O ministério pastoral na Pós-Modernidade

Autor: José Luiz Martins Carvalho
O ministério pastoral é um dos temas mais relevantes para a Igreja Cristã. Em primeiro lugar, porque o pastor é quem conduz o rebanho de Deus, segundo a Sua vontade. Em segundo lugar, porque é o pastor o responsável por alimentar este rebanho para que ele cresça forte e sadio. Em terceiro lugar, porque o pastor é aquele foi chamado por Deus para assistir ao rebanho em todas as suas tribulações.

Além disso, devido a inúmeros escândalos nos últimos tempos, o ofício pastoral tem tido sua excelência questionada fora e até mesmo dentro da Igreja. É necessário, portanto, refletir sobre a relevância deste ministério e propor caminhos para resgatar o seu valor e a sua importância para o contexto atual e não somente dentro da Igreja, mas também na proclamação à sociedade em geral.

1. Desafios pós-modernos à Igreja e ao ministério pastoral

A Igreja precisa compreender quais são os maiores desafios que se levantam diante dela nestes tempos. Tempos em que os referenciais estão cada vez mais flexíveis e os fundamentos cada vez mais frágeis. Nas palavras de Ricardo Gondim:

Começamos o século XX com o apogeu da modernidade, terminamo-lo com o nascimento da pós-modernidade. Se a modernidade foi a época da lógica e do método, a pós-modernidade é marcada por ambigüidades e contradições. (GONDIM, Ricardo. Artesãos de uma Nova História. p. 87)

Stanley J. Grenz e Gene Edward Veith, Jr. afirmam, citando Charles Jencks, que o pós-modernismo nasceu a partir da arquitetura, na implosão do conjunto habitacional de Pruitt-Igoe, em Saint Louis, nos Estados Unidos, que era um exemplo emblemático da estética modernista (Cf. GRENZ, Stanley J. Pós-Modernismo. p. 25 e VEITH, Jr, Gene Edward. Tempos Pós-Modernos. p. 32). Eles apontam para os sinais do pós-modernismo, desde então, na sociedade, na cultura e nas artes em geral (Cf. GRENZ, Stanley J. Pós-Modernismo. p. 27ss e VEITH, Jr, Gene Edward. Tempos Pós-Modernos. p. 37ss).

Por identificar-se em oposição e superação ao modernismo e também por estar em pleno processo de desenvolvimento, não é fácil determinar com segurança as características do pós-modernismo. Todavia, pode-se perceber que ele é a negação de diversos valores e pensamentos que dominaram a cultura moderna. Citando Ihab Hassan, Veith Jr. propõe uma série de antíteses entre o modernismo e o pós-modernismo:

Os modernistas crêem em determinância, os pós-modernistas crêem em indeterminância. Onde o modernismo dá ênfase à finalidade e ao projeto, o pós-modernismo enfatiza o jogo e o acaso. O modernismo estabelece uma hierarquia, o pós-modernismo cultiva a anarquia. O modernismo valoriza o tipo; o pós-modernismo valoriza o mutante. O modernismo busca o logos, o significado subjacente ao universo expresso na linguagem. O pós-modernismo, por outro lado, acolhe o silêncio, rejeitando os dois, o significado e a Palavra. (VEITH, Jr, Gene Edward. Tempos Pós-Modernos. p. 36-37)

Assim, para o pós-modernismo a realidade é uma construção social e evita-se o discurso absolutizante, rejeitando as bases de pensamento e os fundamentos da era imediatamente anterior. Assim, a pós-modernidade é caracterizada pela ausência de princípios e valores claros. E, neste sentido, desta vez citando o historiador Arnold Toynbee, Veith Jr. identifica em uma tríplice divisão os sentimentos gerados no pós-modernismo como sendo uma fase dominada por “ansiedade, irracionalismo e desamparo” (Cf. VEITH, Jr, Gene Edward. Tempos Pós-Modernos. p. 38). A partir desta tríplice divisão, serão analisados os riscos e perigos que os tempos atuais podem trazer ao bom exercício da Excelência do Ministério Pastoral.

A primeira característica que Toynbee destaca no mundo pós-moderno é a ansiedade. Ela é resultado da multiplicidade de escolhas de um mundo plural e onde não se tem parâmetros claros de verdade para direcionar estas escolhas. Um dos mais importantes pensadores do existencialismo, corrente que está n pós-modernismo, Jean-Paul Sartre, fala de uma ânsia característica desta situação em que o homem se encontra.

A segunda característica do pós-modernismo, segundo Toynbee, é o irracionalismo. Com sua crítica ao modelo racionalista da modernidade, o mundo pós-moderno é tem como uma de suas expressões mais marcantes o irracionalismo. Veith Jr. afirma que:

As heresias modernistas caíram, mas agora heresias pós-modernas as substituem. O racionalismo, tendo fracassado, cede lugar ao irracionalismo – e ambos são hostis à revelação de Deus, ainda que de maneiras diferentes. Os modernistas não criam que a Bíblia fosse verdadeira. Os pós-modernistas lançaram fora completamente a categoria de verdade. Fazendo isso, já abriram uma caixa de Pandora de religiões da Nova Era, sincretismo e caos moral. (VEITH, Jr, Gene Edward. Tempos Pós-Modernos. p. 186s)

Assim, não existem parâmetros absolutos, modelos universais ou paradigmas unívocos. Assim, neste pluralismo levado ao extremo, Ricardo Gondim lembra que “a cosmovisão religiosa não pode ser imposta, ela participa da sociedade como mais uma opção entre muitas” (GONDIM, Ricardo. Fim de Milênio: os perigos e desafios da Pós-Modernidade na Igreja. p. 71).

A terceira característica da pós-modernidade apontada por Toynbee é o desamparo. Este desamparo, também oriundo da falta de parâmetros claros de verdade se desenvolve no exacerbado sentimento de isolamento, no individualismo. O individualismo é um dos traços mais marcantes da modernidade, no período do pós-guerra. Vivemos em uma época de exacerbado individualismo. O bem-estar pessoal é colocado acima do bem comum. Os interesses individuais estão acima dos direitos sociais.

Estas três características se constituem num grande desafio pós-moderno à excelência do Ministério Pastoral para os dias atuais.

2. Modelos inadequados de Igreja e Ministério Pastoral hoje

A influência dos perigos e desafios da pós-modernidade pode ser vislumbrada facilmente na vida da Igreja. Muitas igrejas evangélicas, consciente ou inconscientemente, têm até mesmo adotado modelos eclesiásticos e pastorais que carregam em si a marca clara do mundo pós-moderno, especialmente no que se refere à teatralização, à dominação e à comercialização da religião, como se fora um artigo cultural qualquer. Esta é precisamente a tese de um importante estudo de Leonildo Silveira Campos (Cf. CAMPOS, Leonildo Silveira. Templo, Teatro e Mercado: organização e marketing de um empreendimento pentecostal. p. 14ss).

Comentando esta obra, Julio Paulo Tavares Zabatiero relaciona este modelo eclesiológico com a atividade pastoral. Assim, ele demonstra que a cultura massificada pela televisão tem tornado a sociedade pós-moderna na “sociedade do espetáculo”. Por esta causa, o ministério pastoral tem se desenvolvido cada vez mais em grandes eventos, que só contribuem para aumentar o sentimento de desamparo e solidão do povo. Nessa sociedade “midiática”, até o culto toma uma nova conotação:

Os novos gostos litúrgicos, nas igrejas históricas, traem a sedução imagética. A imagem apaixona, o espetáculo seduz mentes, corações e corpos, e imperceptivelmente a igreja se transforma em um imenso teatro coletivo; o culto converte-se em arrebatadora performance das coisas que se deveriam esperar. Realidades escatológicas são temporalizadas, capturadas nas agradáveis sensações da confusa presença do sagrado no extasiante consumo dos novos cânticos, novos ritmos, novos gestos, novas palavras de ordem, novos ritos, meios sempre novos para se “performar” os mesmos e velhos ritos da celebração cristã do Crucificado. (ZABATIERO, Julio Paulo Tavares. Apascentai a Igreja de Deus no Mundo Pós-Moderno)

É por isto que, ao invés de centralizar-se na proclamação da Palavra de Deus, o culto evangélico tem tido o seu foco sobre manifestações visíveis da espiritualidade. Assim, a primeira tarefa pastoral que Zabatiero propõe é o cuidado com estas seduções da imagem e do espetáculo, não aceitando o papel que a pós-modernidade tem dado aos líderes religiosos. O pastor deve, então, cuidar primeiro de si mesmo.

Zabatiero também aponta para o já citado individualismo extremado da pós-modernidade tem invertido as realidades do mundo, privatizando o que é público e tornando público o que é privado e, mais uma vez, em grande parte por influência dos meios de comunicação. Ele lembra que a fé cristã não pode ser privatizada sob pena de perder sua essência:

A fé cristã é pública, sua arena não é o templo, não é o coração, não é a doutrina, não é a denominação. Sua arena é o mundo! Não o abstrato mundo composto de falsas doutrinas, espíritos enganadores, ou religiões concorrentes e anti-cristãs. O mundo, que é nossa arena, é o mundo amado inefavelmente por Deus. O mundo composto de pessoas reais, visíveis e palpáveis. Pessoas com cores, gostos, cheiros, modos e tons particulares, individuais, mas construídos publicamente nesta imensa sociedade anônima chamada Brasil. (ZABATIERO, Julio Paulo Tavares. Apascentai a Igreja de Deus no Mundo Pós-Moderno)

Diante deste mundo, a tarefa do ministro do Evangelho também é publica, mas sem desvanecer no espetáculo vitorioso. Ironicamente, ele aponta para a Cruz como o único “espetáculo” que deve ser demonstrado a partir do exercício do ministério pastoral.

Ministério pastoral e teológico que ajudem a Igreja a ser sal da terra e luz do mundo. Que, juntamente com o Povo de Deus, experimentem, desbravem novos caminhos para salgar este mundo insosso e nauseante em que vivemos. Ensino e pastorado que conduzam a Igreja de Deus, comprada com o sangue de Cristo, ao serviço ao mundo e no mundo. Igreja de Deus chamada para ser sal e luz, para brilhar em meio às trevas da exclusão, do consumo, da desumanização, da globalização tecnológica. Luz, farol altaneiro que reconduza a humanidade ao porto seguro da reconciliação com Deus. Sal, tempero agradável, que torne sábias as palavras e ações dos cristãos no mundo ignorante do progresso sem solidariedade e compaixão. (Cf. ZABATIERO, Julio Paulo Tavares. Apascentai a Igreja de Deus no Mundo Pós-Moderno)

3. Propostas para o Ministério Pastoral num contexto pós-moderno

A despeito de todos os dilemas e necessidades do tempo presente, no meio evangélico tem surgido uma infinidade de modelos eclesiásticos e pastorais que, além de negociarem as firmes bases da fundamentação bíblica e reformada, não tocam no âmago dos problemas das pessoas e oferecem soluções apenas parciais para suas realidades.

Aqui, serão apresentadas propostas visando à expressão da excelência do ministério pastoral num contexto pós-moderno, a partir do modelo o tríplice ministério apontado por Gildásio Reis na visão pastoral de João Calvino: o pastor como pregador, como visitador e como conselheiro (Cf. REIS, Gildásio. João Calvino: Sua Visão Pastoral). Será demonstrado, assim, que a proclamação da Palavra é uma ferramenta singular para superar o relativismo pós-moderno; que a visitação é um meio eficiente de vencer o desamparo das pessoas no mundo atual; e que o aconselhamento é uma forma adequada de mitigar a ansiedade por meio do acompanhamento e do processo contínuo de orientação e aprendizado.

3.1. Pregação como instrumento de ensino e transformação

Como visto anteriormente, a pregação do Evangelho é uma atividade inerente ao ofício pastoral. Assim, é cada vez mais urgente revisitar os ideais fundamentais do ministério pastoral, tanto no Novo Testamento quanto na Tradição Reformada, para prover bases firmes para a excelência do ministério pastoral também a pós-modernidade. O ministério pastoral continua o mesmo, assim como sua missão permanece inalterada. E a excelência do ministério pastoral, em qualquer tempo e qualquer época, deriva diretamente de sua missão: Proclamar a Palavra de Deus! A tarefa do pastor continua sendo uma e a mesmo, segundo Michael Horton:

“Pregar a Escritura é pregar a Cristo; pregar é Cristo é pregar a cruz; pregar a cruz é pregar a graça; pregar a graça é pregar a justificação; pregar a justificação é atribuir o todo da salvação à glória de Deus e responder a essa Boa Nova em grata obediência por meio de nossa vocação no mundo” (HORTON, Michael. Reforma Hoje. p. 124)

Neste sentido, Stanley Grenz inicialmente demonstra que o pós-modernismo e os cristãos evangélicos, possuem uma posição comum: a rejeição da epistemologia iluminista, que se expressou na valorização excessiva do conhecimento, sua objetividade e avaliação como algo inerentemente bom (Cf. GRENZ, Stanley. Pós-Modernismo. p. 236ss). Para uma aproximação do contexto cultural pós-moderno, ele propõe quatro contornos nos quais o Evangelho deve ser proclamado: um Evangelho pós-individualista, pós-racionalista, pós-dualista e pós-noeticêntrico.

Segundo Grenz, em primeiro lugar é necessário superar o individualismo da cultura pós-moderna. A promoção do indivíduo foi uma das marcas da modernidade, todavia, como já foi demonstrado, o mundo moderno tornou-se excessivamente individualista. Desta forma, Grenz entende que a ênfase no individual não deve ser completamente retirada da proclamação do Evangelho para os dias atuais. No entanto, deve-se acentuar o papel inevitável da comunidade e de redes social onde que é precisamente onde os indivíduos conhecem a si mesmos em suas identidades pessoais. Além disso, deve-se reconhecer a importância da comunidade de fé neste intento, uma vez que a geração atual não se impressiona com discursos verbais. Os próprios participantes da comunidade devem participar deste processo. Esse é o papel de uma proclamação pós-individualista (Cf. GRENZ, Stanley. Pós-Modernismo. p. 238ss).

Em segundo lugar, deve-se apresentar o Evangelho numa perspectiva pós-racionalista. Grenz lembra que uma das marcas da modernidade foi a valorização da razão. Mesmo com a crítica pós-moderna do racionalismo, ele advoga que a apresentação do Evangelho neste contexto não deve ser anti-intelectual, mas essa intelectualidade deve estar a serviço do contato com a realidade e conduzir à descoberta da verdade divina. Assim, a verdade não será expressa apenas nas categorias de certeza racional, típicas da modernidade, mas apontará para a realidade fundamental de que Deus está além da racionalidade humana. Neste sentido, o encontro com Deus deve ser proclamado no centro de uma experiência através de Jesus Cristo, numa realidade transformadora. Assim, enfatiza-se o papel da dimensão intelectual na perspectiva da experiência humana (Cf. GRENZ, Stanley. Pós-Modernismo. p. 241ss).

Grenz aponta, em terceiro lugar, para um Evangelho pós-dualista. Para ele, a proclamação cristã deve ultrapassar o dualismo fundamental entre “mente” e “matéria” presente no modernismo, desenvolvendo um holismo bíblico. Ele reconhece que o dualismo moderno exerceu influência sobre o pensamento cristão, mas propõe que se cesse esta influência em favor de um Evangelho que fale ao ser humano de maneira integral, seja no seu aspecto racional-intelectual, emocional-afetivo ou físico-sensual. Esse holismo cristão pós-moderno deve unir todos os contextos da vida humana, inspirado na verdade bíblica e no exemplo de Jesus que ministrou o Evangelho às pessoas como seres integrais (Cf. GRENZ, Stanley. Pós-Modernismo. p. 243s).

Por fim, Grenz entende que a proclamação do Evangelho num contexto pós-moderno deve ser expressa também num sentido pós-noeticêntrico, ou seja, deve afirmar que a existência humana é mais do que a mera acumulação de conhecimento. Na modernidade, este foi um dos seus mais importantes conceitos. Entretanto, na atualidade, deve-se afirmar que a proclamação do Evangelho visa a obtenção de sabedoria. Assim, este anúncio se mostra relevante para todas as dimensões da vida, não permitindo que se viva uma vida cristã entre os extremos do ativismo e do quietismo. Por isso, esta característica da proclamação do Evangelho numa perspectiva pós-moderna ajuda o ser humano a bem lidar com a verdadeira função do conhecimento (Cf. GRENZ, Stanley. Pós-Modernismo. p. 244ss).

3.2. Visitação como instrumento de aproximação e solidariedade

Conquanto as propostas de Stanley Grenz apontem um caminho extremamente válido para a comunicação do Evangelho a uma cultura pós-moderna, é preciso salientar que, conforme visto nos capítulos anteriores, o ministério pastoral não se resume apenas à pregação. Neste sentido, a visitação aparece como uma faceta do ministério pastoral que deve ser reformulada e valorizada em virtude das necessidades do mundo atual.

Como já foi mencionado, um dos traços da pós-modernidade é o sentimento de desamparo, que relega as pessoas à solidão e ao individualismo. A visitação, então, aparece como um instrumento adequado para o pastor aproximar-se de suas ovelhas, em seus contextos e necessidades. O pastor como visitador é aquele que vai onde as ovelhas estão. Além disso, na visitação o pastor tem um meio específico para demonstrar um cuidado especial a cada membro do rebanho individualmente.

Por meio da visitação, o pastor entra em contato com as necessidades e dores de seu rebanho, ultrapassando as barreiras do individualismo e dissipando o sentimento de desamparo. Em meio às inevitáveis experiências de dor e aflição, a pior coisa que as ovelhas podem sentir é a da indiferença, como afirma Jürgen Moltmann:

O mal e o sofrimento não são maus, mas a indiferença. Insensíveis esquecemo-nos dos acontecimentos desagradáveis. Não notamos que os jovens desempregados se multiplicam. Não percebemos que, sem esperança, entregam-se às drogas e se viciam. Acostumamo-nos a vê-los roubando para comprar “a matéria-prima” de seus falsos sonhos. Não mais nos alarmamos quando, à luz do dia, vemos assaltos ou atropelamentos. Ninguém se espanta. E assim o mal se expande como um tumor no corpo doente. Amplia-se o círculo diabólico da pobreza, do desemprego, da criminalidade e das prisões. Por quê? Porque, simplesmente, não paramos para pensar, e não nos deixamos impressionar. Aceitamos a brutalidade. Não queremos admitir a miséria dos outros. Evitamos, destarte, sofrer com eles. Perdemos a paixão pela vida. (MOLTMANN, Jürgen apud CASTRO, Moisés Coelho. A Experiência da Dor no Ministério Pastoral)

Assim, o cuidado pastoral deve manifestar-se em virtude das aflições do rebanho, conforma afirma Moisés Coelho Castro, o pastor deve colocar-se “ao lado das pessoas a fim de orientá-las e ajudá-las na busca da superação, da resistência e da perseverança” (CASTRO, Moisés Coelho. A Experiência da Dor no Ministério Pastoral). A visitação, portanto, é importante ferramenta do ministério pastoral no cuidado com os que sofrem.

Além disso, a visitação é também essencial no exercício do discipulado. Seja de maneira individual ou num pequeno grupo, o pastor que visita o seu rebanho tem a oportunidade de mais abertamente lhes ensinar a doutrina de Cristo e motivá-los a uma vida de adoração, oração e serviço. Neste ministério, o pastor pode potencializar a força de sua mensagem e vencer algumas barreiras que a pós-modernidade tem erigido diante das Igrejas e do Ministério Pastoral. Peter White descreve a ação pastoral de Richard Baxter que discipulava 15 a 16 famílias por semana (Cf. WHITE, Peter. O Pastor Mestre. p. 155).

3.3. Aconselhamento como forma de orientação e aprendizado contínuo

Além da pregação orientada para as necessidades de um mundo relativista e da visitação como instrumento de aproximação das pessoas, o aconselhamento aparece aqui como uma importante ferramenta para a orientação do povo e para a solidificação do ensino pastoral. Neste ponto, pode-se dizer que aplica-se também aquilo que Stanley Grenz defendeu quanto à adaptação da pregação do Evangelho para uma cultura pós-moderna.

Paul Hoff demonstra que o aconselhamento é uma parte importante do ministério pastoral, através da qual proporcionam-se muitas oportunidades de levar almas angustiadas aos pés de Cristo (Cf. HOFF, Paul. O Pastor como Conselheiro. p. 11-13). Em tempos de pós-modernidade, onde o sentimento de ansiedade assola as pessoas de uma forma cada dia mais abrangente, o aconselhamento se constitui numa atividade relevante, através da qual o pastor pode acompanhar suas ovelhas em seu crescimento e aprendizado.

Hoff apresenta, ainda, dois métodos principais de aconselhamento que podem ser utilizados pelo pastor: a técnica diretiva e a não-diretiva. Na técnica diretiva o membro da Igreja apresenta o seu problema e o pastor lhe informa a solução, semelhante a uma consulta médica. Já na técnica não-diretiva, o assistido é a figura central, falando livremente de seus sentimentos, o pastor escuta, reflete e tenta ajudá-lo a compreender a si mesmo e a causa do problema, motivando-o a tomar sua própria decisão. Hoff entende que, num contexto como o do mundo atual, a técnica não-diretiva é mais apropriada e apresenta maiores possibilidades de ajudar o aconselhando em suas aflições (Cf. HOFF, Paul. O Pastor como Conselheiro. p. 13-15).

Neste mesmo sentido, Peter White lembra uma particularidade nem sempre valorizada no aconselhamento: o ouvir. Ele lembra que cada pessoa é singular e o pastor deve estar atento ao que elas sentem e querem expressar, pois o aconselhamento pastoral não deve ocorrer somente em ambientes especiais, mas mesmo em conversas comuns, que devem sempre facilitar a compreensão da própria pessoa para responder às situações concretas de sua vida (Cf. WHITE, Peter. O Pastor Mestre. p. 130s).

Para tanto, ele propõe um modo eficaz de ouvir, em três atitudes básicas: em primeiro lugar, o pastor deve ser genuíno, combinando palavras e sentimentos, na busca da autenticidade; em segundo lugar, ele deve demonstrar entusiasmo, sentimento que deve incluir dois fatores: gostar das pessoas como são e não se tornar possessivo; e em terceiro lugar, a empatia, que é a habilidade de entender e determinar o estado emocional da pessoa. A partir destas três atitudes básicas, será desenvolvido um modo eficaz de ouvir, baseado em: assumir um profundo interesse pela pessoa e sua situação, ter prazer nas pessoas e admirá-las e sentir suas preocupações (Cf. WHITE, Peter. O Pastor Mestre. p. 135ss).

4. Conclusão

Apontou-se, aqui, para um ministério pastoral que leva em consideração os desafios da pós-modernidade, apresentando-lhes respostas em três frentes, seguindo o modelo de ministério pastoral em Calvino: a evangelização para vencer o relativismo, a visitação para ultrapassar o individualismo, e o aconselhamento para superar a falta de sentido e direção.

Deve ser destacado, entretanto, que existem outras ferramentas válidade para o exercício do ministério pastoral em sua excelência. Não é pretensão deste trabalho esgotar as alternativas e caminhos para tal. Todavia, esta tripla forma, em sua simplicidade, abrange um espectro amplo de desafios que o mundo pós-moderno impõe e faz isso em perfeita consonância com os pressupostos da perspectiva bíblica e reformada do ministério pastoral.

Ademais, percebe-se muitas igrejas e pastores tem sido levado a reboque dos tempos atuais, fazendo com que seus rebanhos sofram com as conseqüências de uma religiosidade sem raízes e sem rumo. A Igreja deve perceber esta realidade urgentemente e enfrentar os desafios com a sólida base de um ministério pastoral bem preparado e contextualizado.

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