Debate – Paulo Coelho X Frei Betto: A religião é o ópio do povo?

Autor: Belisa Ribeiro

Retorno aos valores morais e culturais tradicionais
02/06/2000 – 13h18

Frei Betto – A que voltar? À Igreja constantina que coroava príncipes e reis? Penso que, à luz do evangelho de Jesus, não. À Igreja inquisitorial, que remetia hereges à fogueira; à Igreja ibérica, que colonizou a América Latina e praticou o genocídio de 30 milhões de indígenas; à Igreja que, sobretudo no Brasil, foi omissa em três séculos de escravidão? Também não. Temo que esse pensamento seja interpretado como volta a um modelo de igreja triunfalista, impositiva e cúmplice da colonização e da opressão. Não se trata de retorno. Se trata de redescobrir os valores contidos no evangelho, os de uma Igreja servidora, comprometida com os direitos humanos. Uma Igreja que se coloque do lado da maioria da população e faça o que Jesus fez: ser sinal de bem-aventurança, de boa nova para os pobres.
Tomando um dos valores morais e culturais da tradição cristã, o da família indissolúvel podemos perguntar: que família? A família burguesa? Em uma comunidade eclesial uma mulher agradece a Deus porque, há três anos, estava sem marido, e apareceu um outro que assume os filhos dela como se fosse pai. Todo mundo agradece a Deus com ela. E você vai dizer o quê? Na questão da moralidade, da sexualidade, a Igreja não está ainda sabendo trabalhar a modernidade.

Paulo Coelho – Não concordo com a necessidade de um retorno a valores morais e culturais. Concordo com a palavra tradição. A moral e a cultura são coisas que cada época dita. A tradição cristã, sim, é fundamental. Deve haver um retorno aos valores espirituais, a esta tradição que é a idéia de Cristo como filho de Deus trazendo a mensagem da fé, da esperança, do amor – a idéia do despertar o Cristo dentro de cada um.
O homem busca Deus hoje da mesma maneira que buscava no antigo Egito e na Idade Média. A Igreja vai dar mais valor aos ritos, aos dogmas, que são os mesmos de dois mil anos atrás. A semente da Teologia da Libertação não tem como ser morta. Foi plantada em muitos lugares ao mesmo tempo e fertilizou. Mas não da maneira como os teólogos da libertação colocaram, partindo do social para o espiritual. Não se vai esquecer o compromisso social da Igreja nunca mais. Só que ele já está vindo e virá cada vez mais revestido do compromisso espiritual mágico, com as pessoas indo à missa para comungar e receber o Espírito Santo. A Igreja Católica vai despertar no homem, mais do que a consciência social, a consciência individual. A Igreja Católica vai estar no meio das igrejas que vão se fortalecer enquanto fundamentalismo e o Papa está atento a isso. Nós que somos a origem temos que ter uma postura condizente com o que temos há dois mil anos: as palavras de Cristo, o evangelho. Neste sentido, a Igreja Católica vai se tradicionalizar, mas não se conservadorizar. Ela pode ser um reduto de democracia, em um momento em que surgem várias ditaduras da fé.

Debate 2 – Católicos virando evangélicos
02/06/2000 – 13h40

A falta de doutrina e a ignorância religiosa tornam o povo facilmente vulnerável à sedução de seitas e grupos religiosos que contam com fortes recursos econômicos e aliciam seguidores com falsas miragens.

Frei Betto: As causas da evasão são a miséria e a desesperança. A miséria do país dá um caldo de cultura extremamente favorável ao embuste religioso. Se sou pai de família e meu filho está doente, e eu não tenho dinheiro para pagar um médico, e alguém me diz que tem um pastor ali na esquina com uma bênção milagrosa, vou lá imediatamente. A desesperança é produzida pela vitória do neoliberalismo. Desde Sócrates até o fim da década de 90, a humanidade não vivia sem utopia, seja filosófica, política ou religiosa. Depois da queda do Muro de Berlim, a humanidade ficou sem utopia. O povo brasileiro muito mais; está sem referências, sem esperança. Só resta uma alternativa: a sobrevivência mágica e o sonho de entrar no mercado de consumo. Como o mercado é altamente seletivo e excludente, é normal que qualquer pastor que venha apresentar uma proposta evasiva desta realidade encontre adeptos.
Como cristão, não posso fazer da pregação de Jesus uma proposta evasiva. Dizer ao povo que ignore o que está se passando à sua volta e espere em Deus é alienação à luz do evangelho, mas devemos lembrar que as estruturas da Igreja Católica precisam se modernizar. Você pode me fazer um bolo muito gostoso, mas se me der este bolo em uma caixa de cimento impermeável não vou poder provar do seu bolo. A mensagem de Jesus, na Igreja Católica, às vezes me parece o bolo gostoso na caixa de cimento…
O João, que é marceneiro, e a Maria, que é lavradora, passam anos nas comunidades eclesiais, mas não podem chegar a ser sacerdotes. Se passam seis meses na igreja neopentecostal da esquina chegam a ser pastores. Esta igreja valoriza o serviço deles, a ponto de chegarem a ser autoridade na estrutura eclesial.
Uma moça que vem da Amazônia e viaja quatro dias de barco pelo Araguaia para confessar os pecados do pai – ao morrer, ele pediu que a filha conseguisse para ele a extrema-unção – encontra um padre e narra os pecados do pai dela. Isso implode toda a teologia dos sacramentos. Não há teologia de Roma que responda a um caso desses. Isso é vida, e a vida do povo é a base da Teologia da Libertação, não o marxismo. Por isso é que ela assusta; porque exige uma outra estrutura.

Paulo Coelho – O que abriu caminho para as seitas foi a Igreja ter se afastado muito, no decorrer das décadas de 70 e 80, do caminho do mágico, do transcendental. A Teologia da Libertação foi uma postura que se impôs como uma necessidade na América Latina, mas acabou pondo de lado o que o homem vai buscar na religião, que é o encontro com Deus. O homem quer, sim, ter suas necessidades básicas atendidas, mas quando ele se aproxima da Igreja está procurando responder à pergunta central de sua vida e não importa se ele é rico ou pobre. Ele está perguntando: “O que que eu estou fazendo aqui?” O rico pergunta isso porque ele teve todas as suas necessidades satisfeitas e caiu do cavalo. Está infeliz, bebendo nos cantos, com 15 amantes sem preencher o sentido da vida. O pobre, porque não tem nada, também quer saber o sentido da sua vida. Nós temos esta indagação, não importa a classe social, o nível intelectual. É uma pergunta que acompanha o homem desde que ele é homem; a pergunta que a efígie fez para Édipo.
Por volta de 1970, a revista Time publicou uma capa negra na qual estava escrito: Deus está morto. As igrejas Presbiteriana, Luterana, Calvinista e Católica pensaram que a tendência do homem era se tornar cada vez mais racional e que deveriam se adaptar a essa tendência, sob pena de perder o trem da história. Esse foi um grande equívoco, porque uma minoria resistiu. Essas igrejas clássicas partiram para uma participação social e política mais ativa, achando que a lógica ia ser um dos elementos a interferir na decisão do homem ao procurar uma igreja. Já as outras, que surgiram pequenas e que beiram o fanatismo, continuaram dando o batismo e gritando “aleluia”, com um contato com o fiel muito mais íntimo. Durante anos as pessoas riram disso. Mas o sistema lógico de pensamento das grandes igrejas começou a ser levado de roldão porque, enquanto todas acharam que caminharíamos para um pensamento cartesiano, os impressionistas iam ganhando terreno. Sendo primitivas, aquelas igrejas acabaram crescendo porque quanto mais a tecnologia avança, mais o lado primitivo tem tempo para aparecer. Se no computador você resolve em minutos o que antes levava horas, você tem mais tempo para ficar olhando para o teto e para o umbigo. Começa a pensar mais nas razões de sua existência, a ser forçado a refletir e percebe que dentro da sua alma lógica existe o inconsciente, o primitivo, que está gritando para aparecer. Primitivo desconhecido é o quê? Pai-de-santo que recebe espírito; pastor que expulsa o demônio. Isso foi o que passou a ser fascinante. Porque, quando busca uma religião, o homem quer comungar com Deus e responder à pergunta que a efígie fez para Édipo. No momento em que as igrejas clássicas fugiram desta pergunta central do homem, o homem também se afastou delas.

Debate 3: Participação política da Igreja
02/06/2000 – 13h51

A Igreja não possui uma proposta concreta de organização social ou modelo econômico, mas não pode ficar calada quando estiverem em jogo a vida, a liberdade, a dignidade da pessoa humana, de todos os homens, de qualquer raça, condição social ou credo religioso.

Frei Betto – Este pensamento do papa confirma a ação profética da Igreja no Brasil. Uma Igreja que nunca ficou calada diante das injustiças, da ditadura, da questão das crianças. É até vergonhoso, para nós católicos, constatar que a igreja no Brasil falou mais, durante muito tempo, de reforma agrária e de direitos humanos do que os partidos políticos. Vergonhoso porque isso seria próprio dos partidos, e a Igreja ainda tem que cumprir essas tarefas supletivas do vazio das instituições. Nós todos somos discípulos de um prisioneiro político. Jesus não morreu de hepatite nem de desastre de camelo em uma esquina de Jerusalém. Morreu vítima de dois processos políticos – um romano e outro judaico – porque desagradou ao poder de seu tempo, defendendo o direito dos pobres, a sacralidade absoluta de cada ser humano. Isso, para a época, foi uma revolução cultural avançadíssima. Hoje, teoricamente, cada um aceita que cada pessoa tem uma sacralidade absoluta. Mas de fato nós, por razões culturais, achamos mesmo é que o mendigo que está ali vale menos do que a gente que tem um certo lustro cultural, certas condições de vida.
A revolução tecnológica tem que desembarcar na proposta do evangelho ou a humanidade vai ficar muito infeliz. Os países precisam se livrar da escravidão do paradigma norte-americano do progresso associado ao consumo, da felicidade associada ao padrão de consumo, e colocar a questão de fundo: qual é o nosso modelo de felicidade? Como é que o povo do Brasil, do Haiti, de Uganda, pode ser feliz? Os bororos são muito felizes, e eles não têm carro nem computador. Eu seria muito infeliz como bororo, mas também não sou muito feliz, do ponto de vista objetivo, vivendo em um sistema onde a maioria está excluída e passa fome. Quando me perguntam sobre os direitos humanos em Cuba, eu digo que no Brasil ainda estamos lutando pelos direitos humanos animais. Essa coisa de comer, de poder educar a cria, abrigar-se das intempéries, é coisa de bicho, que grande parte da população do meu país ainda não tem assegurada. Portanto é preciso não cair em dualismos entre político e espiritual: não existe política sem ética, como não existe ética sem mística, e a mística só vem da experiência espiritual.

Paulo Coelho – A Igreja não tem modelos econômicos, mas tem modelos éticos. Tudo que estiver afenso e direcionado à sua ética, você será obrigado a participar. Nesse sentido, a magia é política por excelência e as correntes filosóficas espirituais, idem. Até a Segunda Guerra, existia o bandido e o mocinho. Hitler era o bandido e nós, o mocinho. A partir daí, o ser humano não conseguiu mais se localizar. Durante a guerra do Golfo o suposto mocinho comete atrocidades, enterrando valões de pessoas. Já não há mocinhos nem bandidos, já não há ideologias porque se viu o comunismo desmoronar e não se pode ser a favor do imperialismo que é uma coisa selvagem. O esvaziamento das ideologias deixou um vazio que, por enquanto, está sendo preenchido pelas lutas étnicas. Mas, em breve, passaremos para o grande problema: as jihads, as guerras religiosas.
Hoje o imperialismo está diante de um gigantesco bebê que é o mundo pobre querendo mamar em todas as suas tetas. Isso aconteceu em outras épocas, quando houve hegemonia do Egito, de Roma, da Inglaterra. O monoteísmo persa e hebreu acabou por minar o Egito; o cristianismo comeu por dentro a estrutura de Roma; e o hindusimo destruiu o Império Britânico. Ninguém pode prever que, bem no auge do profundo racionalismo cristão, toda uma sociedade colocasse o Aiatolá no poder, porque não há nada menos moderno que o muçulmano xiita.
Mas a falta de ideologia deixa aberta a porta do espiritualismo, da busca do desconhecido. O homem, com medo do que vai encontrar, procura alguém que o guie. E também na busca espiritual a figura do “patrão” está revestida de uma mitologia muito poderosa. Os exemplos são muitos: por trás da expansão coreana, esteve o reverendo Moon; o Japão utiliza sua estrutura tradicional para o sistema de produção; aqui mesmo no Brasil, Collor ganhou eleição porque simbolizava , naquele momento, uma possibilidade mítica, enquanto Lula simbolizava a possibilidade pragmática. Eram os pentecostais contra a Teologia da Libertação e a transmutação venceu a transformação. Meu grande temor da nova era são os gurus. Quando se derem conta do poder da busca espiritual. A fé pode ser utilizada como um instrumento de dominação. Todos devem estar alertas, cada um com a sua razão. A minha é acreditar na Tradição e querer fazer o possível para que o homem perca a dependência de terceiros para o seu contato com o que, para mim, existe de mais Sublime – Deus.

Por Belisa Ribeiro*, editora do ebarbaro.com

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