A vida eterna segundo o Evangelho de João

Autor: Josivaldo de França Pereira

Nenhum outro escritor do Novo Testamento utiliza tanto a expressão vida eterna como o apóstolo João. Enquanto nos evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas) vida eterna aparece 6 vezes, em João temos nada menos que 17 ocorrências. Isto não significa que nos evangelhos sinóticos o tema da vida eterna seja ignorado, pelo contrário, os três primeiros evangelhos tratam do mesmo tema quando falam do reino de Deus. Ambos (vida eterna e reino de Deus) pertencem à mesma categoria teológica, e são sinônimos.

Segundo C. K. Barret, vida eterna em João “substitui o reino de Deus dos evangelhos sinóticos”. E mais: “Aquilo que é, propriamente, uma bênção futura torna-se um fato presente em virtude do futuro em Cristo”.

A NATUREZA DA VIDA ETERNA
O substantivo “vida” em grego pode ser bíos ou zoê. Bíos significa a vida física, biológica e zoê aquela qualidade espiritual de vida eterna que só Jesus é capaz de oferecer. Em João zoê pode vir ou não acompanhado do adjetivo “eterno”, que em grego é aiõnios. Na maioria das vezes temos zoê aiõnios (vida eterna), e mesmo quando zoê está sozinho, em João sempre significa vida eterna.

A vida eterna é uma obra da livre graça de Deus. A salvação em sua maior expressão. Nem mesmo a morte física serve de obstáculo para a vida eterna; pelo contrário, a morte, para os crentes, é “uma libertação do pecado e um passo para a vida eterna” (Catecismo de Heidelberg). Disse Jesus: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá; e todo o que vive e crê em mim, não morrerá, eternamente” (Jo 11.25,26). Ter a vida eterna é o mesmo que estar salvo num processo irreversível (cf. Jo 5.24; 6.47; 10.27,28). Como o próprio nome indica, vida eterna não é uma coisa que temos hoje e perdemos amanhã. Neste caso seria vida temporária e passageira, jamais eterna!

A natureza essencial da vida eterna foi descrita pelo Senhor Jesus assim: “E a vida eterna é esta: que te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo a quem enviaste” (Jo 17.3). Esta passagem “não define vida eterna, mas mostra como se manifesta e quão maravilhosa é” (William Hendriksen). E de que forma ela se manifesta? Hendriksen explica: “A vida eterna por meio da qual tanto o Pai como o Filho são glorificados se manifesta no verdadeiro conhecimento do que envia e do enviado”.

Segundo George Ladd, “Em João, o conhecimento é uma relação com base na experiência. Existe uma relação íntima, mútua, entre o Pai e o Filho; por sua vez, Jesus conhece seus discípulos e por eles é conhecido; e, em conhecê-lO, eles também conhecem a Deus”. Disse Jesus: “Eu sou o bom pastor; conheço as minhas ovelhas, e elas me conhecem a mim, assim como o Pai me conhece a mim e eu conheço o Pai; e dou a minha vida pelas ovelhas” (Jo 10.14,15).

Em se tratando de nossa relação com Jesus, é preciso entender que este conhecimento, longe de ser uma simples questão de compreensão intelectual, envolve sempre um relacionamento pessoal de íntima comunhão com nosso Senhor. Este é o significado básico do verbo conhecer em João.

Conhecer a Deus é conhecer a verdade libertadora. “Disse, pois, Jesus aos judeus que haviam crido nele: Se vós permanecerdes na minha palavra, sois verdadeiramente meus discípulos; e conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (Jo 8.32). Conhecer a verdade “significa chegar a compreender o propósito salvador de Deus, incorporado em Cristo, e a liberdade prometida é a liberdade do pecado (Jo 8.34), liberdade essa que não poderia ser realizada sob as condições da antiga aliança, mas somente através do Filho [Jo 8.36]” (Ladd). E ainda: “A verdade de Deus não está apenas incorporada em Cristo, mas é também manifesta em Sua palavra, pois Ele fala a verdade (Jo 8.40,45) e veio para dar testemunho da verdade (Jo 18.37). Esta verdade não é simplesmente a revelação daquilo que Deus é, mas a manifestação da presença salvadora de Deus no mundo. Portanto, tudo o que Jesus fez e oferece é verdadeiro (Jo 7.18; 8.16), isto é, está de acordo com a Sua natureza e com o plano de Deus. Este propósito redentor é a palavra de Deus (Jo 17.6,14) é a própria verdade (Jo 17.17), a qual é uma com a pessoa do próprio Jesus (Jo 1.1)”.

O ASPECTO PRESENTE DA VIDA ETERNA
Que a vida eterna já é uma realidade na vida de todo aquele que crê em Jesus, é facilmente percebido em João 6.47, onde o verbo ter está no presente do indicativo. Disse Jesus: “Em verdade, em verdade vos digo: Quem crê, tem a vida eterna” (cf. I Jo 5.13). “A vida que pertence ao futuro, ao reino da glória”, diz Hendriksen, “passa a ser possessão do crente aqui e agora (…). Esta vida é salvação e se manifesta na comunhão com Deus em Cristo (Jo 17.3); na participação do amor de Deus (Jo 5.42), de sua paz (Jo 16.33), e de seu gozo (Jo 17.13)”.

John MacArthur complementa: “Biblicamente, a vida eterna não é apenas a promessa da vida na eternidade, mas é também a qualidade de vida característica das pessoas que vivem na eternidade. Tem a ver com qualidade tanto quanto duração (Jo 17.3). Não é apenas viver para sempre. A vida eterna é ser participante do reino onde habita Deus. É andar com o Deus vivo, em comunhão infindável”.

A ênfase central do evangelho de João é levar homens e mulheres a terem uma experiência presente de vida eterna. O aspecto presente, bem como o futuro da vida eterna, é mediado pela pessoa de Cristo. Desse modo, não é difícil compreender porque as suas palavras são vida (Jo 6.63), visto que elas procedem do Pai, que lhe ordenou o que deveria dizer. E o mandamento de Deus é vida eterna (Jo 12.49,50). Mas a vida eterna não é apenas mediada por Cristo e Sua palavra. Ela habita na própria pessoa de Jesus (Jo 1.4; 5.26; 14.19). Ele é o pão da vida (Jo 6.48). Ele é a água vida (Jo 4.10,14). Conseqüentemente, Jesus podia dizer: “Eu sou a vida” (Jo 11.25; 14.6), e vida em abundância (cf. Jo 10.10).

Para que a vida eterna seja uma realidade presente na vida de alguém, é necessário receber a Jesus Cristo e confiar somente nEle para a vida eterna (cf Jo 3.16). “A falta de vida eterna é equiparada com o estado de perdição, de estar condenado ou perdido, em contraste com aqueles que têm a vida eterna, que são declarados salvos e que recebem a promessa de que nunca perecerão [Jo 3.15,16,18,36; 10.9]” (John Walvoord).

Uma vez adquirida, é necessário que a vida eterna se expresse através da obediência e prática do evangelho (Jo 12.50; 13.17). A salvação em Cristo exige mudança de vida, aqui e agora. Além disso, a vida eterna deve ser uma realidade tão presente em nossa vida, a ponto de podermos cantar assim:

Depois que Cristo me salvou,
Em céu o mundo se tornou;
Até no meio do sofrer
Eu tenho paz no meu viver.

O ASPECTO FUTURO DA VIDA ETERNA
A vida eterna é qualidade e duração. Ter uma vida que não acaba jamais é o grande anseio do ser humano. Haja vista a atitude da mulher samaritana quando ouviu de Jesus: “Aquele, porém, que beber da água da vida que eu lhe der, nunca terá sede, para sempre; pelo contrário, a água que eu lhe der será nele uma fonte a jorrar para a vida eterna. Disse-lhe a mulher: Senhor, dá-me dessa água para que eu não mais tenha sede, nem precise vir aqui buscá-la” (Jo 4.14,15). Ou dos judeus quando ouviram Jesus dizer: “Porque o pão de Deus é o que desce do céu e dá vida ao mundo. Então lhe disseram: Senhor, dá-nos sempre desse pão” (Jo 6.33,34). Infelizmente nem a mulher samaritana nem os judeus entenderam, a princípio, o significado da vida eterna que Jesus lhes oferecia.

Em João a expressão vida eterna contém, além de seu significado presente, um aspecto futuro ou escatológico, como por exemplo em 12.25: “Quem ama a sua vida, perde-a; mas aquele que odeia a sua vida neste mundo, preservá-la-á para a vida eterna”.

Quem beber da água viva descobrirá que ela também é uma fonte a jorrar para a vida eterna (Jo 4.14); e aquela comida que Cristo oferece também produz vida para o futuro (Jo 6.27).

A vida eterna, no aspecto escatológico, será experimentada quando o justo passar pela “ressurreição da vida” (Jo 5.29). Esta declaração é bem parecida com aquela de Daniel 12.2: “Muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para a vida eterna, e outros para vergonha e horror eterno”.

O princípio da vida eterna que habita o corpo mortal do crente se estende para a ressurreição do mesmo. Aquele a quem Jesus concedeu vida eterna será ressuscitado no último dia (Jo 6.40,54). Jesus é a ressurreição e a vida. Quem nEle crê poderá morrer fisicamente, mas viverá novamente (Jo 11.25,26), isto é, o corpo ressuscitará para uma alma que nunca morreu, a fim de, juntos, desfrutarem eternamente da presença de Deus.

Caberia aqui uma ligeira observação acerca do castigo eterno. Não trataremos do assunto propriamente dito, visto que este não é o tema do nosso estudo. Por isso, mencionaremos o castigo eterno apenas como auxílio para uma compreensão melhor da vida eterna.

Hoje em dia, não são poucos os que negam a condenação eterna. Igrejas, num passado recente, se dividiram por causa desta questão. Os universalistas e os aniquilacionistas de nossos dias rejeitam definitivamente a idéia de um inferno onde pessoas sofrerão por toda a eternidade. Ambos argumentam que Deus é muito bom e misericordioso para condenar qualquer pessoa por toda a eternidade. Alguns universalistas defendem que as pessoas que viveram pecando deverão ser castigadas durante certo tempo após a morte, mas depois todo mundo será salvo. Os aniquilacionistas, por sua vez, entendem que os ímpios serão, como o próprio nome diz, aniquilados. Alguns aniquilacionistas também crêem que depois da morte um sofrimento temporário precederá o aniquilamento final e definitivo dos ímpios.

Ora, seja Deus verdadeiro e todo homem mentiroso. Deus é amor mas também é justiça! Nosso Senhor Jesus foi claro quando disse: “Por isso quem crê no Filho tem a vida eterna; o que, todavia, se mantém rebelde contra o Filho não verá a vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus” (Jo 3.36; cf. Dn 12.2; Mt 25.46). Quando Jesus diz que aquele que “se mantém rebelde contra o Filho não verá a vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus” (Jo 3.36), Ele está se referindo ao destino final dos ímpios. O inferno é a manifestação permanente e eterna da ira de Deus contra os pecadores impenitentes. O castigo que os ímpios sofrerão depois desta vida será de igual maneira sem fim, como sem fim será a bem-aventurança futura do povo de Deus.

Sendo assim, as ovelhas de Jesus podem descansar nas promessas consoladoras do Supremo Pastor: “Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, eternamente, e ninguém as arrebatará da minha mão” (Jo 10.28). Por outro lado, como bem observou Antony Hoekema, “O ensinamento bíblico com respeito ao inferno deve acrescentar uma nota de profunda seriedade em nossa pregação e ensino bíblico. Devemos falar do inferno com tristeza, com dor, talvez até com lágrimas – mas devemos falar a respeito”. E mais: “Em nosso empreendimento missionário, a doutrina do inferno deve incitar-nos a um maior zelo e urgência. Se é certo que muita gente vai em direção de uma eternidade sem Cristo, a menos que ouçam o evangelho, quão ansiosos deveríamos estar para levar-lhes o evangelho!” . (Tradução livre).

AS IMPLICAÇÕES DA VIDA ETERNA
PARA O POVO DE DEUS
Quais as implicações práticas da vida eterna para a igreja evangélica brasileira do novo milênio? Consideremos três aspectos:

Em primeiro lugar, é preciso uma reflexão séria e responsável do papel da igreja na sociedade. Somos salvos para fazer a diferença através de uma postura ética, de valores que manifestem nitidamente a diferença que a vida eterna faz no meio e através do povo de Deus. A natureza da vida eterna, expressa no conhecimento de Deus e de Sua verdade, deve levar a igreja a experimentar a renovação de vida que começa aqui e agora. A vida só tem sentido quando é vivida na presença de Deus com responsabilidade. Por isso, a igreja precisa parar de brincar com coisa séria e viver o evangelho integral de nosso Senhor Jesus Cristo.

Em segundo lugar, a vida eterna deve nos levar a uma atitude prática em relação ao destino futuro dos justos e dos injustos. O que significa o céu para os crentes? O que quer dizer viver para sempre? Estamos preparados? A igreja do Senhor está pronta? Você está preparado para se encontrar com Deus? Está certo que tem a vida eterna? E o que dizer daqueles que estão indo para o inferno? Até onde somos culpados pelo destino eterno dos pecadores? Essas indagações não devem ser menosprezadas. São necessárias uma reavaliação de conceitos e uma ação salvífica urgente da igreja no mundo.

Em terceiro lugar, temos que levar em muita consideração a razão de ser da própria vida eterna. De um lado temos o propósito imediato, isto é, somos salvos porque Deus nos ama e quer nos ajudar. Do outro lado há o propósito final da vida eterna: a glória de Deus. Glorificar a Deus deveria ser o maior desejo do cristão. Viver como Deus quer é viver para a sua honra e glória. Infelizmente, muitas vezes a glória de Deus não tem sido, na prática, a maior preocupação do povo de Deus. A busca do bem-estar tem ocupado com muita freqüência o lugar de uma vida obediente e submissa à vontade de Deus. Certamente Deus abençoa o Seu povo e se deleita nisso, porém, somente quando Ele ocupa o primeiro lugar em nosso coração. Se agradarmos a Deus, não como pessoas interesseiras, mas como verdadeiros crentes interessados em Sua pessoa, e se o amarmos nem tanto por aquilo que Ele vai nos dar, mas principalmente por aquilo que Ele é, com certeza a vida eterna que de Deus recebemos será a expressão de louvor no dia-a-dia de pessoas que verdadeiramente amam e glorificam a Deus.

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Rev. Josivaldo de França Pereira – Pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil (I.P.B.) em Santo André – SP. Bacharel em teologia pelo Seminário Presbiteriano Rev. José Manoel da Conceição (J.M.C. – SP), Licenciado em filosofia pela F.A.I. (Faculdades Associadas Ipiranga – SP) e mestrando em missiologia pelo Seminário Teológico Sul Americano (S.T.S.A.) em Londrina – PR. (www.ftsa.edu.br)

1 Comentário

  1. A Paz. Gosratia de ter notícias do Reverendo Evandro e famíia meu celular e zap 024 99955 2003 Reverendo Camargo já fui seminarista neste campo por volta de 91 e 92

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