Liderança cristã: paradigmas para uma liderança saudável e eficaz

Autor: Jonathan Menezes
INTRODUÇÃO

Tencionamos, com o presente estudo, trabalhar não somente o conceito, mas também a praticidade da liderança cristã, buscando ressaltar “novas” perspectivas sobre liderança, tendo em mente os seguintes problemas:
• Os conflitos existenciais, vocacionais e ministeriais presentes na vida e no desenvolvimento do líder cristão;
• Os desafios do tempo atual (“pós-modernidade”) e a necessidade de uma postura mais contextual da liderança cristã.
Em suma, por liderança entendemos a qualidade ou habilidade, natural ou adquirida, por consenso divino, de uma pessoa em exercer influência sobre outras, de conduzir e gerenciar grupos, associações ou comunidades, sempre visando alvos e fins comuns.

1) LIDERANÇA E VOCAÇÃO

Uma questão que, não raras vezes, passa batida, em se tratando de liderança cristã, é a questão dos dons e habilidades especiais e essenciais para o exercício da mesma. Todos possuímos, de nascimento, qualidades específicas que nos habilitam ou desabilitam para certas tarefas. Tais qualidades são geralmente definidas como “dons naturais”, isto é, que já nascem com cada individuo, que podem e devem ser desenvolvidos para um fim proveitoso.
Com a liderança não é diferente. Existe a “liderança natural”, ou seja, uma habilidade nata para a liderança, e a “liderança espiritual”, que é a “capacitação especial” que Deus concede a algumas pessoas do corpo de cristo, com intuitos de alcançar alvos para a glória do reino. Este dom é também chamado de “governo” ou “presidir”. Neste sentido, nem todos são chamados ou vocacionados para exercer liderança, pelo menos da maneira ortodoxa de se conceber um líder, pois a especificidade do chamado ou da vocação para o serviço cristão, de forma geral, está intrinsecamente ligada a questão dos “dons espirituais”, conforme ensina Calvino :
O Senhor ordena a cada um de nós, em todos os afazeres da vida, que zele pelo seu chamado… Portanto, para que a nossa estupidez e precipitação não acabe virando tudo de cabeça para baixo, Ele designa deveres para todo homem, cada um em sua maneira particular de viver… Ele deu a esses vários tipos de vida o nome de “chamados”… e vem daí também uma singular consolação: desde que, em nosso trabalho, estejamos obedecendo ao nosso chamado, nenhuma tarefa é vil ou desprezível, e não há trabalho que não vá brilhar e ser considerado deveras precioso aos olhos de Deus.
Portanto, é necessário ressaltar que liderança, antes mesmo de ser uma dotação burocrática de posições e de poder, é algo primariamente concedido pelo Espírito Santo a “líderes espirituais”, isto é, a pessoas que têm um coração reto e humilde e uma sincera disposição em servir e amar a Deus e ao próximo, e que, na maioria das vezes, não tencionam ser líderes, mas são escolhidos por Deus a atender às de uma conjuntura ou circunstância específica e emergencial, como foi o caso de Moisés, Davi, Elias, dos líderes formados com o surgimento da igreja, conforme relatado em Atos, e por aí vai.
J. Oswald Sanders, fala sobre um manuscrito presente na biografia de Willian E. Sangsterl (antigo líder metodista), encontrado após sua morte, que ilustra bem esta questão. Eis algumas passagens:

Esta é a vontade de Deus pra mim. Eu não a escolhi. Procurei fugir dela. Mas ela chegou. Algo mais também chegou. A certeza de que Deus não deseja que eu seja apenas um pregador. Ele quer que eu seja um líder, também, um líder no metodismo… Confuso e sem fé, ouço a voz de Deus dizendo-me: “quero fazer a obra através de você”. Ó Deus, será que um apóstolo fugiu de seu dever? Não me atrevo a dizer “não” mas, como Jonas, preferiria fugir de vez ( SANDERS, p. 23, 24).

2) LIDERANÇA E IDENTIFICAÇÃO CULTURAL

Um dos desafios mais prementes àqueles que assumem o posto de liderança em algum ministério específico, é estar conectado a cultura local, conhecendo a sua história e as transformações pelos quais ela é submetida ao longo do tempo, como afirma Humberto M. Aragão : “não podemos, como líderes, estar desconectados da história de nosso povo, o qual dirigiremos pelo caminho que o ajude a amar Deus e sua própria terra e cultura” ( Aragão, p. 8).
De forma geral, a tendência da liderança evangélica no Brasil tem sido a de aversão a nossa cultura, preferindo manter distância em relação às coisas “mundanas”, demonizando-as, e adotando uma postura e mentalidade de gueto, o que denuncia todo o seu sectarismo religioso. A cultura evangélica tem sido uma cultura “alienígena”, isto é, uma cultura de estranhos dentro da cultura brasileira, com produtos e mercados consumidor próprios e restritos, criando uma lógica exclusivista, salvas raríssimas exceções.
Precisamos, como líderes, adotar uma nova postura, mentalidade e visão no que concerne a sociedade e a cultura em que vivemos, em relação ao povo a quem queremos servir, uma postura que reflita o nosso amor e não nossa arrogância e intolerância religiosa. A postura “radical”, advogada por tantos evangélicos, nada atrai senão mais barreiras para a aceitação do evangelho o qual pregamos. Por outro lado, a verdadeira postura radical ou “revolucionária”, de acordo com John Stott, é uma postura de humildade e amor, pois estes são valores contraditórios a lógica relacional do ser humano caído ( ver Cl. 3:17, 23).

Gostaria de colocar dois ministérios do líder cristão em relação a sua cultura: “Prevenção e Reparação”.
1) Ministério de prevenção: denuncia dos pecados da sociedade.
1.1- Exibe integridade (estilo de vida íntegro e simples)
1.2- Tem voz na sociedade (profetismo)
1.3- Aponta para uma visão: o reino de Deus

2) Ministério de Reparação: O “coração criativo” da missão.
2.1- Mudança de consciência ou mentalidade ( Romanos 12:2)
2.2- Mudança de objetivos.
2.3- Mudança de posicionamento frente a cultura local.
Veja o resumo:
Líder cristão  exerce influência sobre as pessoas  necessita de conhecimento:
1)Da palavra de Deus (conteúdo da missão)
2)Do contexto específico (cultura)
3)Da tarefa e alvos a ser alcançados
Como líderes, devemos usar nossa capacidade e criatividade para dar relevância a mensagem do evangelho, mas para isso precisamos sair de nossas “tocas de coelho”, deixar de lado nossos preconceitos e repulsa total as “coisas do mundo”, com compromisso e envolvimento, sem ter que abandonar nossos princípios, assim como fez Jesus.

3) POTENCIALIZANDO NOSSA LIDERANÇA

De acordo com J. O. Sanders, todos nós temos o dever de fazer o melhor que pudermos para Deus. Como vimos, nem todos somos chamados para ocuparmos posições proeminentes de liderança. Não obstante, todos somos líderes na medida em que exercemos alguma influência sobre as pessoas. Portanto, todos podemos, se quisermos, aumentar nosso potencial de liderança. Contudo, é preciso que nos esforcemos para descobrir e corrigir algumas fraquezas relativas a nossa liderança, e que cultivemos nossos pontos fortes.
Como melhorar a liderança?
3.1 – Cuidando dos relacionamentos pessoais
“Porque nenhum de nós vive para si mesmo” (Romanos 14:7).
 Hoje em dia, costuma-se medir as pessoas por aquilo que elas têm, isto é, o ter precede o ser. Ao passo que nós, líderes, precisamos respeitar as pessoas por aquilo que elas são, independente de cor, sexo, idade, condição social, ou seja, respeitá-las como seres humanos criados à imagem e semelhança de Deus, e como remidos e lavados pelo sangue de Jesus.
 Precisamos aprender a escutar mais as pessoas, antes de tomarmos qualquer decisão. Escutar é, antes mesmo de falar, uma atitude de respeito, é terapêutico, e é produtivo. Como se diz: “Deus nos deu dois ouvidos, e apenas uma boca. Portanto é obvio que Ele esperava que ouvíssemos muito mais do que falamos”.
 Precisamos tratar o nosso próximo como representantes de Cristo, tentando agir como Ele agiria; e trata-lo, também, como se este fosse próprio Jesus Cristo (Mt. 25:48).
3.2 – Aproveitando Melhor o nosso tempo
“Aproveitem bem o tempo porque os dias são maus” (Ef. 5:16).
 Parábola das minas (Lc.19:12-27) – não possuímos as mesmas habilidades, e isso o texto deixa claro, mas todos podemos organizar melhor o nosso tempo. O tempo é irrecuperável, portanto deve ser aproveitado da melhor maneira possível.
 O filósofo William James, afirmou que “a maior utilidade da vida de alguém é ser gasta em algo que sobreviverá a ela, porque o valor de uma vida não é calculado pela sua duração, mas por sua doação; não importa quanto vivemos, mas, sim, a integralidade e a qualidade de nossa vida”.
 Todos possuímos tempo suficiente para desempenhar integralmente a vontade de Deus. Jesus teve exatamente três anos para realizar seu ministério neste mundo, e realizou-no destramente. J.H. Jowett disse:
Penso que uma das frases hipócritas de nossos dias é aquela pela qual exprimimos nossa permanente falta de tempo. Repetimo-la tão freqüentemente que, apenas pela repetição, nós nos enganamos a nós mesmos, e acabamos acreditando que não temos tempo. Jamais os homens supremamente ocupados são os que não têm tempo (SANDERS, p.83).
3.3 – Mantendo o vigor Espiritual
“Perto está o senhor de todos os que o invocam, de todos os que o invocam de verdade” (Sl.145:18).
Como manter o vigor de nossa prática devocional diária, sem deixar que ela se torne rotineira e apenas religiosa?
3.3.1 – Necessitamos de nos achegar a Deus com vivas expectativas de ouvi-lo em oração e através da leitura da bíblia.
3.3.2 – Precisamos ter a convicção de que, utilizando a famosa expressão de Hudson Taylor, “é possível mover os homens, através de Deus, apenas pela oração”.
3.3.3 – Saber que nossa motivação maior, com o estudo das escrituras e com a vida de oração, é a glória de Deus.

4) CONCLUSÃO: RECRUTANDO LÍDERES PARA UMA VISÃO

Acredito que nosso papel enquanto líderes é principalmente o de recrutarmos outros líderes para uma visão (A Missão Integral da Igreja), e muito menos para assumirem cargos ou posições, mesmo considerando que as funções burocráticas sempre corroboram para todo o processo. A preparação contínua e eficaz destes líderes é um princípio para a garantia de que o trabalho sobreviverá ao choque da mudança de liderança, que volta e meia ocorre, e de que continuará produzindo mais e mais frutos. Esta mudança de liderança, também prevê a oportunidade de se observar a versatilidade e fidelidade de Deus na continuidade de sua obra.

Quando Deus deseja treinar um homem,
Eletrizar um homem, capacitar um homem;
Quando Deus deseja amoldar um homem,
Desabrochar sua parte mais nobre;
Quando ele anseia com todo o coração
Criar um homem tão grande, tão audaz,
Que o mundo ficará estupefato,
Observai seus métodos, vede seus caminhos!
Ele impiedosamente aperfeiçoa
Aquele a quem soberanamente elege!
Vede como Ele o martela, como o fere,
E com golpes poderosos o converte
Em pedaços tentativos de barro que só Deus compreende;
O coração torturado do homem chora,
Enquanto ergue mãos suplicantes!
O Senhor verga, mas jamais quebra,
Na busca do bem de seu filho;
Vede como Ele usa a quem escolheu,
E com propósito o funde;
Cada ato induz aquele homem
A descobrir o esplendor de Deus – Pois Deus sabe o que faz!

BIBLIOGRAFIA

ARAGÃO, Humberto M. O líder cristão e sua identidade cultural. Londrina –Curitiba: Descoberta, 1999.
SANDERS, J. Oswald. Liderança Espiritual. SP: Mundo Cristão, 1985.
STOTT, John. Os desafios da liderança cristã. SP: ABU, 1999.

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