Bases Bíblicas da Missão Transcultural

Autor: Antonio Carlos Barro, Ph.D
INTRODUÇÃO
É lugar comum falar da importância da missão na vida da igreja nestas últimas décadas.
Os muitos congressos são importantes na medida em que despertam a consciência para aquela atividade da igreja que foi esquecida no que diz respeito ao pensar teológico, ainda que na práxis ela tem sido desenvolvida.
Causa também satisfação em tomar conhecimento que o conteúdo deste congresso “descerá” ao nível da igreja local. Muitos congressos não afetam positivamente nem mesmo a vida dos participantes, que diríamos então daqueles que não participaram!
CONCEITUAÇÃO
É importante que conceituemos brevemente algumas palavras. O tema sugerido foi: “Bases Bíblicas de Missões Transculturais”
Um tema aparentemente fácil e que tem sido tratado extensamente em livros e artigos missiológicos. Todavia, o tema é sempre debatido da perspectiva antropológica, com ênfase nas várias nuances da cultura de um povo. Observando o livro de David Hesselgrave, A Comunicação Transcultural do Evangelho, vemos que em seus dois volumes, num total de 700 páginas, foram citadas somente 133 passagens bíblicas. As passagens são ainda usadas sem uma análise dos seus significados mais profundos.
Definição:
Bases Bíblicas: Naturalmente que tudo o que o fiel faz, ele o faz fundamentado nas Escrituras do Antigo e Novo Testamento. Em termos de América Latina isso é importante porque nós somos conhecidos como o povo do livro. Tanto os bons ensinos bem como as heresias são fundamentados nas Escrituras.
Missões: O termo segue a popularização do nome missões. Missões, todavia, é mais próprio para designar as agências missionárias, enquanto que o termo missão está mais próximo daquilo que estamos refletindo neste congresso. A palavra missão é originária do termo latim missio, que quer dizer enviado. Portanto, missio Dei, ou seja: a missão de Deus.
Transculturais: No sentido de cruzar qualquer fronteira que separa o mensageiro do ouvinte. Convencionou-se a pensar em transcultural como além-mares. Todavia, é fato que qualquer missão, seja ela perto ou longe, é missão transcultural. Além das barreiras mais conhecidas como a da lingüistica, costumes, geográfica, étnicas, etc., temos ainda as barreiras sociais, morais, religiosas, familiares.
BASES BÍBLICAS DA MISSÃO TRANSCULTURAL
Tendo em vista a profusão de textos bíblicos sobre a missão de Deus, temos dificuldades em selecioná-los pois incorremos no risco de usar os textos mais como pretextos. Devemos ter isto em mente enquanto estudamos sobre o assunto proposto.
Base Bíblicas no Antigo Testamento
Deus e a criação em Gênesis 1
Ao abrirmos as Escrituras lemos as primeiras palavras: “No princípio criou Deus os céus e a terra”.
Uma declaração simples, mas que segundo a carta aos Hebreus é necessário fé para crer que assim foi o acontecido: “Pela fé, entendemos que foi o universo formado pela palavra de Deus, de maneira que o visível veio a existir das cousas que não aparecem” Hb 11.3
O segundo relato é razoavelmente misterioso: “A terra, porém, estava sem forma e vazia; havia trevas sobre a face do abismo, e o Espírito de Deus pairava por sobre as águas” Gn 1.2
Algumas perguntas são levantadas:
A terra foi criada com forma?
A terra foi criada sem forma?
A terra veio se tornar sem forma e vazia?
Se a terra foi criada com forma, porque estava ela sem forma, vazia e em abismos?
Se a terra foi criada com forma, quem a subverteu?
A terceira declaração adquire importância porque pela primeira vez nas Escrituras vemos que o Deus Criador é também um Deus que fala. Ele fala com a sua própria criação, comunicando a ela uma ordem de restauração ou de recriação: “Disse Deus: Haja luz; e houve luz” Gn 1.3.
Este é o primeiro ato missionário de Deus. Ele liberta a sua criação das trevas. Ele estabelece também um paradigma bíblico: Deus é quem toma a iniciativa de vir em socorro da sua criação. A terra re-criada serve agora para os propósitos de Deus.
Deus e as famílias da Terra em Gn 12
Mais uma vez encontramos a criação em trevas. Faltava entendimento da ordem de Deus e faltava principalmente o desejo de servir o Criador. A criatura, seguindo o padrão da queda, quer ser como Deus, Gn 11.4.
Desobediência leva ao julgamento, 11.8-9.
Com as famílias dispersas, estabelece-se um novo caos. Deus chama a família de Abrão para abençoar as famílias sem Deus. Abrão torna-se o referencial da bênção e da maldição sobre os povos, Gn 12.1:4.
Implicações para a missão transcultural
Deus está no controle da sua criação. Ele não a abandona e nem lhe dá rédeas livres para viver conforme sua própria imaginação.
A luz de Deus expulsa a treva.
Deus toma a iniciativa de libertar a sua criação. A missão é desenvolvida a partir do entendimento de que o cosmos está subordinado ao Deus Criador.
Em Abrão e no seu descendente está o referencial de salvação para a humanidade.

Bases Bíblicas no Novo Testamento
Deus e Jesus Cristo
Se no Gênesis Deus socorre a sua criação e providencia uma família para trazer a sua salvação a todas as famílias da terra, no Novo Testamento o próprio Deus vem morar na terra. O evangelista João faz as seguintes declarações: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus” Jo 1.1-2.
Posteriormente, o mesmo evangelista nos informa que: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai” 1.14.
O Apóstolo Paulo olhando para este evento teologiza ou diríamos missiologiza as particularidades de como o Verbo Cristo veio morar na terra. Escrevendo no segundo capítulo aos Filipenses ele nos ensina:
Cristo existia em forma de Deus, 2.6.
Morphe
Tinha a mesma aparência de Deus
Cristo abriu mão do seu direito de ser Deus, 2.6
Isos
Igual em quantidade e qualidade
“vindo, porém, a plenitude do tempo, Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei” Gl 4.4.
Ele não reteve, ele liberou o direito e a prerrogativa de ser Deus
Cristo esvaziou-se a si mesmo, 2.7
Kenoo
Tornou-se sem nenhuma reputação
Ele colocou de lado o seu direito de ser como Deus
Ele foi deposto da sua dignidade, tornou-se inútil.
Cristo assumiu a forma de servo, 2.7
Doulos
Homem de condição servil
Aquele que desiste de si próprio, dos seus interesses para fazer a vontade do outro
Cristo tornou-se semelhante à raça humana, 2.7
Homoioma
Imagem, igualdade da mesma substância, nesse caso a raça humana
Cristo humilhou-se a si mesmo, 2.8
Tapeinoo
Ser reduzido a posição mais baixa
Estar abaixo daqueles que são honrados ou reconhecidos
Cristo obedeceu mesmo em face da morte, 2.8
Hupekoos
Deu ouvidos a, foi obediente
A mensagem do Cristo ao mundo
“Ora, a mensagem que da parte dele, temos ouvido e vos anunciamos é esta: que Deus é luz, e não há nele treva nenhuma” I Jo 1.5.
Para relacionar-se com Deus, é necessário que a criatura deixe o seu estado de trevas, venha para a luz onde serão manifestos os pecados para que sejam perdoados.
Os que têm a luz de Cristo, agora relacionam-se com Deus.
Este é o aspecto vertical. Deus nos liberta de nós mesmos.
“Porque a mensagem que ouvistes desde o princípio é está: que nos amemos uns aos outros” I Jo 3.11.
Tendo sido amado por Deus, somos livres para amar as outras criaturas de Deus. Somos desarraigados da estrutura de egoísmo que invadia o nosso ser.
Este é o aspecto horizontal. Encontramos o outro, quando somos encontrados por Deus.
O missionário transcultural e a missão de Deus
O missionário também existe na forma da sua cultura, tem a mesma aparência do seu povo e os mesmos costumes. Tem a sua cultura eclesiástica enraizada e com ela identifica-se plenamente.
O missionário deve abrir mão do seu direito de pertencer a sua própria cultura antes mesmo de deixá-la. O missionário não deve ser obstinado, ancorar-se na sua cultura ao mesmo tempo em que deseja colocar o seu barco em outros portos (culturas).
Entre o povo a ser ministrado o missionário não é nada, ele é despojado da sua dignidade, ele esvazia-se de si mesmo.
Entre o povo a ser ministrado o missionário é escravo, é pessoa de condição servil e está no meio dos outros para servir, desistindo dos seus próprios interesses.
Torna-se semelhante aos outros na medida em que serve. Aos poucos ele pode ser considerado um dentre o povo. “Ele come com os pecadores” diziam de Jesus.
Humilhar-se é ser cristão. Ninguém será um agente do reino de Deus sem passar pelo processo da humilhação.
A obediência a Deus é inquestionável, mesmo em face da morte e dos perigos.
O missionário e a mensagem de Cristo
A ordem é clara: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as cousas que vos tenho ordenado. E eis que estou convosco todos os dias até a consumação do século” Mt 28:19-20
A maneira é delineada: “Assim como o Pai me enviou, eu também vos enviou” Jo 20:21.
Na mesma proporção
No mesmo grau, com a mesma intensidade
Enviar = apóstolo
Ordem para ir a um lugar designado
Alguns conseguem obedecer fielmente: “Porque não nos pregamos a nós mesmos, mas a Cristo Jesus como Senhor e a nós mesmos como vossos servos, por amor de Jesus. Porque Deus, que disse: Das trevas resplandecerá a luz, ele mesmo resplandeceu em nosso coração, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Cristo” 1 Co 4.5-6.
Outros falham: “Porque nós não estamos, como tantos outros, mercadejando a palavra de Deus; antes, em Cristo é que falamos na presença de Deus, com sinceridade e da parte do próprio Deus” 1 Co 2.17.
Corromper, adulterar
Ganhar dinheiro vendendo a palavra de Deus
O alvo da missão transcultural
“Cristo amou a Igreja e a si mesmo se entregou por ela, para que a santificasse, tendo a purificado por meio da lavagem de água pela palavra, para a apresentar a si mesmo Igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem cousa semelhante, porém santa e sem defeito” Ef 5.25-27.
“Atendei por vós e por todo o rebanho sobre qual o Espírito Santo vos constituiu bispos, para pastoreardes a Igreja de Deus, a qual ele comprou com o seu próprio sangue?” At 20.28.
CONCLUSÃO
Procuramos neste breve trabalho mostrar que a missão transcultural da igreja está fundamentada nas Escrituras do Antigo e Novo Testamentos.
Muitas vertentes podem ser trilhadas. Mas para nós é forte a idéia de que Deus veio morar na terra na pessoa do Cristo. E para que essa habitação alcançasse o seu propósito, Cristo vivenciou todos os aspectos da cultura sobre a qual ele ministrava.
Semelhantemente, a fidelidade a esse mesmo modelo é que precisamos incutir na vida da igreja hoje, para que presente no mundo, ela não seja:
Alienada: o mundo é ruim, por isso nos afastamos dele.
Mundana: é preciso ser como o mundo para ganhá-lo.
Participativa: receber de Deus e entregar ao mundo.
PARA REFLETIR
O que entende a minha igreja/denominação quando falamos em missão transcultural?
A minha igreja/denominação reflete Cristo no seu modelo missionário?
Quais os aspectos da missão da minha igreja/denominação que são culturas eclesiásticas e que nós estamos transportando para as outras gentes?
O que podemos somar ou subtrair do nosso agir missionário hoje?
Os brasileiros que recriminaram as agências missionárias do Atlântico Norte estão isentos do pecado de realizar da missão de Deus de maneira imperialista?

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