Denominacionalismo

Autor: Anamim Lopes Silva
O que define em essência uma igreja? Não é um grupo de pessoas salvas, em comunhão, que interagem para prestar culto e serviço a Deus? É, “bão”, “mas”, “bem”… “tá, concordo”. Mas, em “essência”, a Igreja é, por definição, “a invisível”. Dela, portanto, fazem parte somente os salvos, eleitos. Estes, e somente estes, comungam invisivelmente mediante o mesmo Espírito que em todos o salvos habita. Agora, quando “interagem para prestar culto e serviço a Deus”, a coisa “cumprica”. Podemos cercear a presença de Judas, Alexandre, o latoeiro (por chamado Xandão Ferro Velho), Demas e outros? Exatamente, neste “culto e serviço a Deus” que, muitas vezes, como dizem os católicos de minha terra (o Mato Grosso) “o diabo entra na casa do terço”.

Administrar, na realidade de “Deus que está no seu santo templo!” como o “diabo que está na casa do terço!”, é papel do homem que se diz cristão, comprometido em primeiro lugar com o Reino de Deus, mas cônscio de que vai governar a Igreja Visível, acidental, incidental e, parodiando, por “exibimento”, (por que assim é a Igreja dos Homens, “exibida”) e conforme Nietzche, “humana, demasiadamente humana”.

Até onde eu sei, o ensino bíblico desconhece a igreja denominacional. Acho que esse negócio de “denominação” é o maior contrasenso. Em via de regra, os nomes das denominações – a redundância é obrigatória – refletem muitas coisas. Vou listar algumas, e você pode complementar depois com outras:

Começando pelas negativas, pecaminosas até: 1) sectarismo; 2) exclusivismo; 3) bairrismo; 4) pretensão; 5) vaidade – o velho “exibimento”; 6) orgulho; 7) ódio teológico; 8) preconceito religioso; de raça; de classe; de região etc.; 9) discriminação; 10) misticismo.

Refletem coisas indiferentes: 1) jogada de marketing; 2) política de marketing; 3) estratégia de marketing; 4) marketing de marketing.

Incidentalmente, pode refletir algozinho positivo: o distintivo adotado por uma Igreja Local, Regional, Nacional ou até Mundial (“Universal” não, por favor; estou falando de “igreja visível”).

O contrasenso nos nomes das pessoas jurídicas (censores: eu disse pessoas jurídicas e não pessoas físicas, eu não quero agredir ninguém) dessas denominações são gritantes. A começar pela inventora do costume de denominar, alcunhar, apelidar o grupo dos crentes com outra alcunha que não o de “cristãos”, a veneranda Igreja Católica Apostólica Romana, a qual 1) auto-denominou-se católica para diferenciar-se das seitas heréticas pululantes naquel’outros tempos e lugares; 2) chamou-se apostólica por que presumiu-se a “sucessão” apóstolica dos bispos aderentes ao de Roma e 3) Romana por que era a religião obrigatória do Império Romano e tinha a sua sede na Cidade das Setes Colinas a “Eterna” Roma dos Césares.

São inescapáveis às observações argutas, as eivas de pretensão, de contenda, de preconceito com inúmeros outros cristãos não aderentes ao Papa. Porventura deixaram de ser Católicos os irmãos sírios, coptas e egipcios? São menos apostólicos os irmãos jerusalemitanos, antioquianos, bereanos, tessalonisences, gregos … Bem, não eram romanos. E que importância tinha isso para a economia da salvação… Mancada que deu azo a outras e outras…

As outras igrejas ditas “Ortodoxas”, por que se alcunharam assim? Resposta, desconcertante, sem embargo, por que só elas eram as tais, as ortodoxas, as outras, inclusive, a intocável ICAR (Igreja Católica Romana) eram heréticas. Percebeu que tem “treta” nisso?

Passados muitos bois e muitas boiadas, uma dita e cuja comunidade resolveu se chamar “batista”. Sim, Igreja Batista. Uai, para quê? Para congregar os “batistas”, uai. Mas, toda a cristandade já não era batista? E até todos os cristãos não são batistas? Ou seja, não adotam o Batismo Cristão como ordenança de Cristo? Sim, mas ESTÃO TODOS ERRADOS, o único grupo que batiza, de verdade, é esse grupo aqui ó, que não aceita batismo infantil. Não, o batismo por imersão não é o grande problema; se fosse só isso os ortodoxos estariam sendo “um dos nossos” pois eles batizam por imersão, mas estes também cometem o sacrilégio do batismo infantil.

Bem, insisto em dizer que sou BATISTA BÍBLICO apesar de não pertencer a Igreja Batista. Daí achar que esse grupo denominacional continua espraiando suas mancadas por aí! Não justifica uma Igreja Batista, ou então tinha que estender “Igreja Batista Imersionista Antipedobatista”.

Alguns irmãos já nos chamaram a atenção para a proliferação desse nomes exdruxúlos “Igreja Subindo com Jesus”, “Igreja Evangélica Pentencostal Jesus Vem Se Não Vigiar Você Fica — sigla: IEPJVSNVV”, que encerram, por vezes motes, lemas, (O Brasil para Cristo, Deus é Amor). Irmão, só marketing, isso é de menos! Grave eu acho foi a brincadeira inventada por ministro presbiteriano no Século XIX que chamou a sua grei de “Discípulos de Cristo”. Barbaridade, tchê! “Discípulos de Cristo”, não somos todos nós? Não, só os asseclas daquele “beleza”!

Hoje temos no Brasil duas denominações, dentre outras, uma se chama “Igreja de Cristo” a outra “Igreja de Deus”. Como se a Igreja do Filho fosse rival da Igreja do Pai. Em Fortaleza o Pastor Carlos Magno saiu da Igreja Universal (a Católica tupiniquim) e fundou a Igreja do Espírito Santo. É mole, ou quer mais!?! E outras, as nossas outras? Bem, de certo, são Igrejas de Baal, de Astarot, de Mamon … É cômico? Seria, se não fosse exatamente a idéia dos seus fundadores. As outras estão todas erradas!

Você sabe a diferença entre a Igreja de Cristo e a de Deus? É que a de Cristo aceita que os fiéis vão à piscina e a de Deus não, isso está inclusive no livrinho de doutrinas deles. Ora, se é assim por que uma não se chama Igreja Piscineriana e ou Igreja Antipiscineriana? O distintivo de ambas não é isso?

Outra, a Assembléia de Deus se chama assim. E, por causa disso, a minha Igreja deixou de ser assembléia. E essa assembléia, a minha, é do capeta? Deus me livre e guarde! Tá doido irmão!

A Igreja que é do Evangelho Quadrangular, foi fundada por Aimée Simple McPherson… sim, e as outras são de Evangelho Triangular? Redondo? Circular? Poligonar? Bem, eu fui batizado lá, saí de lá e vim para a presbiteriana, e meu Evangellho, que, aliás, não é meu é de Cristo, continuou sendo quadrangular, nos termos da Irmã McPherson, ou seja, “Jesus Salva, Jesus Cura, Jesus Batiza com Espírito Santo e Jesus Voltará”, só que não acho tão relevante a figura geométrica … ou tem algo a ver?

Até as organizações interdenominacionais trazem essas eivas de denominaciolismo. Por exemplo, a nossa impagável ADHONEP – Associação de Homens de Negócios do Evangelho Pleno. Eis aí o preconceito, a discriminação, a pretensão. Quer dizer que tem por aí um Evangelho que não é pleno, um Evangelho Parcial? Evoca a problemática quadrangular! É o velho ranço pentecostal … E por falar em pentescostal. Que alcunha boba, eu acho… Quem não é pentecostal? Eu sou, o metodista é, o católico, nós somos, todos os cristãos são, meus irmãos de Deus!!!

Está acabado de crer! Tudo é, no mínimo, MARKETING! Não faz muito sentido.

Agora, seria razoável dar a opção de arrumar as malas para aqueles que possuem irmãos, amigos, parentes e toda uma história de vida dentro de uma igreja só porque discordam de algum ponto, por sinal controvertido?

Ninguém é obrigado, em qualquer Igreja a ser oficial dessa Igreja (pastor, seminarista, presbítero e/ou diácono). Para o assembleiano, por exemplo, é obrigatório o assentimento ao premilenismo anti-tribulacional, ao batismo de adulto exclusivamente por imersão, ao homem tricotômico, ao batismo com Espírito Santo assinalado com a evidência inicial de falar em línguas, ao portar a Harpa Cristã e ao adotar a Edição Revista e Corrigidada SBB ou Editora Vida (preferível com as palavras de Cristo em vermelho) e, agora a Bíblia de Estudo Pentecostal. Bem, esses últimos pontos são negociáveis para os egressos da chamada Igreja Tradicional, mas ser batizado como o Espírito Santo, a la pentescostal é “conditio sine que non” para ser obreiro, diácono, presbítero, pastor auxiliar e, para chegar a pastor presidente então tem de derrubar gente e fazer predições!

Lá o negócio é assim, não tem ponto controverso (é certo o que está no “Cremos”; pag. do Mensageiro da Paz, o resto o que se ensina “por aí” está errado). Aceita, sobe! Não aceita, senta, fica no banco! … se chia vai para o “monte” fazer “reeducação”, “lavagem cerebral”, “consagração” se não se adapta: rua! Nem fora da Igreja está, apostatou-se, caiu da graça, tá no inferno!

Alguns insistem em que tudo seria mais fácil se Deus jogasse do céu, de pára-quedas, um manual de batismo cristão, definindo a quantidade de água, a temperatura, a idade dos batizados, as palavras que deveriam ser proferidas, o tipo de xampu etc).

Acho “tomém”! E não sei por causa de que Nosso Senhor não fez isso. Ficaria bem mais fácil. Não precisava nem um “livro” daquele tamanhão, a Bíblia, “isclusivis” tem dia que dá um preguiça de ler a Bíblia. Olha, tem dia que eu tô tão preguiçoso que mando minha mulher passar o feijão no liquidificador para eu não precisar mastigar. Então, por que o Nosso Senhor não dá para mim tudo mastigatinho? Não sei, de fato não sei… Mas, posso arriscar um “zóio”, um “parpite”.

Quem sabe Deus não o fez por que quis contar com pessoas humanas, de boa-fé, livres, inteligentes e crentes que tivessem a capacidade de discernir “todo o conselho de Deus concernentes às coisas necessárias para a glória dele e para salvação, fé e vida do homem”. Conselho esse que é “ou expressamente declarado na Escritura”, como é caso da ordenança do batismo (Mt. 28:19-20 e Mc. 16:15), do dízimo (Ml. 3:10), dos deveres sociais e espirituais (Hb 12-13. Rm. 12-15, Ef. 4-6 etc) etc; “ou pode ser lógica e claramente deduzido dela” (como é claramente o caso do batimo cristão – infantil ou adulto), a desnecessaridade da imersão como forma de administrá-lo, o domingo como o sábado cristão, a necessidade da educação cristã no lar, na escola e na Igreja (base para a Escola Dominical) o apoio financeiro a missões (você já na Bíblia a ordem explícita para financiar missões?) e outros assuntos.

“À Escritura nada se acrescentará” em tempo algum, nem por novas revelações do Espírito, nem por tradições dos homens”, entretanto bençãos maravilhosas estão para serem descortinadas ou redescobertas pela Igreja, como a belíssima doutrina da Aliança da Graça, bibliquíssima base para o batismo infantil.

Mas é debalde discutir. Quando levantamos um ponto, vem a suave “inquisição” querendo nos condenar ao silêncio obsequioso. Devo reconhecer, “não ser por força ou poder”, mas é absolutamente necessária “íntima iluminação do Espírito de Deus. PARA A SALVADORA COMPREENSÃO DAS COUSAS REVELADAS, E QUE HÁ CIRCUNSTÂNCIAS, QUANTO AO CULTO DE DEUS E AO GOVERNO DA IGREJA, COMUNS ÀS AÇÕES E SOCIEDADES HUMANAS, AS QUAIS TÊM DE SER ORDENADOS PELA LUZ DA NATUREZA E PELA PRUDÊNCIA CRISTÃ, SEGUNDO REGRAS DA PALAVRA, QUE SEMPRE DEVEM SER OBSERVADAS.

A todos que me acompanharam até agora, meu cordial agradecimento e o reconhecimento da paciência. Sei que abusei da “patentia” de nossos censores de plantão. Sei “isclusivis”, que até o serenissímo total, sumo e poderosissímo Lorde Pontície Majordomo de certa lista de discussão teológica que quando soube de minhas intermináveis incursões, meneando a cabeça expressou: “Quanquon tanden, Anamim (quid esquisitum nomine), putieri patienti nostra”. Já fiquei exilado outras vezes e senti muito, por favor não me excluam, senhor censores! Eu prometo ficar mais calmo!

Tole i”. effpudo

Anamim Lopes Silva, presbítero da I. Presbiteriana do Sudoeste e membro da Comissão Executiva do Presbitério do Distrito Federal, em Brasília – DF.
anamin@tba.com.br

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