com um mendigo que nunca vira antes, alguém tira um dinheiro do bolso e lhe entrega. Esta atitude de ajudar o mendigo, por mais louvável e recomendável que seja, ainda não é graça. É compaixão. Agora, se aquela pessoa compassiva ajudasse um mendigo ou alguém que fez mal a ela; alguém que prejudicou sua vida e, por isso, está em débito com ela, e mesmo assim se dispõe a ajudar o ofensor, isso é graça. Graça é um favor imerecido para quem está em débito com aquele que o ajuda.

Uma diferença básica entre graça e compaixão no que se refere à pessoa de Deus, é que na primeira o Senhor nos deu o que não merecíamos. Paulo diz: “Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 6.23). E mais: “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie” (Ef 2.8,9). Não merecíamos a vida eterna. Quanto à misericórdia ou compaixão de Deus, Ele não nos deu o que merecíamos; a saber, a morte eterna. “Num ímpeto de indignação escondi a minha face por um momento; mas com misericórdia eterna me compadeço de ti, diz o Senhor, o teu Redentor” (Is 54.8).

Tiago diz que “Toda boa dádiva e todo dom perfeito são lá do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não pode existir variação ou sombra de mudança” (Tg 1.17). O novo nascimento descrito em João 3 também vem do alto. É um dom da livre graça de Deus. Uma obra realizada pelo  Espírito Santo, a fim de que cegos espirituais possam ver o reino de Deus; que pessoas afastadas dele por causa do pecado possam entrar; e que mortos em seus delitos e pecados possam viver a vida do reino. O novo nascimento é o dom da graça de Deus que muda a disposição de nossa alma, inclinando nosso coração para o Senhor.

A regeneração é uma dádiva graciosa de Deus, como toda boa dádiva e todo dom perfeito que vêm do alto. Tudo de bom que recebemos ou possuímos nesta vida, e que nos aguarda no futuro também, é pela graça. Nada é nosso, exceto o pecado.

“A graça se adapta melhor à nossa necessidade do que qualquer outra coisa. Visto que o pecado é um tirano que reina sobre nós, e pretende levar-nos à morte eterna, que esperança podemos ter de salvação firmados em nossos próprios esforços? Quando nossas consciências ficam alarmadas por causa de nossas muitas falhas vergonhosas, não estamos em desespero? Lembre-se, porém, de que a salvação é pela graça de Deus! A graça de Deus está fundamentada na obediência perfeita e meritória de Cristo. O pecado não pode destruir o valor disso. A graça pode reinar sobre a maior indignidade (cf. Rm 5.21). Na verdade, é só com o indigno que a graça se preocupa. Isso é assombroso! Isso é maravilhoso! Há esperança de salvação para o pior indivíduo, se é que ela é assegurada pela riqueza da graça que reina”.[26]

 

  1. A condição necessária do novo nascimento

 

A condição necessária do novo nascimento aparece, pelo menos, em duas ocasiões em João 3.1-12. A primeira delas ocorre no verso 3 quando Jesus diz a Nicodemos: “… se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus”. Segundo Sproul,

“Quando Jesus disse a Nicodemos que ‘se’ alguém não nascesse de novo, ele estava afirmando aquilo a que chamamos de condição necessária. Uma condição necessária é um requisito absoluto para que um resultado desejado qualquer tenha lugar. Por exemplo, não pode haver fogo sem a presença do oxigênio, pois o oxigênio é uma condição necessária para que haja combustão. (…). A palavra ‘se’ faz da regeneração um sine qua non da salvação. Não havendo regeneração, não haverá vida eterna”.[27]

 

Vale destacar, ainda, que por três vezes nesta passagem Jesus utiliza o prefácio solene “em verdade, em verdade te digo” (Jo 3.3,5,11). As palavras “em verdade” em forma duplicada aparecem 25 vezes somente no Evangelho de João, e sempre pronunciadas pelo Senhor Jesus. Essas palavras – do hebraico amém, transportado para o Novo Testamento – denota uma forte ênfase. Em outras palavras, quando Jesus falou sobre a regeneração como uma condição necessária para ver e entrar no reino de Deus, ele declarou essa condição necessária de maneira enfática.[28] Além dessas palavras (“em verdade,…”), a expressão “não pode” também é crucial no ensino de Jesus. “Trata-se de uma expressão negativa que aborda a idéia de habilidade ou possibilidade. Sem a regeneração, ninguém (negativa universal) é capaz de entrar no reino de Deus. Não há exceções. É impossível alguém entrar no reino de Deus sem ter renascido”.[29]

A segunda ocasião em que aparece a condição necessária do novo nascimento em João 3, encontra-se no verso 7. A versão Almeida Revista e Atualizada (ARA), adotada neste estudo, traduz assim o versículo: “Não te admires de eu te dizer: importa-vos nascer de novo”.[30] Outras possíveis traduções são as seguintes: “Não te maravilhes de te ter dito: Necessário vos é nascer de novo” (ARC); “Por isso não se admire de eu dizer que todos vocês precisam nascer de novo” (BLH). Para Nicodemos aquela história toda sobre nascer de novo parecia muito estranha. Ele estava acostumado à idéia de salvação por meio das obras da lei; isto é, por uma ação do homem. Mas o ensinamento que agora recebe é que a salvação é um dom de Deus, e que, em sua primeira etapa, tem lugar por meio de um acontecimento no qual o homem é necessariamente passivo. [31]

“Com freqüência, na pregação de nossos dias, interpreta-se mal a expressão necessário vos é. Deve-se entender claramente que, em concordância com todo o contexto, não se refere à esfera da obrigação moral mas à do decreto divino. Quando Jesus diz: ‘Necessário vos é nascer de novo’, não significa, ‘Fazei todo o possível para nascer de novo’. Pelo contrário, o que quer dizer é: ‘Algo tem que suceder-vos: o Espírito Santo deve por em vosso coração a vida do alto’. E Nicodemos precisaria ter um conhecimento suficientemente profundo de sua própria incapacidade e corrupção para compreender isto imediatamente. Assim não teria mostrado com sua expressão ou com suas palavras que lhe parecia tão estranha e surpreendente  o ensino de Jesus acerca da absoluta necessidade e do caráter soberano da regeneração”.[32]

 

Deus seja louvado por tão grande salvação! O passaporte para o reino de Deus é o novo nascimento produzido pelo Espírito Santo de graça.

 

Josivaldo de França Pereira é pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil em Santo André-SP. Bacharel em Teologia pelo Seminário Teológico Presbiteriano Rev. José Manoel da Conceição – SP. Licenciado em Filosofia pela Faculdade Associada do Ipiranga – SP. Mestre em Missiologia pela Faculdade Teológica Sul Americana de Londrina-PR e Doutorando em Ministério pelo Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper/Mackenzie – SP. É secretário de missões do Presbitério Santo André (PRSA), autor do livro Atos do Espírito Santo (Ed. Descoberta, 2002) e de vários ensaios e artigos bíblicos disponíveis na Internet. E-mail: rev.p@ig.com.br



[1] À luz das palavras de Nicodemos em João 3.2, é provável que ele tivesse presenciado os sinais que Jesus fazia em Jerusalém durante a festa da páscoa (Jo 2.23).

[2] O “sabemos” de Nicodemos (v2) e o “sabemos” de Jesus (v11), parecem sugerir um contraste entre o conhecimento produzido pela reflexão humana e o conhecimento resultante da estreita comunhão com o Pai. Para outras possíveis interpretações consulte R. N. CHAMPLIN, O Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo: João-Atos, Vol. II. Guaratinguetá: A Voz Bíblica, s/d, p. 308.

 

[3] Cf. João 7.13; 9.22; 12.42; 19.38. Para outras possibilidades do porquê Nicodemos ter visitado Jesus à noite, consulte G. HENDRIKSEN, Comentario Del Nuevo Testamento: El Evangelio Según San Juan. Grand Rapids: SLC, 1987, p. 142.

[4] Alguns eruditos identificam Nicodemos com Nicodemos ben Gorion, um rico cidadão de Jerusalém e irmão de Josefo ben Gorion, o famoso escritor das guerras e antigüidades dos judeus. Mas não há provas conclusivas a respeito desta identificação. Consulte F. F. BRUCE, João: Introdução e Comentário. São Paulo: Vida Nova/Mundo Cristão, 1987, p. 78; R. N. CHAMPLIN, op. cit., p. 303.

[5] Cf. G. E. LADD, Reino de Cristo, de Deus, dos Céus In: EHTIC. São Paulo: Vida Nova, Vol. III, 1990, p. 262.

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