A divindade de Cristo

Autor: Desconhecido
1 – Antropologia e Cristologia

A doutrina do homem, trata-o como ser criado à imagem e semelhança de Deus, dotado de verdadeiro conhecimento, justiça e santidade, mas que tendo transgredido voluntariamente, perdeu sua verdadeira humanidade e tornou-se pecador. A doutrina dirige sua atenção à pecaminosidade do homem e salienta a distância ética existente entre Deus e o homem, decorrente da queda do homem. Esta não pode ser coberta nem por homens e nem por anjos.

A cristologia trata da obra de Deus em Cristo, cobrindo a distância ética entre Deus e o homem pecador. A doutrina enfatiza Deus vindo ao homem, a fim de eliminar as barreiras entre os dois, pela satisfação das condições da lei em Cristo, para que o homem possa ser restabelecido à plena comunhão com Deus.

2 – A Doutrina de Cristo Antes da Reforma

2.1 – Até o Concílio de Calcedônia.

Na Igreja Primitiva Cristo sobressai como humano e divino, o Filho de Deus, o Filho do Homem. Possui caráter sem pecado, e como tal é defendido e adorado, como legítimo objeto de culto. As distinções entre a natureza e pessoa, são percebidas a partir das controvérsias.

Os ebionitas, no interesse do monoteismo, negam a divindade de Cristo. O consideram simples homem, filho de José e Maria, qualificado para ser o Messias, pela descida do Espírito Santo sobre Ele, por ocasião do Seu batismo.

Os alogianos (alogi) viam em Jesus apenas um homem, embora nascido miraculasamente de uma virgem. Ensinavam que Cristo desceu sobre Jesus, por ocasião do Seu batismo, conferindo-lhe poderes miraculosos.

Paulo de Samosata, principal representante dos monarquistas dinâmicos, distinguia entre Jesus e o Logos. Jesus é considerado um homem como os demais, nascido de Maria e José. O Logos é considerado razão impessoal divina, que faz sua habitação em Cristo preeminentemente, desde o Seu batismo, e assim O qualifica para Sua grandiosa obra.

Os gnósticos, influenciados pela filosofia grega que considera a matéria inerentemente má, oposta ao espírito, rejeitavam a encarnação, porque envolvia um contato direto do espírito com a matéria. A maioria considerava Cristo como um Espírito consubstancial com o Pai, que desceu sobre o homem Jesus, por ocasião do Seu batismo, tendo-o deixado por ocasião da Sua cruxificação. Outros alegavam que Ele assumiu um corpo meramente fantasmagórico.

Os monarquistas modalistas negavam a humanidade de Cristo, no interesse da Sua divindade e para preservar a unidade do Ser Divino. Viam Nele apenas uma emanação de Deus único, em quem não reconheciam nenhuma distinção de pessoas.

Os pais alexandrinos e antignósticos empreenderam a defesa da divindade de Cristo, mas descrevendo-O como subordinado ao Pai. Tertuliano ensinava a subordinação ao Pai. Orígenes ensinava a subordinação quanto à essência.

O arianismo apresenta distinção entre o Cristo e o Logos como razão divina. O Cristo é apresentado como uma criatura pré-temporal, super-humana, a primeira das criaturas, não Deus, porém mais que homem. Atanásio combatendo o arianismo, defende vigorosamente a posição de que o Filho é consubstancial com o Pai e da mesma essência do Pai. Esta posição é adotada no Concílio de Nicéia em 325.

Apolinário, a fim de resolver o problema das duas naturezas ( humana e divina ), aceita a posição tricotômica, o homem como constituído de corpo, alma e espírito. Tomou a posição de que o Logos assumiu o lugar do espírito ( pneuma ) no homem, que ele considerava como a sede do pecado. Assegurava assim a unidade da pessoa de Cristo, sem sacrifício da Sua divindade e resguardava a impecabilidade de Cristo. Entretanto a completa humanidade do Salvador é perdida, e sua teologia é rejeitada no Concílio de Constantinopla em 381.

Na Escola de Antioquia, exagerava-se a distinção entre as duas naturezas de Cristo. Teodoro de Mopsuéstia e Nestória, enfatizavam a completa humanidade de Cristo e entendiam que a habitação do Logos nele era apenas uma habitação moral, semelhante aquela gozada pelos crentes, mas não em mesmo grau. Viam em Cristo, um homem lado a lado com Deus, em aliança com Deus, compartilhando o propósito de Deus, mas não unido a Ele numa unidade de vida pessoal única, viam um Mediador que consistia de duas pessoas.

Cirilo de Alexandria enfatizava a unidade da pessoa de Cristo, negando entretanto as suas duas naturezas : a divina e a humana.

Eutico e seus seguidores, assumem a posição de que a natureza humana de Cristo foi absorvida pela divina, ou que as duas naturezas se fundem resultando numa única natureza.

O Concílio de Calcedônia em 451, condena todo conceito diferente da crença na unidade da pessoa de Cristo e na dualidade das duas naturezas.

2.2 Após O Concílio de Calcedônia.

Os monofisitas e monotelistas permanecem no erro eutiquiano, mas a Igreja supera tais doutrinas.

Leôncio de Bizâncio demonstra que a natureza de Cristo não é impessoal, mas in-pessoal, tendo a sua subsistência pessoal na pessoa do Filho de Deus.

João de Damasco, expoente máximo do pensamento oriental, acrescentou a idéia de que há uma circum-incessão do divino e do humano em Cristo, uma comunicação dos atributos divinos à natureza humana. de modo que esta é deificada e também podemos dizer que Deus sofreu na carne. Mostra a tendência de reduzir a natureza humana à posição de mero órgão ou instrumento do Logos, bem que admite cooperação entre as duas naturezas, e que a pessoa única exerce ação e vontade em cada natureza, embora a natureza humana esteja sempre sujeita à divina.

Na Igreja ocidental, Felix, bispo de Urgel, defende o adocionismo. Considera Cristo, quanto à sua natureza divina, o Logos, como unigênito Filho de Deus no sentido natural, mas quanto a Cristo, no Seu lado humano, como um Filho de Deus meramente por adoção. Felix procura preservar a unidade de pessoa salientando o fato de que, desde o momento de Sua concepção, o Filho do homem foi absorvido na unidade da pessoa do Filho de Deus. Faz-se distinção entre filiação natural e adotiva, e esta não começou com o nascimento natural de Cristo, mas teve início por ocasião de Seu batismo e se consumou na Sua ressurreição.

Na Idade Média, devido a várias influências, como a imitação de Cristo, as teorias da expiação,e do desenvolvimento da doutrina da missa, a Igreja enfatizou fortemente a plena humanidade de Cristo. A divindade de Cristo passou a ser vista mais como o coeficiente infinito elevando a ação e paixão humanas a um valor infinito.

Pedro Lombardo tinha conceitos docéticos na sua cristologia. Não hesitava em dizer que com relação à Sua humanidade , Cristo não era absolutamente nada. Este niilismo foi condenado pela Igreja.

Para Tomaz de Aquino, a pessoa do Logos tornou-se composta na encarnação, e Sua união com a natureza humana impediu esta última de chegar a ter uma personalidade independente. A natureza humana de Cristo recebeu dupla graça em virtude de sua união com o Logos – a) a graça da união, que lhe comunicou sua dignidade especial, tendo se tornando objeto de culto; b) a graça habitual, que o mantinha em Sua relação com Deus. O conhecimento de Cristo era duplo : um conhecimento infuso e outro adquirido. Há duas vontades em Cristo, mas a causalidade última pertence à vontade divina, à qual a vontade humana está sempre sujeita.

3 – A Doutrina de Cristo Depois da Reforma.

3.1 – Até o Século Dezenove.

A Reforma não trouxe mudanças à doutrina da pessoa de Cristo. As Igrejas Romana e Reformada subscreveram a doutrina de Cristo em termos do Concílido de Calcedônia. Há peculiaridades na cristologia luterana.

A doutrina de Lutero da presença física de Cristo na Ceia, levou ao conceito de comunicação de propriedades, com o sentido que “cada uma das naturezas permeia a outra, e que Sua humanidade participa dos atributos de Sua divindade”. Os atributos de onisciência, onipotência e onipresença foram comunicados à natureza humana de Cristo ao tempo da Sua encarnação.

Alguns teólogos luteranos afirmam que Cristo pôs de lado os atributos divinos recebidos na encarnação, ou os usava ocasionalmente. Outros dizem que Ele continuou de posse destes atributos durante toda a sua vida terrena, mas os manteve ocultos ou só usava secretamete.

Os teólogos reformados rejeitam esta doutrina luterana como eutiquianismo ou fusão das duas naturezas em Cristo. A teologia reformada ensina a comunicação de atributos, de modo diferente. Depois da encarnação, as propriedades de ambas as naturezas podem ser atribuídas à pessoa única de Cristo. Diz-se que a pessoa de Cristo é onisciente, embora tenha conhecimento limitado; é onipresente, mas limitada em qualquer tempo particular, a um único lugar. Diz a Segunda Confissão Helvética : ” há no único e mesmo Jesus, nosso Senhor, duas naturezas – a divina e a humana; e dizemos que estas são ligadas ou unidas de tal modo que não são absorvidas, confundidas ou misturadas, mas, antes, são unidas ou conjugadas numa pessoa de modo que podemos cultuar a um Cristo, nosso Senhor, e não a dois.

3.2 – No Século Dezenove.

Até o presente tempo o estudo da pessoa e natureza de Cristo, era teológico resultando numa cristologia teocêntrica. No final do século XVIII, há a procura pelo Jesus histórico, conduzindo a uma cristologia antropocêntrica. A distinção entre o Jesus histórico, delineado pelos escritos dos Evangelhos, e o Cristo teológico, fruto da imaginação dos pensadores teológicos, reflete-se no credo da Igreja. O Cristo sobrenatural abriu alas para um Jesus humano; a doutrina das duas naturezas abriu alas para a doutrina de um homem divino.

Scheleiermacher, considerava Cristo como uma nova criação, na qual a natureza humana é elevada ao nível da perfeição ideal. A singularidade da Sua pessoa consiste no fato de que Ele possui um perfeito e vívido senso de união com o divino, e também realiza com plenitude o destino do homem em Seu caráter de perfeição impecável. A Sua suprema dignidade encontra a sua explicação numa presença especial de Deus nele, em Sua consciência singular de Deus. Para ele, o Verbo se fez carne, significa que Deus encarnou na humanidade, de modo que a encarnação expressa realmente a unidade de Deus e o homem.

As teorias quenósicistas, representam uma tentativa de melhorar a elaboração da doutrina da pessoa de Cristo. A “quenosis” ensina que Cristo “se esvaziou assumindo a forma de servo”. Para eles, o Logos se transformou literalmente num homem, reduzindo-se às dimensões de um homem que cresce em sabedoria e poder, e depois se torna Deus novamente.

Gess, quenosicista, propunha manter a realidade e integridade da humanidade de Cristo, e dar vivo relevo à grandiosidade da Sua humilhação, na qual Ele sendo rico, fez-se pobre por nós. Contudo, não envolvia uma linha de demarcação entre Deus e homem.

Doner, da Escola Mediadora, ensina a doutrina da encarnação progressiva. Ele via na humanidade de Cristo uma nova humanidade com especial receptividade para com o divino. O Logos, princípio da auto-concessão de Deus, juntou-se a essa humanidade, de modo que em estágios há sempre uma crescente receptividade da natureza humana para com a divina, e não alcançou o seu estágio final, a não ser na ressurreição. O resultado final é que Cristo consiste em duas pessoas, o que deve ser rejeitado.

Albretcht Ritschl, tem uma cristologia que parte da obra de Cristo, não da Sua pessoa. A obra, determina a dignidade de Sua pessoa. Embora mero homem, mas em vista da obra que realiza e do serviço que presta, Lhe é atribuído predicados de Divindade. Ele rejeita a preexistência, a encarnação e o nascimento virginal, porque não há ponto de contato na consciência crente da comunidade cristã. Cristo foi o fundador do reino de Deus, de algum modo induz os homens a ingressarem na comunidade cristã e a terem uma vida motivada pelo amor. Cristo redime o homem por Seu ensino, por Seu exemplo e por Sua influência única, sendo portanto digno de ser chamado divino, de ser Deus. Conceito semelhante é exposto por Paulo de Samosata.

A doutrina de Cristo hoje é exposta com base na idéia panteista da imanência de Deus, a idéia de uma unidade essencial de Deus e o homem. As duas naturezas de Cristo desaparecem, dando lugar a uma idéia panteista de Deus e o homem. Todos os homens são divinos, porque todos tem em si um elemento divivo, e todos são filhos de Deus, diferindo de Cristo somente em grau.

Barth e outros pensadores se erguem contra essa doutrina da continuidade de Deus e o homem. Há sinais de retorno à doutrina das duas naturezas. Mickelm confessa em “Que é fé?”, que durante muitos anos, afirmou confiadamente a atribuição a Cristo de duas naturezas numa pessoa tinha que ser abandonada, mas foi um mal-entendido.

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