Movimento Negro nas igrejas evangélicas

Autor: Hernani Francisco da Silva

Foi a partir do centenário da abolição da escravatura que o movimento negro no Brasil, depois da repressão, começou a sair dos muros das universidades e dos congressos e seminários e mostrar a sua cara negra. A Igreja Católica lançava a campanha da fraternidade: “Ouvi o clamor deste Povo”, com a temática Negra; neste período também o movimento negro começou a buscar a unidade para uma grande marcha,as Igrejas protestantes tradicionais abriram seus templos para a questão negra, a Igreja Metodista cria o Ministério de Combate ao Racismo, é criado a CENACORA – Comissão Nacional de Combate ao Racismo, ligada ao CONIC ( Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil), nas Igrejas que não pertencem ao CONIC como as Igrejas Batistas(Tradicionais e Independentes ), os Metodistas Weslyana e Livre, surgem grupos e organizações especifica na questão negra. Até nas Pentecostais surgem um significante mover do espírito como Missões Quilombo, COMOVI, e outros grupos, diferente das igrejas históricas onde a preocupação da questão negra partiu de lideranças ( Bispos, Pastores,Padres, Reitores, Professores, etc..) nas Igrejas pentecostais esse despertamento vem do Povo: Surgem grupos no Rio de Janeiro( Assembléia de Deus) em São Paulo(O Brasil Para Cristo, Assembléia de Deus, Quadrangular) no Sul, no Nordeste, aqui a li vai surgindo novos grupos, um movimento de baixo para cima. O surgimento desses grupos e organizações no seguimento evangélico já nos faz pensar em um Movimento Negro Evangélico se consolidando no Brasil.

O Negro Evangélico
Diferentemente do catolicismo o negro evangélico é realmente fechado para qualquer aproximação com a religião dos seus antepassados, o negro evangélico não aceita qualquer ligação com os cultos afro-brasileiros, por achar que essas crenças são coisas do demônio. Mas para compreendermos melhor esse comportamento do negro evangélico devemos fazer algumas considerações históricas do protestantismo brasileiro, analisando esse protestantismo por algumas classificações, mesmo porque seriamos muito simplista se não consideramos as grandes diferenças que existe dentro desse protestantismo. achamos melhor classifica-lo de protestantismo histórico, pentecostal e neopentecostal:

O Negro no Protestantismo Histórico
O Protestantismo Histórico é composto pelas primeiras Igrejas ( denominações ) que chegaram no Brasil através dos missionários estrangeiros: Congregacionais, Batistas, Presbiterianos, Metodistas, Luteranas, Anglicanas. Essas Igrejas chegaram no Brasil no período da escravidão e tiveram entre seus lideres: defensores da escravidão, omissos, e abolicionistas.
Os defensores da escravidão – na sua maioria eram os missionários que vieram do sul dos Estados Unidos, ainda com ressentimentos da derrota da guerra da Secessão contra o Norte dos Estados Unidos pela libertação dos escravos, esses missionários sulistas tinham a escravidão como instituída por Deus, baseado em fatos teológicos que o povo negro eram da descendência de Cam filho de Noé, amaldiçoado para ser escravos dos escravos:
Os Omissos – Esta era a posição da grande maioria dos históricos a respeito da escravidão negra, também defendia a sua posição teologicamente, afirmando que a Igreja não devia interferir no Estado, na política. Que o seu compromisso era com o “espiritual”, a Igreja devia estar sujeita a toda autoridade constituída, baseado na carta de Paulo aos Romanos capitulo 13.
Os Abolicionistas – Estes tiveram presentes em quase todas as denominações históricas, eram em sua maioria missionários do norte dos Estados Unidos, europeus, e alguns convertidos brasileiros. E eram em numero muito pequeno.um dos exemplos mas notável foi o Pastor abolicionista presbiteriano Eduardo Carlos Pereira que publicou em 1886 um folheto criticando duramente os defensores da escravidão nas Igrejas e no final da sua publicação ele pede aos crentes para libertarem os seus escravos: “Confesso que grande é a minha vergonha e grande a confusão da Igreja de Cristo no Brasil, ao ver incrédulos, pelos simples amor á humanidade, abrirem mão de seus escravos; entretanto os que professam fé no redentor dos cativos não rompem as ligaduras da impiedade, nem deixam ir livres os oprimidos! Leitor, se acaso vires alguém incrédulo ler este artigo, eu te peço para honra da Igreja de nosso Senhor no Brasil, que não deixe seus olhos percorrer este parágrafo”.
Além de Pereira, teve também o Metodista Daniel P. Kidder, o Presbiteriano James C. Fletcher.

O Negro nas Igrejas Pentecostais:
As Igrejas Pentecostais são as denominações que chegaram no Brasil com o movimento missionário Norte Americano da rua azusa, após as Igrejas históricas, também trazidas por missionários estrangeiros. Tem como característica o batismo com o Espírito Santo, a cura de enfermidades no nome de Jesus, expulsão de demônios,e os milagres. Os cultos são animados com muitos cânticos e são festivos. As principais Igrejas Pentecostais são: Assembléia de Deus, o Brasil Para Cristo, Congregação Cristã do Brasil, evangelho Quadrangular, Igreja Unida. É nas Igrejas Pentecostais onde estão a maioria dos negros evangélicos. Os negros Pentecostais encontraram nestas Igrejas tudo aquilo que eles precisavam para vencer do preconceito ao auto-estima: “agora sou um crente, não pratico a macumbaria e sou aceito pelos brancos meus irmãos que me diz que sou um negro diferente dos outros, um negro de alma branca”.
Quando o movimento Pentecostal chegou no Brasil ( assim como os evangélicos Históricos) juntamente com o Evangelho eles trouxeram a cultura ocidental com seus valores e costumes, até pouco tempo ele era totalmente alheio a qualquer assunto que não fosse das “coisas lá de cima”, “os valores e a cultura ocidental são divinos modelos para todos os povos e as outras culturas não são de Deus, são do diabo como a cultura Afro.” Toda essa didática da Igreja juntamente com a ideologia do branqueamento na sociedade o negro Pentecostal tende a cada dia se afastar de qualquer coisa que lembre seu povo, sua cultura se distanciando cada vez mais da sua identidade”.
O Negro nas Igrejas Neopentecostais
As Igrejas Neopentecostais sugiram a partir dos anos setenta suas principais denominações São: Igreja Universal do Reino de Deus, Renascer em Cristo, Comunidades da Graça, existe uma grande quantidade de outras pequenas comunidades. O que diferenciam os Neopentecostais dos Pentecostais e Históricos além da data do seu surgimento é alguns aspecto teológicos e doutrinários, que essas Igrejas trouxeram para o cenário evangélico brasileiro, como: tolerância na maneira de se vestir, no cabelo, nos esportes, introdução da dança nos cultos, diversidade de ritmos nas musicas. Uma das características mais marcante nessas Igrejas são algumas doutrinas trazidas por elas do ocidente como: A Batalha Espiritual, A Doutrina da Prosperidade, a Doutrina das Maldições Hereditárias, e outras doutrinas como o Dente de Ouro, e Cair Pelo Poder do Espírito. Como existe uma forte ligação dos Neopentecostais com os Pentecostais essas doutrinas já são comuns em muitas Igrejas Pentecostais.
As igrejas Neopentecostais alem de reforçar o que os Históricos e os Pentecostais já tinham feito na demonização da cultura do negro, eles trouxeram novos pontos teológicos preocupantes que revelam fortes indícios de racismo. Sem perceber os neopentecostais estão trazendo velhos conceitos racistas grandemente enraizados na cultura do sul dos Estados Unidos que no passado usavam a Bíblia para justificar a escravidão e a inferioridade do povo negro. Hoje sutilmente através da doutrina das maldições hereditárias e da batalha espiritual essa velha tendência chega em nossas Igrejas. Na doutrina das maldições hereditárias o povo negro é considerado uma raça maldita, para que o negro se livre desta maldição( aceitar Jesus não é suficiente) é necessário que ele faça uma espécie de cura interior se desvinculando de todo os seus antepassados ou seja não sendo mais negro. Qualquer relação que ele venha ter com a sua cultura poderá trazer de volta as maldições. Na Batalha Espiritual o caso parece ser mais serio para o negro, se olharmos cuidadosamente nos livros que tratam do assunto (principalmente dos E.U.A traduzido para o português. Ver o Livro: Este Mundo Tenebroso, de Frank E. Peretti – Editora Vida) veremos que o exercito de Deus são todos brancos e louros e o exercito do diabo são todos pretos e negros. Conteúdos muito sérios que vão penetrar no inconsciente das pessoas influenciando nos seus comportamentos, trazendo conseqüências serias para a saúde da Igreja Evangélica Brasileira.

Grupos e Organizações nas Igrejas Evangélicas:
Históricas, Pentecostais e Neopentecostais:
Cenacora (Comissão Ecumênica Nacional de Combate ao Racismo), Grupo de Reflexão Teológica, Teólogos Negros, AGAR (Sociedade Teológica de Mulheres Negras), Coral de Resistência de Negros Evangélicos, Ministério de Combate ao Racismo da Igreja Metodista, o Grupo de Combate ao Racismo da Igreja Batista (Centenário, Duque de Caxias, Rio de Janeiro). Fórum de Mulheres Cristãs Negras de São Paulo, Projeto Palmares da Igreja Batista – SP.
Entre os Pentecostais e neopentecostais temos a Sociedade Cultural Missões Quilombo, Negros Evangélicos do Rio de Janeiro, Ministério Azusa, Gevanab – Grupo Evangélico Afro-Brasileiro, Negros Evangélicos de Londrina.

Atitudes racistas nas Igrejas:
Um pastor negro, membro de uma respeitada denominação no País, guarda alguns atenciosos bilhetes anônimos que andou recebendo com as cordiais palavras: “Lugar de macaco não é no púlpito ; é na bananeira!”.
Num seminário para casais o palestrante ariano soltou categoricamente: “jamais permitirei que minha filha se case com um negro”. Para o desespero dos participantes, havia um casal inter- racial presente.
Um certo pastor consentiu o casamento de sua filha com um negro nas seguintes condições: que se tivesse um filho. Se passasse disso, poderia ver problemas “raciais”entre as crianças.
Um Pastor negro Pentecostal, ouviu a seguinte afirmação de um pastor branco: “O negro não pode pregar porque tem o nariz chato conforme ensinamentos bíblicos”.

Pentecostalismo e a Identidade Negra: Uma Mistura Impossível?
Faça uma experiência: diga a palavra “crente” ou “pentecostal” para um brasileiro preocupado coma consciência negra, tipo militante do movimento negro. Ele é bem capaz de fazer careta. Depois é provável que ele vai falar para você que este movimento religioso que se chama “pentecostalismo” – ainda um dos movimentos sociais maiores do País, senão do continente – é um grande obstáculo ao processo de conscientização e assunção da negritude no Brasil. “Infelizmente,” falou recentemente para mim um desses preocupados, “quando o negro se torna crente, e ainda pior quando se torna crente pentecostal, ele abandona sua identidade como negro.” Uma outra militante nos movimentos negros foi além. “É impossível trabalhar com o crente. Eles estão bem fechados para questão racial. Nem querem saber.” E num depoimento até mais radical ainda: “Olha só: eu chamo os pentecostais de nazi-pentecostais. Porque eles querem praticar o genocídio no povo negro, eliminando a fonte da identidade do negro, a religião dele, as religiões africanas. Eu te digo: eles querem acabar com o negro no Brasil.”

Não é para surpreender, dados pareceres como estes, que a Benedita ( Benedita da Silva, negra, Vice Governadora do Estado do Rio de Janeiro, e Evangélica Pentecostal ) tenha encontrado no movimento negro uma certa, digamos, ambivalência a respeito da sua identidade duradouramente evangélica. Não deixa de ser significativo, no meu ver, por exemplo, que normalmente quando a Benedita é entrevistada pela imprensa do movimento, a sua vida espiritual – de maneira distinta de uma figura como, por exemplo a Mãe Stella – fica quase estudiosamente evitada.

O movimento negro tem, obviamente, uma longa historia de constrangimento com o Cristianismo como um todo. A identificação das religiões de origem africana como fonte de identidade e orgulho negro, e do cristianismo como a religião comprometida com a escravidão, a Europa e o branqueamento, tem gerado uma certa cautela na parte dos ativistas negros em relação tanto ao protestantismo quanto ao catolicismo. As tentativas na última década de uns segmentos da Igreja Católica e da Igreja Metodista de lidar abertamente com as questões de racismo e da identidade negra têm, é claro, amenizado um pouco a opinião do movimento negro. Mas os ataques vociferantes dos pentecostais – seja os mais tradicionais como Assembléia de Deus, Congregação Cristã, Casa da Benção, e Deus é Amor, seja os que se chamam de “neopentecostais”, como a Igreja Universal do Reino de Deus ou Renascer em Cristo – contra a religião afro continuam a garantir a animosidade do movimento contra eles.

Este antagonismo mutuo é, no mínimo, infeliz, não só porque o pentecostalismo é tão importante demograficamente ( estimativas conservadoras da população pentecostal são da ordem de vinte milhões de fieis ), mas também porque tantos pentecostais são, de fato, negros, A evidência estatística disponível sugere que os negros estão se convertendo ás Igrejas Pentecostais entre duas e três vezes mais freqüentemente que eles estão se integrando nas Igrejas Protestantes históricas. Talvez não seja, então uma tarefa inteiramente acadêmica indagar até que ponto o retrato do pentecostalismo como irremediavelmente corrosivo da identidade negra seja uma imagem bem satisfatória ou completa da religião. Começarmos por algumas anomalias que chamam atenção. Seria possível, só para começar, entender a identidade pentecostal da Benedita como algo fora de uma pura aberração? Como interpretar a sua própria insistência, feita numa entrevista publicada o ano passado, de que “não é porque eu sou pentecostal que sou menos consciente de ser negra; de fato, sendo pentecostal faz com que eu sou mais consciente ainda de ser negra”? Como começar a entender que não uma, mas duas vezes ainda em 1996 a Folha Universal tem publicado reportagem na primeira página sobre o racismo no Brasil? Como pensar a respeito as várias tentativas na área pentecostal, como a de Missões Quilombo, da Igreja o Brasil Para Cristo em São Paulo, de articular a questão racial?
Como, por exemplo, lidar com a colocação de um certo Pastor Paulo, da Igreja Wesleyana Metodista em Londrina, Paraná, de que “tem um numero grande de novos convertidos que tem a certeza que precisa criar uma igreja negra, pentecostal e afro-brasileira”? Como , enfim, compreender mais do que superficialmente a atração patente dos negros pelo pentecostalismo?

Agora, o meu objetivo não é deixar perguntas como estas nos levarem a conclusão rápidas, muito menos chegar á conclusão ingênua e incorreta que o pentecostalismo deve ser vista como reduto de consciência étnica ou racial. De jeito nenhum. A minha idéia é de deixar tais exemplos servirem como estimulo a uma indagação mais profunda na relação complexa e contraditória entre, de um lado, a identidade e o pensamento pentecostais, e, do outro, a identidade e pensamento étnico-racial-negros.
Quando fizemos isto, quero sugerir, o quadro que encontramos é longe de ser simples. A placa na porta do pentecostalismo não tem como legenda nem “etnicidade proibida aqui”, nem “os negros, unidos, jamais serão vencidos”. Aplaca, acredito, não tem legenda, inquisição mais profunda que estou sugerindo significaria que pessoas preocupadas com a consciência racial e o racismo no Brasil fariam bem de bater naquela porta e passar por ela – e começar um dialogo maior com o que é, afinal, uma das forças sociais mais importantes do Brasil atual. As evidencias preliminares que tenho sugerem, pelo menos para mim, que de fato existe mais espaço potencial para um tal dialogo do que geralmente tem sido concebido desejável ou possível.

Fonte: http://www.mquilombo.hpg.ig.com.br/sociedade/28/index_int_5.html

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será divulgado.


*